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Construtores de Almas

                                      Discere, contribute,docere non: saluto sine donis!

 

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                                                         Sobre  o autor :                      

Professor e escritor de romances, textos teatrais, canções e promotor de silêncios profissional, atuando na área há séculos e aprendendo cada vez mais, pois as gerações invariavelmente se destacam por suas imperfeições, mas, nas entrelinhas há flores, que desabrocham, perfumam e morrem com a mesma velocidade com que a luz das estrelas chegam até aqui.

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                                              Ninguém iria acreditar...

 

Todas as minhas ações pecaminosas, por mais tortuosas que pareçam, são como frutas agridoces derretendo na língua, causando diferentes sensações, sabores distintos, sentimentos rumorosos... A neve sob a visão de quem está com o corpo quente, e na sequência sob o toque gelado dos flocos.

Todos os meus olhares mal intencionados, cheios de tesão e exigências são maremotos distantes na escuridão da noite em alto mar, que ninguém vê, mas percebe por instinto, por mais leve que o seja, e de alguma forma aquelas borboletas no estômago inquietarão mais do que incomodarão, e misteriosamente passarão a fazer parte do dia-a-dia, nos intervalos em que, do nada, se sente observada, ou cuidada, ou...

As minhas ações intempestivas que lhe encurralam contra a parede e lhe obrigam a olhar em meus olhos, sei que lhe ruborizam levemente, e a expectativa faz uma mulher virar uma fera. Imagina o que está por vir, mas não sabe se quer ou se vai resistir; imagina se tentar escapar lhe fará infantil e medrosa, ou se ficar dará a entender que era o que esperava há tempos e eu levei muito tempo a tomar a decisão de lhe espremer como a um pote de mostarda e me deliciar com o seu sabor viciante misturado a todos os outros sabores que se acoplam inexplicavelmente e transcendem todos os prazeres possíveis.

Estou enrolado para dizer que a razão para tudo isso é você. Sou movido a você, e amo os seus movimentos; você é a causa de todas as coisas gostosas que eu quero e procuro; a razão dos meus sonhos confusos, adolescentes, dos quais relembro pedaços, como em um quebra-cabeças, e me estimulam a passear os olhos pelo seu corpo vorazmente, com um meio sorriso vampiresco, faminto, que deveria lhe intimidar, mas não causa nenhuma reação.

Até que você, um dia de sol cujo fim de tarde enterneceria a um urso, me observando em pé, mãos nos bolsos das calças, olhar através da janela, o pensamento distante... E vem até mim, virando-me de frente, pendurando-se em meu pescoço, enroscando as pernas em torno da minha cintura, me beijando como se o mundo estivesse acabando, devolvendo na prática tudo o que eu imaginava dividir com você, assim de uma vez, como uma enxurrada ladeira abaixo, arrastando tudo o que encontrava, roupas, sapatos, suspiros, pedidos com vozes entrecortadas.

E terminamos o dia no sofá do escritório, abajur aceso, sorrisos incontidos, latinhas de cerveja nas mãos, tendo certeza de que a noite seria longa e inesquecível, para ambos. O amanhecer viria, e com ele os trabalhadores da empresa. Só aí pensaríamos em algo para dizer. Entre sorrisos, sabendo que ninguém iria acreditar.

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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         Os momentos em que nos tornamos imortais

 

A dose de conhaque que lhe molha as pernas para que eu lamba é insuficiente? Então mantenha os olhos fechados e sinta o leve ardor da menta, que refresca as coxas ao toque da minha língua.

As fendas em que a paixão se esconde e nas quais os sabores vivem senão descobertas pouco a pouco, se eu tiver o zelo e a paciência exigidas de um homem cujo talento é lhe presentear com sensações inexplicáveis, capazes de retirá-la desse mundo e revirar os olhos, completamente entregue às minhas ferramentas da paixão que são nada mais do que o meu próprio corpo à sua disposição.

Os dedos curiosos que tocam tão suavemente que as digitais permanecem, e logo na sequência aumentam a intensidade com urgência, e se colocam inteiros, e exploram meticulosamente até arrancar suspiros e palavras sem nexo.

A língua voraz, que tem a intenção de lhe contar segredos através do roçar ousado que alivia a fome como a sobremesa antes do jantar, sem amainar o poder que tem o manjar dos deuses para a lua alta, como testemunha, saborear, imaginando o sol, o qual não pode tocar assim abertamente, sem receios ou pudores.

Por fim, os pedidos loucos, sussurrados, insanos, que não aguentam mais esperar para se desmanchar em estertores inesquecíveis, entre urros e gritos, implorando por mais, e ao mesmo tempo querendo que termine para que não mate ao passar do auge do prazer humano.

O mover dos quadris, a respiração ofegante, entrecortada, os sussurros recheados de promessas e agradecimentos, o coração acelerado como o sobe e desce, exigente, forte, fundo, querendo tudo, tatuando corpos com o perfume e as marcas que depois de algum tempo somem ao olhar alheio, mas ali permanecem para sempre, basta encarar o espelho após o banho quente e as lembranças retornarão ainda mais potentes, tornando o sabor na boca, e no pensamento, e no corpo ainda mais realistas. É quando se percebe ser impossível escapar do amor verdadeiro, feito com todos os sentidos, esculpidos para durar além da existência.

Nus, descansados em um torpor maravilhoso, abraçados com o calor dos corpos misturados e o esquecimento do mundo lá fora, é quando percebemos haver um mundo próprio para cada casal que se ama inexoravelmente, e se entrega sem temores, sem temer as armadilhas, mantendo a sanidade ao retornar ao tempo comum, que corre sem parar ignorando os problemas e obrigando-nos a duvidar do local sagrado que habitamos no corpo um do outro.

Nesses momentos somos imortais, minha senhora, e a importância disso é essencial apenas para nós dois.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

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         Rei plebeu, felicidade inigualável e inalcançável

 

Quando dizem não, querem dizer sim; talvez, com certeza. Significa não. E um sim, é obviamente uma declaração de morte. Ao dizerem sim, elas já consideram que possuem a sua alma, os seus desejos e as suas posses. Já está fisgado e será aterrorizado para sempre, um mero lacaio entre mãos suaves e vontade férrea, carícias inesquecíveis e ordens frias e cínicas.

Não se surpreenda que os homens sem brio e em busca de facilidades procurem as garotas mais simples, dotadas de beleza comum, mas dispostas a agir com docilidade e consciência servil, evitando-lhes raciocinar e sofrer como os que escolhem as dissimuladas duras na queda.

Se oferece uma rosa, elas dizem ser insuficiente e um descaso, mas se não oferece rosa alguma será taxado como um explorador desalmado que desfruta gratuitamente de sua beleza e companhia e sequer se lembra de fazer um agrado merecido e de bom gosto. Ah, se oferecer dúzias de flores é considerado um exibido de péssimo gosto, portanto desprezível entre mulheres de tão alto nível!

Os homens que ostentam bens e procuram seduzir através das posses, joias, automóveis, viagens e presentes inimagináveis conseguem algum sucesso, mas não a garantia de retribuição, porque as consideram como mais um objeto para a coleção.

Elas jamais falam diretamente, fazem voltas enormes e insinuam com frequência, esperando que você descubra por si mesmo o que nenhum homem normal, simples por natureza, descobriria.

Costumam açoitar com maldade usando charme e carisma, beleza e promessas nunca ditas explicitamente, o que pode, caso entenda errado, passar a vergonha mais inigualável do universo, que o obrigará a afogar com álcool e comiseração. Se não tomar cuidado, virará um farrapo humano.

Os que tentam domá-las arriscam a vida e a sorte, mas podem encontrar o amor de sua vida. Insistência, persistência e força para suportar as patadas e humilhações são armas necessárias. Não abrir mão em pontos cruciais também, mesmo que elas esperneiem e ameacem. Você estará demonstrando princípios e orgulho, o que é favorável para alcançar a pontuação que lhe abrirá a porta do paraíso, adocicado e amargo, desejável e apavorante, mas na mistura certa, na temperatura ideal e equilíbrio perfeito.

Nunca será fácil lidar com elas, pois somos razão e força facilmente domável por suavidade e astúcia. Uma vez encontrada, não desejará nada além, e viverá como um rei plebeu cuja felicidade é inigualável e inalcançável.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

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                                            Filosofando com Helena

 

Helena não se distraia por causa dos seus pensamentos festivos causados pela ausência de foco nas coisas mais importantes para o seu mundo particular.

Não viaje pelas trilhas distantes com o seu pensamento afiado, criança! Isso pode cortar a sua estima e embaralhar ainda mais a sua confusa lógica. Não existe futuro, Helena, nada além de um presente sem fim, que engana fingindo que algo ainda está para acontecer quando se trata apenas de uma boa ilusão, fabricada pelo subconsciente para manter as suas ambições fluidas, direcionando sutilmente o que você acha necessário para viver bem, com um status que não é real. Helena esse mundo não existe!

Só o seu mundo existe, e não pode controla-lo, então não pertence 100% a você. É como um enorme jardim bem cuidado, com um caminho que leva à floresta ancestral, que não precisa de cuidados, pois sua beleza é eterna, modifica-se naturalmente século após século sem outra ajuda que não seja a divina, com o poder de autocura incomensurável.

Helena não se prenda aos instintos fugazes, nem os ignore completamente; o equilíbrio é o segredo do que chamam sorte com o merecimento adquirido é o segredo do que chamam sorte com o merecimento adquirido através do esforço.

Tudo o que eu quero explicitar é que tudo é complicado, apesar dos vários caminhos a tomar, todos decisivos. Só que não afetarão apenas a você, querida, mas a todos os que, de uma forma ou de outra fazem parte de sua vida, a mesma que não é só sua, pelo mesmo motivo que o seu mundo não é só seu.

Quando se encara no espelho, o que vê? Sim, antes de maquiar, de fraudar a Helena verdadeira que só você conhece, o que enxerga? Isso lhe causa medo? Insegurança? E a partir daí, o que os seus movimentos significam? São coordenados e relaxantes ou automáticos e obrigatórios?

Talvez você queira ser outra pessoa aos olhos de outras pessoas, e reage da maneira que imagina ser o que as outras pessoas queiram lhe enxergar é comum, Helena, mas garante todo o acerto?

E a sua reação no final é confiante ou se sente estranha ao sentar no sofá da sala com uma taça de vinho e uma sensação de vazio no peito?

Helena, as sensações distraem mais do que a realidade em si mesma, e os pensamentos alcançam uma extensão absurdamente longa! Sendo sincero, não há como fugir, é a vida! O que se pode fazer é buscar adaptação sem enlouquecer no processo.

Não sei se estou contando tudo isso a você, ou conversando comigo mesmo, querida Helena. Filosofar ainda não paga imposto, ainda bem.

 

                                                                                     Marcelo Gomes Melo

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                                                      Só os escolhidos...

 

Eu viajaria mil léguas por ela, mas os mares estão bravios, a Terra está rachando e os ares estão rebeldes, fazendo com que indivíduos capitulem, revejam as suas metas de vida e se preocupem com a própria sobrevivência nesses tempos inodoros, incolores e incapazes de garantir qualquer segurança, individual ou coletiva.

Ainda assim eu superaria todos os obstáculos para ficar com ela, lutando com todas as forças físicas até o esgotamento fatal, e me rebelaria contra as forças da natureza, ainda que fosse uma batalha perdida que me custasse a vida por diversas vezes, como em um jogo de vídeo game.

Os meios físicos em um ambiente em franca deterioração não seriam nem um pouco eficazes, embora satisfizesse o ódio e aliviasse o estresse antes do suspiro final. O Pior de tudo: ficar sem ela.

Um homem não deve desistir do seu amor jamais, mesmo que lhe custe a vida. Não se trata de filosofia romântica, mas de objetividade transcendental. Além da vida, de forma etérea poderei caminhar mil léguas por ela, até encontra-la e agarrá-la fortemente em meus braços.

Um novo tipo de amor seria inaugurado, o de mortais que continuaram a querer um ao outro em um plano diferente, mais fácil de lidar por não poderem ser atingidos nem magoados, e os seus objetivos estariam garantidos apesar das provações da vida existe para caçoar dos mais fracos e impulsionar os resistentes a alcançar todos os desejos provocados através dos sonhos, insinuando que poderiam se realizar com o esforço certo, a atitude correta e inteligente; acima de tudo corajosa e repleta de fé.

Carregaria o universo nas costas para permanecer com ela, ser feliz com ela por algumas eternidades em sequência. Em outro plano isso é possível, e daqui, observando o planeta se dissolvendo e levando com ele bilhões de descrentes, aprendi o real significado de morrer por amor.

É tudo muito simples, mas parece complicado, pois morrer por amor é viver para sempre com o seu amor, imune às trapaças e armadilhas nas quais a imensa maioria cai. Só os escolhidos sobrevivem.

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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                   Manusear cristais usando luvas de boxe

 

É impossível determinar o que se passa nos corações alheios, e dificílimo conseguir transmitir o que se passa no próprio coração. O cérebro, responsável pela parte lógica e racional, pode ajudar ainda menos, pois envolvido vira uma confusão imensa despertando as reações mais poluentes no corpo, causando um ser humano comum e saudável em alguém doente e instável, a ponto de desconfiar de si mesmo em relação à realidade ou ao sonho.

O ponto de partida para os mal-entendidos é justamente essa dificuldade em ler com clareza e correção o que se passa nos corações e mentes dos nossos interlocutores, as pessoas com as quais convivemos e com quem nos importamos.

Uma atitude bem-intencionada pode dar completamente errado apenas porque o alvo da boa intenção entenda o oposto e se sinta afrontado, agredido e desmerecido. E a reação causará transtorno imediato, a faísca necessária para uma explosão em que todos sairão feridos emocionalmente, e muitas vezes sem retorno. Um desperdício de amor.

O problema é que não há como prever e dificilmente como consertar coisas assim, porque são rotineiras e não há diálogo, porque ninguém tem tempo para ouvir, querem apenas falar, descarregar o estresse acusando sem se colocar no lugar do outro. As boas intenções não são notadas e apenas levam ao inferno, frustrando a ambos.

Sempre há um dos envolvidos que não é propenso a repartir os desgostos, e nem tem com quem o fazer, por ter imensa dificuldade em confiar em outra pessoa. Ao outro resta conversar, expor o acontecido e receber bons conselhos, visões de ângulos diferentes que ajudarão a compreender os motivos bondosos que levaram, sem querer, a desentendimentos durante e até sem volta.

A fragilidade do relacionamento humano é permanente, semelhante a manusear cristais usando luvas de boxe, passando da alegria máxima a uma tristeza profunda que produz mágoa quando visava construir castelos de sonhos para proteger o amor, revitalizando a convivência e aumentando a autoestima, e com ela a felicidade pelo maior tempo possível.

Essas armadilhas estão no caminho o tempo todo e não há como vencê-las porque sempre surpreendem, e amantes apaixonados são ingênuos, passíveis de encontrar sofrimento em cada fresta da armadura da paixão.

Por isso as desistências, as mudanças bruscas de amor para ódio, ou até desprezo, destruindo o que poderia ser uma bela história de amor. Bom, é preciso lembrar que diversas e imortais históricas de amor terminaram mal por causa de simples mal entendidos, e torrentes de sangue foram derramadas, e mártires foram forjados como exemplos que muitos desejam seguir, sem se dar conta de que o final arrebatador foi triste e mortal, separando-os eternamente.

Não seria correto desejarem consertar os enganos cometidos a partir de determinado ponto para que o final fosse realmente feliz até o final dos tempos?

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

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                                                                    Sair da vida cedo demais

 

Quando ela afirma que ama, não sabe o que diz, apenas repete o que vê nas novelas às quais assiste comendo macarrão frio, com uma toalha cobrindo os cabelos recém lavados.

É impossível que um ambiente assim alimente um amor que cresça entre as ervas daninhas da rotina, quebrada por mais filosofia barata e hipócrita que vem preparada como fast food para falsamente preencher a fome por algo que sustente e liberte a opressão silenciosa que a solidão reivindica todas as noites.

Se ele admite que ama, está sendo apenas covarde, tentando incluir-se entre o grupo dos sortudos, sem ter noção do que isso realmente significa. Ele quer o calor de uma família sem um certificado divino de que o merece. Ele, na verdade nem crê no que diz em voz alta, mas procura fingir em nome de uma chance que seja de estar entre os privilegiados. Ele não faz ideia do que diz, mas não questiona, porque isso pertence às mulheres, essa coisa de questionar, de tornar a própria vida um inferno.

Quando ambos afirmam amar, significa amar, significa que foram fisgados definitivamente pelo deus da ironia e cinismo, que se diverte ao brincar com duas insignificantes vidas que chorarão por algo que não conhecem e nem dominam. Assistem nos filmes, acreditam nas séries esquecendo que acabam, enquanto a vida continua, e os percalços inevitáveis vencerão em algum momento, chegando a um final irreparável.

Palavras inventadas com algum intuito, geralmente financeiro, proliferam pelos lábios errantes, comemorações para driblar horrores, ações patéticas realizadas para aliviar o peso da má sorte que os acompanha diariamente.

Amor é o maior dos enganos. É o golpe final para dividir os males e esconder que o dia-a-dia é letal, as semanas são mortais, os meses destrutivos. O jogo do amor oferece algumas vantagens e inúmeras derrotas e perdas. A escolha depende de cada um, viver se enganando, procurando alívio nas pequenas desavenças enquanto o pior fica sempre por vir, aparentemente cedo, mas jamais o suficiente.

A existência é um trailer de um thriller qualquer, prometendo misérias com uma premiação qualquer no fim. É tudo o que importa, não querer saber a verdade para não sair da vida cedo demais.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                                                              O verdadeiro castigo eterno

 

Morte é a única realidade dentre as habitações etéreas de uma alma universal. Sê realista, tu, vítima das ilusões contrastantes que imergem os pensamentos breves de alegria que não existe. Tudo o que se pode crer ao cruzar o portal dos enganos profundos é a fragilidade a ti vendida como esperança desde que ousaste nascer!

Repito, deixeis que a ti se revele a única verdade que o destino lhe reserva: a morte como princípio, meio e fim das tuas dores inerentes a uma existência vil disfarçada de prêmios e ganância!

Tu, mortal indecente que crês nas esbórnias de uma vida sem limites, crente da absolvição por tuas lágrimas de crocodilo ao devorar a tua presa, passais distante do único compromisso que te alcançará iminente, e te prenderá para sempre em um exílio sem enganos, fazendo-te urrar, “ó morte, que vigiais meus desdouros!”. Aliviai o meu fardo tirando-me do mundo e me iluminando desse limbo sufocante no qual não sou nada, não me vejo como nada e não acredito mais em nada, porque fui enganado desde o início e aceitei como vitória sem contestar o lado sombrio que era a única realidade o tempo todo.

Não há luz nem vitória que não seja a incutida em tua mente cheia de vícios e falhas. Tu que achas que o final de tudo é a ausência de vida, não terá tempo para implorar por perdão, porque a morte é a certeza inefável e o alívio final, dos quais poucos acessarão sem medo.

Viver é a grande provação e o desejo permanente por coisas inúteis que nublarão a tua carcaça que sofre e crê que se trata de sonhos e bendições vindouras.

Essa é a hora de saber finalmente que estás alijado do direito de morrer, e não haverá alívio para a tua masmorra pessoal jamais! O que acreditavas ser importante é apenas punição, mal intrínseco ao teu egoísmo que a terra tragará inclemente para níveis cada vez mais baixos e aterrorizantes.

Quando perceberdes o que realmente deverias escolher, o alívio final de todas as torturas, verás que é tarde e o sofrimento apenas fará de ti mais um farrapo humano espancando a teus pares em nome de uma falsa salvação.

A ti não será permitido morrer, corvo agourento que se alimenta dos olhos dos infiéis. Tudo é horror e não há coisa alguma que possais fazer para escapar do castigo eterno.

 

                                                                                      Marcelo Gomes Melo

 

 

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                 O fim da existência como a conhecemos

 

Os homens criaram a sociedade para exercer o controle das multidões com certa facilidade através de regras e normas, às quais chamaram de leis.

Em segundo momento usaram as leis para que a maioria se contentasse com menos, aceitando o poder de uma minoria esperta que buscava hipnotizar para liderar, fazendo-os crer que o Estado está acima do povo. Outra corrente os tentou convencer de que a escolha da maioria prevaleceria, mas trataram de colocar cabrestos e direcionar o voto da maioria, implantando a tese de que o bom cabrito não berra.

Logo após a essas medidas, entraram em conflito uns com os outros, aparentemente para prevalecer com os seus ideais em detrimento dos outros. O que corria nos bastidores, entretanto, era que um acordo entre ambos os alternaria no controle e dividiriam as riquezas igualmente, gerenciando os tolos com facilidade maravilhosa.

Sendo como eram, foi impossível evitar período de crises em que roubavam deles mesmos e causavam tumulto que vinha a público e colocava em risco o tratado. Sempre encontravam um denominador comum e colocavam panos quentes.

Um erro de ambos tornou, a longo prazo, um problema que os atormentaria: subjugaram as fêmeas. Não as incluíram no pacote de propina, não repartiram igualmente o poder. O mesmo fizeram ao ignorar as minorias, produzindo uma contradição atroz para ambos os lados. Surgiu uma terceira via em que mulheres, julgando-se minorias, apontando outros grupos minoritários sem voz e sem poder, portanto sem uma fatia dos lucros, exigiriam uma participação real, assumindo poderes e enfrentando o lema da democracia, que o desejo da maioria deve ser respeitado e seguido.

Agora minorias julgam ter mais direitos do que o voto da maioria, e procuram obriga-los a abaixar a cabeça aceitando novas regras vindas da minoria para dominar o que a maioria deseja e acredita.

Virou o “samba do crioulo doido”, com todos brigando entre si, causando crises e fazendo acordos temporários que serviriam apenas para tornar um dos lados miserável; assim que o pacto mudasse, os miseráveis seriam outros.

Tribos. Com ideais absurdos. Sem ideais. Tribos lutando sem saber o porquê, causando desespero e morte, sofrimento para a maioria, sempre. Como a sociedade está se desintegrando rapidamente para dar lugar a um novo modo de vida, com seres diferentes dos humanos, em ambiente modificado artificialmente?

Estamos assistindo o fim dos tempos como o conhecemos? Algo restará da história para que a nossa espécie tenha espaço e chance de reaver nossas leis? Ou tudo chegará ao fim sem que nos demos conta, como um clarão no meio da noite destruindo tudo o que construímos e apagando tudo em que acreditamos? Aguardemos. A saber.

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                           Sensual. Haveria outra vez?

 

Beijando os seus lábios com força naquele local quase escuro, a recíproca mais do que verdadeira quase me surpreendeu, porque ela costumava resistir estoicamente ao meu charme confuso e sem nexo, às vezes ironicamente, às vezes com sorrisos descrentes retrucando às minhas sutis investidas sem uma resposta definitiva.

Isso me levava à loucura e, irritado eu prometia desistir e resistir, partir para outra que não se julgasse a última bolacha do pacote e não se dignasse a dizer um não definitivo. Um porque não convincente, uma afirmação solene de que não sentia atração por um homem como eu.

E ali estávamos nos beijando furiosamente, ela entre a parede e o meu corpo, minha coxa entre as dela fazendo pressão, impedindo-a de mover livremente o quadril, o que ela insistia em fazer, aumentando aquele formigamento pelo corpo, as respirações entrecortadas e as mãos explorando o corpo um do outro com tesão incontido, e tudo era macio, aquecido e gostoso, o que só aumentava a palpitação e o nível de exigências.

Começara do nada, como tinha que ser. Nessa noite eu não instigara, nem fizera impacientes perguntas sem resposta por parte dela, o que me deixaria com raiva, e cínico a provocava, o que iniciaria mais uma discussão sem sentido, olhares cheios de eletricidade e relutância de ambos, como se fosse uma disputa.

Da minha parte parecia recusa, e isso doía no coração, me tornando um selvagem interiormente, sem fazer ideia do motivo de suas negações. O estranho era que às vezes parecia o contrário, um raio de luz por uma fresta a qual eu não ousava alargar por orgulho e medo de ser recusado.

Não havia razão para o que começamos. Mesmo que tentasse eu não conseguia lembrar quem dera o primeiro passo e qual foi a fagulha que despertou o incêndio e nos fez misturarmos os corpos com tanto desejo que a urgência venceu todos os temores e a tentativa de discrição.

Enquanto a despia e beijava, era despido e mordiscado; os corpos libertos dos cadeados de pano desfrutavam do calor que emanavam livremente. Minha mão em torno de sua cintura, as mãos dela em meu peito... A minha coxa que entreabria as dela e a apoiavam sobre a mesa, me encaixando, em pé, entre elas.

Suas mãos trêmulas em meus cabelos segurando com força exigia estocadas, suaves no início, exigentes na sequência! O modo como erguia as pernas apoiando em meus ombros expunha a crueza e beleza de uma paixão sem escalas, uma entrega total em que as palavras se transformavam em grunhidos e o prazer era o objetivo inerente, indiscutível e indissociável dos movimentos atarantados que fazíamos.

Quando a virei de costas para mim, dobrada sobre a mesa, as mãos segurando a borda com força, dispus-me a acaricia-la por inteiro com as mãos e com os lábios famintos e sedentos, aos quais ela reagia em movimentos de extrema beleza; provocantes, que quase imploravam para que eu continuasse a exploração, não me fiz de rogado durante toda a madrugada, sozinhos no prédio à meia luz, no escritório da empresa no qual escorregamos para o tapete, consumidos por sentimentos inenarráveis, indistinguíveis, adultos com uma pontinha adolescente no conhecimento íntimo um do outro, até que alcançamos um êxtase maior, que nos tirou a consciência e nos fez gritar de satisfação, em seguida, abraçados, controlando a respiração... Adormecemos assim, nus e abraçados, felizes e saciados.

De manhã, antes de o expediente começar ela já havia se retirado sem que eu percebesse. Foi um dia seguinte incoerente, de emoções inconclusivas, ambos com as mesmas roupas do dia anterior, não sei se notaram. Não nos falamos, mal cruzamos os olhares, entre envergonhados e felizes.

O mundo continuava igual, a não ser para nós dois, que naquele momento vivíamos à parte, recordando cada segundo e retomando os arrepios e desejos. As perguntas apenas se acentuaram em nossos cérebros sexualmente dominados: haveria outra vez? Por que houve uma vez? Por que foi tão... Bom?! Como iríamos viver dali em diante? Cupido veio armado e nos metralhou dessa vez? Com o coração aos saltos passamos o dia pensando se haveria alguma chance de nos encontrarmos sozinhos no elevador...

 

                                                                 Marcelo Gomes Melo

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                                     Da arte de possuir

 

Essa é a febre que me consome no contorno do seu corpo macio! Esses suspiros que me invadem e ofegante prossigo, tateando os caminhos mais deliciosos e macios no vale da perdição de um homem sensível.

É o momento em que não posso parar de explorar essa caverna cruel, a umidez que me obriga a deslizar fundo sem forças para pensar, empenhadas em consumir, a pisar no paraíso reservado a poucos. E a querer e querer até desmaiar sem poder para raciocinar, envolvido em prazer sensual sem fim.

É a lembrança que habitará o meu coração, todos os sentidos utilizados para desfrutar mais e mais; nada mais existe. Quando é recíproco o paraíso fica real e a espera se repete, ansiosa para novos encontros, todos os pareces, o sem fim inserido em você e em mim.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

 

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                                                       A rainha de todos os encantos

 

Ela era o encanto dos jovens, a atração dos adultos, a paixão voraz dos maduros. Sabia como atuar sem se comprometer, à procura de diversão sensual, aprendizado tântrico, sexo sem compromisso.

E misturava a essas aventuras conversas triviais, lembranças de uma juventude problemática e a sede pelo conhecimento obscuro com o qual sempre sonhou.

Desde menina aprendendo a controlar a quem quer que fosse do sexo oposto, através de artimanhas intuitivas que não sabia de onde vieram, até aperfeiçoar com o passar dos anos, transformando-se em uma rainha imbatível em ser santa de dia e promessa de pecado a cada noite.

De vez em quando era obrigada a arcar com apostas erradas que as machucavam e obrigavam a fugir, mas sempre superava com as armas que possuía, naturais e artificiais.

Ela era o sentido para a vida dos fracos, o troféu dos poderosos e a glória para os comuns. Conseguia transitar normalmente entre todos, e suportava o destino com garra e elegância. Não era passível de confiança, jamais! Diga-me, porém, quem desses homens procura por confiança em um campo de batalha amoroso que acaba em tristeza e álcool? A morte vira prêmio de consolo, nesses casos. Os que vivem tentam e tentam novamente, perdendo o que têm, inclusive a dignidade, sem reclamar quando caem entre as rosas e se veem pisoteados pelos concorrentes mais fortes, que seguem os rios de sangue e prazer até que tudo termine em desordem física e mental.

Ela é a rainha de ouros, a dona do improvável, a sirene que dispara no cérebro de madrugada e atropela a razão dos incautos. Ela é suavidade entre as pedras que rolam e soterram os pedintes por um gole de sua atenção.

Os sinos do templo dobram três vezes e as águas do mar, geladas atingem as rochas com violência. Isso lembra as promessas de amor que ela jamais fazia diretamente; demonstra a avidez com a qual ela encontra o que é novo para acrescentar aos seus conhecimentos pervertidos.

A deusa do século novo é voraz sob o manto de uma tristeza chorosa e suave que fisga com facilidade a todos os que estão dispostos a vender o que lhes marca o corpo por uma dose de paixão, ajoelhados sob o poder imenso de sua falta de lealdade.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

 

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 O próximo apocalipse (emoções baratas no banco de trás)

 

Não espere nenhum reconhecimento de quem sequer lhe reconhece, e nem se esforça para isso; melhor, não tem interesse pelos seus pensamentos, prefere coisas mais simples, e você é mais um motivo de curiosidade. É possível se divertir imaginando coisas ou plantando coisas no pensamento da vítima de sua curiosidade, serve para passar o tempo e sorrir das diferenças de mundo, mas é altamente superficial.

Há muito disso por aí, pelo mundo, gente que prefere o que é fácil, mas também o vício pelo risco, buscando experiências diferentes para preencher um vazio imenso que só aumenta, e se torna incapaz de perceber o rastro de mágoa que deixa, preocupada apenas com as próprias mazelas, inocente sobre quem as criou, porque quando se olha no espelho não se enxerga.

Essas pessoas são criações de um século do egoísmo, vivem desconfiadas e apavoradas pelos fantasmas que elas mesmas criaram, e esse é um caminho sem volta. É quase impossível não encontrar alguém assim nesses tempos, e não se deixar envolver por alguém assim nesses tempos...

O importante é não lamentar quando as reconhecer e ao seu modus operandi. Incapazes de honrar sentimentos, inábeis para lidar com verdades, displicentes para reconhecer algo que lhes homenageie, concentradas apenas nos benefícios superficiais que as enganam e ferem, tanto quanto o fazem.

O mundo é escuro e a fome dessas pessoas imprudentes é impossível de saciar! Vivem para experimentar o máximo de emoções que consigam, não importa o que precisem sacrificar. No fim, o vazio no fundo dos seus olhos e as geleiras nos seus sorrisos falsos ajudam apenas a tornar a vida ainda mais artificial e os desejos menos valorosos; tudo o que querem é diversão barata em um banco de trás de um Fiat 147.

Esperar reconhecimento de quem não reconhece nem a si mesmo é perda de tempo, aumento de estresse, desespero adquirido.

E você se pega tentando agradar, viver como um escravo idiota confessando fraquezas que usarão contra você. É assim que as coisas seguem, que o mundo gira e os bons ficam pelo caminho, destroçados. Os ruins, também destroçados, convivem bem com a desgraça, são os demônios apavorantes com aspecto de flor e perfume de amor condenado. Vivem para arrasar e flutuar sobre tudo o que destroem sem emoção, sem compreensão, prontas para o próximo apocalipse.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

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                                                         O inferno é aqui! 

 

Eu mato porque está vivo, porque se já estivesse morto eu enterraria. O antídoto para as dores excruciantes que me acometem é a inevitabilidade dos acontecimentos. Tudo corre como um rio rumo à cachoeira, calmo em determinados pontos, perigoso em outros lugares, letal sob as corredeiras, barulhento a ponto de ensurdecer e enlouquecer. As suas águas parecem facas banhadas por lágrimas de plebeus.

Eu não tenho motivo para perdoar, ferroado constantemente pelas mazelas que me acompanham, com o zumbido irremediável dos que não dormem sendo recitado eternamente como um carma inexorável. Quando me pego lamentando trato de afogar com álcool em grandes quantidades, chegando ao precipício do suicídio, então resisto e resolvo sobreviver por mais um dia, remexendo nas entranhas dos inimigos com a ponta de uma lança poderosa.

Matar não é prazer, nem dever, é como respirar. Algo que se faz inconscientemente, natural como beber água. Não existe prazer, a vida é sinônimo de dor e desespero. Não há cura.

Evitar chegar a essa conclusão é retardar o sofrimento, mas recebe-los em doses homeopáticas não é a melhor escolha. Descobrir a verdade é perder as esperanças e estar preparado para fazer o necessário impiedosamente. Piedade é defeito, destruição é favor.

Mesmo assim, nada acaba após a morte para alguns, os que têm que lidar com as almas rebeldes, tolas e maleáveis. Seguir livrando o espectro, lavando-o com sangue é o único caminho.

Mundo torto, com inquilinos tortos, semimortos, vagando pelas planícies como abutres, destruindo tudo o que encontram, e como hienas, regalando-se com as sobras. Todos devem morrer duas vezes. Dois túmulos para criminosos que nem o sabem. O inferno é aqui!

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

   

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                              A verdade a respeito dos corações inquietos

 

Não acredite em ninguém, não creia em nada. Você está sozinho ao nascer e estará sozinho ao morrer. Não existem amigos, apenas corruptos desalmados tentando se beneficiar de algo que você tenha, ou usá-lo como degrau para subir em uma escala invisível que sacrificaria os bondosos.

Enxergue a todos por trás do que dizem, vá além do que pensam, esteja um passo à frente dos covardes sorridentes dispostos a humilhar-se para conseguir qualquer coisa; venderão os que chamam de amigos e empenharão os que chamam parentes.

Encare a sua vida como um balé à beira do abismo com os olhos vendados. Ouça o que dizem, se apegue aos detalhes, esteja com as defesas preparadas e ofereça sempre um ataque letal, não faça prisioneiros, não demonstre piedade, jamais sorria de volta. É perigoso apegar-se a qualquer pessoa. Qualquer um é um traidor em potencial.

Se quer viver mais, afaste-se das tentações, caminhe para longe e mantenha à distância de uma espada afiada, quem quer que seja. Caso tentem se aproximar mais do que isso, decapite-os sem outro motivo; sem qualquer motivo.

O mundo é cruel e insensível, povoado por canalhas hipócritas que ousam falar em amor sem o sentir, em humildade sem a conhecer, em paixão sem o compromisso. São filhos do dinheiro e seus escravos. Não confie em ninguém. Observe os seus gestos dissimulados, como ficam desconfortáveis quando pegos em flagrante, e satisfeitos com eles mesmos na proteção de seus quartos, no meio do silêncio culpado e seus pecados que se multiplicam.

Não existe bondade! Os bons já foram sacrificados, e os que não morreram é porque aprenderam com o sofrimento, e se tornaram zumbis ou instrumentos mortais. A chuva não lavará os pecados deles, o sol não iluminará os caminhos.

Acredite em si mesmo só até certo ponto. Como saberá se já não foi copiado pelas forças vigentes, o mal que acaricia e promete proteção, a liberdade falsa que habita uma mente vazia.

Destrua, se tiver a chance, antes que seja destruído. Amordace os pensamentos em seu cérebro, utilize o poder dos seus braços, golpeie incansavelmente, jamais perdoe!

A sua existência atual independe desses escrotos degenerados que fingem o tempo todo, cérebros rasteiros à procura de sangue para adquirir confiança, vendedores de mentiras indignos de viver, mas que vivem; nascem, crescem e morrem como ervas daninhas, agora e sempre.

Essa é a verdade sobre os seres humanos e a sua capacidade de contaminar a tudo o que tocam. Isso é o suficiente para que se declare eremita? É razão para que odeie sem conhecer e não deseje conhecer se estiverem vivos?

Acredite, saber é sofrer, conhecer é desacreditar. Não há amor do lado de lá onde os seus olhos confrontam. Tudo é sempre pior do que se imagina, por isso a ignorância é conforto para os corações inquietos.

 

                                                                                      Marcelo Gomes Melo

 

 

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            Apagando-se completamente na terra dos vagalumes

 

O que pode ser feito para que as coisas caminhem bem é irrisório no que concerne aos malefícios herdados, adquiridos intrinsecamente a partir da concepção. A habilidade inata não pode absolver as culpas nem suplantar as punições, porque não existem heróis.

A sensibilidade e a percepção são cristais desconhecidos, ignorados e imperceptíveis, eis o porquê de tantos desencontros, ignorância e falta de fé. O reino da desconfiança adia tragédias pessoais e coletivas, mas esfria ambientes e gera crueldade barata, sem motivo aparente.

Nada do que se tente fazer, seja alertar, bater na mesma tecla, acusar ou tentar desmascarar o que está visível, mas não claro será um suicídio, mental e literal. A bala que desabará edifícios e soterrará incautos, a doença que se espalha com o vento e aumenta o número de miseráveis é mais forte, poder que encolhe alternativas e procura vendar os fortes, corajosos o suficiente para enfrentar as derrotas e prosseguir incólumes sem olhar para os lados, curando as feridas com fé e saciando a fome com inteligência, sem negligenciar os sinais.

Açoitados pelo tempo, os conhecimentos se arrastarão e correrão do esquecimento, fadados ao pó, mas resistindo com fúria, pois são conhecimento, e, portanto, instrumento único para vencer o ostracismo e queimar a inevitabilidade, quebrando a corrente e tornando a existência de quem os conquiste suportável, blindada.

O que se pode acreditar nas coisas que fazem bem é nada perante a maldade que corrói corações insensatos em corpos insanos. A mudez em tempos de urros talvez não seja suficiente para salvar os covardes, que provavelmente se contentem com a margem, apagando-se totalmente na terra dos vagalumes.

O horror transmutado em cegueira não liberta; ao contrário, incinera os tolos, que serão carvão para aquecer a era das Trevas que os cerca, o ribombar das acusações em seus ouvidos, que os ensurdece, a destruição impossível de conter que os elimina.

Como seria possível discriminar os elementos naturais como se não o fôssemos? Apenas para usufruir e usurpar sem pudor, fingindo não saber até que sejam confrontados e encontrem a punição pela culpa acumulada, o destino de viver para destruir, em vão.

 

                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

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                              Mil mortes por ciclo, eternamente

 

“Do que você precisa?”. Ele sempre começava as conversas com os outros assim. “O que você quer?”. Era notório que todos os seres humanos queriam alguma coisa, desejavam alguma coisa e precisavam de algo. Começando uma simples conversa assim já os tinha dominado, pela simples razão de que se colocava na posição de um benfeitor; alguém com o poder de elevar o status de qualquer um.

Quando fazia essa pergunta observava curioso o brilho no olhar deles, a mudança de postura, o tratamento que mudava de cauteloso para respeitoso, ativados pela cobiça.

A partir desse momento os tinha nas mãos. Logo que parassem de negar o óbvio e oferecessem de mão beijada o motivo pelo qual lutavam, por que viviam, ele saberia tudo o que estavam dispostos a fazer para ter concedidos os seus sonhos.

A facilidade para manipular corpos era assim, simples. As almas viriam em seguida, igualmente simples. Quando ele lhes oferecesse migalhas, se satisfariam e se sentiriam reis; logo depois iriam querer mais, exigir mais. Ser rei era insuficiente, lutariam por um status maior: deuses. E para isso se sujeitariam a coisas ainda piores, seriam ainda mais escrotos por terem perdido a razão.

Na busca pela divindade venderiam mais do que as próprias almas, mas as dos filhos e parentes. Os entes queridos estariam comprometidos para sempre, merecendo ou não. Todas as gerações estariam pervertidas em nome da fraqueza deles, que assumindo-se reis, quiseram muito mais e morreriam tragicamente antes de alcançar qualquer divindade, mas levariam milhões com eles. Milhões de pessoas, porque o dinheiro ficaria, as joias ficariam, o poder mudaria de mãos.

Assim era o mundo desde o início, e os que pensam estar no topo da cadeia alimentar se enganam redondamente, pois há sempre alguém acima para jogar com as suas expectativas, os seus medos e sobretudo as suas ganâncias. Fisgados pelo anzol de ouro maciço, suave como nuvens, fortes como couro, desceriam as escadas rumo as profundezas pensando o contrário, que estavam se alçando aos céus, quando a verdade era que o processo os estava transformando em algo menor do que um ser humano, inferior a qualquer ser vivente.

Em qualquer situação a partir dali seriam os causadores do caos, o flagelo do planeta, os marcados para sofrer mil mortes por ciclo, eternamente. E o início era tão suave, tão gentil, tão inocente... Do que você precisa? O que você deseja? O que você quer?

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

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                        O dilema dos séculos: amar ou odiar?

 

Amar é doloroso demais. Temer por alguém, não poder sempre estar perto para proteger, alimentar, sorrir e dividir as angústias porque sempre se quer poupar o motivo de sua paixão e assumir todos os problemas. É um erro, entretanto, porque o mesmo desejo vem de ambos, e é impossível conciliar, gerando conflitos.

O amor é o prêmio maior que, assim que alcançado consome os dias dos abençoados por ele com alegria e felicidade capazes de fazer o coração parar; ao mesmo tempo incute um sofrer assassino que corrói por dentro, faz desconfiar das faculdades mentais e cometer as atitudes mais confusas e problemáticas do mundo.

As noites de vigília por uma saúde conturbada, ou por peripécias amorosas que invadam corpo e alma com um prazer incontável torna a vida intensa e espinhosa. As dúvidas causadas do nada, acalentando uma desconfiança que provoca brigas, acusações, ofensas, e depois remorso infinito, difícil de consertar se não houver capacidade plena para o reconhecimento das falhas e a humildade capaz de restaurar a confiança sem mudar as histórias felizes do passado.

Enquanto cura o amor deixa marcas profundas, cicatrizes que sempre voltam a doer, torturar e afetar a relação que estava boa e saudável. As sombras como uma nuvem escura sobrevoam as cabeças dos perdidamente apaixonados, mesmo em dias de sol, à espreita para invadir qualquer fresta no sentimento bonito e causar tempestades, adoecendo e até matando a quem instantes antes se julgava um deus na Terra, iluminado pelo amor imortal em um jardim perfumado lotado de promessas reais e palpáveis.

Assim é o arguto amor, que presenteia e amaldiçoa, incentiva e encaminha para o abismo. Toda a sensação inigualável de sonhos e paixões, todo o estremecer que as melhores sensações eternizam pode ser afogado em um mar de lágrimas e um turbulento oceano de dor da noite para o dia, tirando o juízo e decretando a entrada sem volta no inferno em vida.

Por essa razão odiar provou-se mais fácil, mais sólido e suportável, pois saborear a raiva para degusta-la fria encerra uma ambição alcançável, sem dúvidas e sem o temor de quem pensa apenas em defender e salvar.

Teoricamente quem odeia sofre menos, e quem se vinga alivia o espírito com a calma das águas paradas, e o distante azul do céu sem nuvens. Odiar aparentemente fortalece e dá foco, promete superação constante por apenas um objetivo, que ao ser realizado findará todo o mal que habita o possuidor desse sentimento cruel.

Quando a vingança se completa, a pegadinha aparece, inclemente. O ódio não traz tranquilidade, nem paz, apenas um vazio pior do que a morte, transformando o vingador em algo menor do que um ser humano, um zumbi sem alma e sem rumo.

Tudo isso é o que causa o dilema que se sobrepõe ao homem por séculos: o que é menos ruim, amar ou odiar? Cadáveres apaixonados misturam-se aos mortos hediondos na mesma caminhada rumo a ladeira do julgamento final.

 

                                                                                       Marcelo Gomes Melo

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                                Uma breve história sobre o tempo

 

Os meus olhos não puderam acreditar naquela vastidão verde, horizonte além de onde a vista alcança, tudo a ser dominado, distribuído e desfrutado pelo povo, com justiça e paz.

Para garantir a paz e a justiça seriam necessárias leis que regulassem a vida em comum, evitando mazelas criadas por ódio e inveja. Hierarquia era o ponto principal. Sendo respeitada haveria proibições e direitos, deveres que garantiram a ordem, e punições exemplares para os que rompessem os regulamentos.

Para que tudo funcione, grupos seriam separados com suas terras, e cada grupo teria um lema e um escudo que os representasse, e um líder que os guiasse ao enriquecimento e conhecimento.

Todos os líderes de todos os grupos deliberariam com um grupo de notáveis, anciãos sábios oriundos de batalhas antigas, que com a sua experiência decidiriam através do voto que tipo de punição ou prêmio seriam distribuídos, de acordo com as honrarias adquiridas ou desonra humilhante. Apenas o líder poderia vetar as decisões, caso apresentasse um argumento convincente. Uma autoridade religiosa, pagã ou eclesiástica teria influência espiritual mantendo-os tementes às entidades superiores, prontos a morrer, se preciso for, por elas e pelo líder.

A hierarquia exigia um poder superior a todos os líderes dos grupos, que exerceria o poder total acima de todos, oferecendo proteção e ajuda em troca de obediência cega, acatando ordens maiorais que superavam às dos grupos e submetiam a todos em nome de um bem comum.

Foi o momento em que surgiu a política, através da qual líderes negociavam com outros secretamente adquirindo mais poder e riquezas, com isso dominando líderes de grupos mais fracos que se tornavam escravos e vassalos para sobreviver.

O próximo passo da política foi fazer acreditar que os líderes aliados poderiam destituir o líder supremo e dominar a todos os grupos, ascendendo ao poder através de conluios e propinas, repartindo riquezas e oferecendo qualquer poder inferior, mas que satisfaria aos mais fracos.

Assim exércitos foram criados e desejos aumentaram de proporção, com a vontade de conquistar os mares sem fim, descobrindo outras terras, impondo novas regras, aprendendo novos costumes e angariando mais poder e riquezas.

Os mais poderosos, com mais dinheiro e força bélica, além de habilidade política, isolavam-se em castas fechadas, cuja crueldade se tornou a chave para continuarem no poder.

O número de vassalos e escravos aumentou consideravelmente, e os seus deveres também, na mesma medida em que os seus direitos diminuíam até serem esquecidos. Essa imensa massa dominada por poucos não obtinham benefícios como o conhecimento e oportunidades, então eram massacrados sempre que o equilíbrio precisasse ser mantido.

Tem sido assim através dos tempos, e a modernização traz consigo novas formas de dominar e explorar. Também ocasionalmente as massas ameaçam uma revolta, e são esmagadas pela minoria no poder, que em seguida lhes oferece uma compensação ilusória que os fará acreditar ter conseguido uma pequena melhora, um ganho enganoso porque trata-se apenas da diminuição da miséria e da dor.

E assim caminha a humanidade, de olho nas vastidões ainda maiores, como o espaço sideral, em busca da conquista do universo. Menos líderes, mais poderes e riquezas; mais massas enganadas, sofridas, manobradas, levadas ao sacrifício como bois a caminho do abate.

 

                                                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

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                                              O nosso corrosivo amor universal

 

Você é a noite cheia de mistérios quanto de perigos, linda e impossível de desvendar, a não ser que haja coragem suficiente para arriscar a vida tentando.

Você é o conjunto de luzes da cidade vistas do topo da montanha mais alta. São os seus olhos de pérolas que prometem incontáveis prazeres, mas que cobram muito caro através de inacabáveis desgraças.

Você é o vento morno que sopra constante trazendo o perfume das flores que inebriam o mais insensível dos homens, destruindo as suas vontades e acabando com todo o controle que ele lutou desde jovem para manter, transformando-o em frangalhos, vítima do álcool e das drogas, um mero resquício de ser humano.

Você é a madrugada voraz que arranca os segredos em meio aos suspiros, que toma posse das almas hipnotizando aos corpos, que desfalecem suados e felizes, embora sugados completamente em seu orgulho e confiança.

O ideal de beleza, de amor e suicídio, de entrega total por uma recompensa irreal, que torna tolos os mais bem-sucedidos intelectualmente e os mais espertos de uma maneira empírica, todos instintos até o último fio de cabelo.

Você é o eclipse que tenta burlar a defesa que eu represento, confundido o dia com a sua sombra poderosa, embora não por muito tempo e durante longos anos de espaço. O seu poder é imenso, e durante esse tempo consegue enganar os meus poderes para arranhar inocentes, destruindo-lhes a vida por amor incontido.

Eu sou o dia, responsável por clarear os pensamentos confusos que você provoca com o meu calor torrencial e iluminação potente, que brilha e encanta tanto quanto você. Os meus poderes recuperam derrotados de amor e os impulsiona a continuar a vida por tanto tempo quanto puderem, sempre tentados por sua chegada matreira, suave e delicada, irresistível.

Até para mim, durante esses eclipses, fica difícil resistir aos seus encantos que formam mártires. Separados somos eficazes, enquanto o meu poder superar a atração intrínseca com a qual devo viver, como um renegado.

Eu sei que um dia nós dois nos unirmos, serão os fins dos tempos! Nada sobrará dos mortais, dos planetas, meteoros e estrelas. Apenas o nosso corrosivo amor universal!

 

                                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

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                     Os guerreiros que mantêm a fé intacta

 

As poesias são encantadas, não têm como incuti-las em qualquer classificação, gênero ou qualificação que não seja a individual. Assim que registrados em papel, os versos obtêm vidas próprias, e serão entendidos não da maneira que o poeta imaginou, mas da forma como cada pessoa os entendem, de acordo com o seu conhecimento de vida e de suas necessidades pessoais, as angústias pelas quais passaram ou a felicidade que um dia se incrustou em seu peito ficando para sempre.

Os versos não são julgados pela beleza de sua construção, pela correção acadêmica ou riqueza léxico semântica. Não importa como foram escritos, soltos como vagalumes na noite do poeta, para iluminar com sorrisos, jocosos ou tolerantes, aliviando o coração de quem nem sabe o porquê.

Os poemas ingênuos, os sangrentos, os exóticos, os loucos, desprovidos de rimas e de sentido aparente; os inocentemente construídos e os rebuscados, todos alcançam o mesmo status no céu das poesias:  estrelas.

A liga que fortalece os sentimentos, que instiga a revidar dos percalços diários, que são os mais simples, que passam como sombras em todos os ambientes, e influenciam como antes mesmo que atualmente não o sejam reconhecidos ou mesmo convocados. Em conversas sociais para desfrutar filosoficamente dos seus infinitos sentidos, enriquecendo a todos de forma exemplar e eterna.

O mundo mudou, a sociedade mudou, os poetas são rejeitados à margem da sensatez, porque é o que lhes cabe. Mudar o mundo com os seus versos simplórios ou perfeitos garante a imortalidade do pensamento humano e os seus devaneios insanos que acabam por se tornar realidade em meio aos infortúnios e épocas de alegria; os poetas são os guerreiros que mantém a fé intacta, a paixão  em chamas, o coração pulsando e o sangue correndo nas veias. Os seus versos são as molas que impulsionam as mudanças, fortalecem corpo e alma e eternizam as lendas.

A poesia é, e sempre será a fonte de todos os pensamentos, e acontecerão pesar de tudo, informando ao mais prático e descrente dos seres, e manejando-lhes o coração e a mente. Poesia é ópio e é cura, para sempre.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                                                                     Dublê de corpo

 

Os facões tilintaram no escuro, como moedas ao se cruzarem, acendendo uma fagulha breve, tempo suficiente para que os olhos demonstrassem o ódio, a concentração, a luta pela vida. Os movimentos velozes anulavam os golpes, mas não todos. Em meio ao silêncio, respiração forçada, dentes rangendo e pancadas letais, destruindo a tudo que estava pelo caminho, mesa, cadeiras, quadros, louças...

Um dos oponentes deixou escapar um gemido ao ser alcançado pela lâmina, corte limpo, não muito fundo, braço esquerdo. Devolveu imediatamente, nas costelas, ao mesmo tempo em que um chute violento causava danos ao lado do joelho.

Desesperado, o atingido jogou o corpo para a frente, sabendo que o facão atingiria o espaço, mas lhe daria a oportunidade de usar o corpo para derrubar com o peso ao adversário. Caíram sobre a mesa de centro, que se espatifou, vidro e madeira para todo o lado, as armas brancas se perdendo na escuridão.

Em vantagem momentânea, posicionando sobre o adversário, iniciou o corpo-a-corpo com pancadas de marreta no rosto do inimigo. A luz de um farol iluminou a cena rapidamente por segundos; um automóvel que passara lá fora, alheio ao combate mortal ninja executado pelo homem de roupas pretas contra o de jaqueta verde oliva. Um crash avisou que o nariz do de jaqueta verde se partira, mas nem deu tempo de comemorar, atingido por um cotovelo nas costelas, onde a faca atingira.

O fôlego sumiu por instantes e o joelho do oponente encostou a sua cintura e o atirou para o lado. Antes que se reequilibrasse encontrou a botina número 44 no meio da cara, um pisão na cabeça e diversos chutes pelo corpo. Procurando encolher-se como podia, tentou pensar rápido e sair daquele desconforto. Encontrou um pedaço de madeira da mesa e acertou a canela com a força que tinha. Um ruído abafado de dor e o adversário estremeceu, um soco na linha da cintura equilibrou a luta e uma cabeçada no peito o afastou, dando-lhe tempo para erguer-se socando o vento diversas vezes. Encontrou o pescoço do homem e agarrou como se esganasse a um frango com garras poderosas.

Quase sem respirar o de jaqueta verde esmurrou o braço que o estrangulava sem efeito. Ergueu o joelho para acertá-lo. Deu resultado, as mãos afrouxaram. Uma porrada entre os olhos com firmeza o fez acreditar que uma cortina de sangue escorria abundantemente pelo rosto do desafeto.

Muitos danos infligidos em ambos, mas não desistiam, um deles deveria apagar permanentemente para que o outro saísse dali com chances de sobreviver por mais um dia. O murro na testa seguido de outro na orelha tornou a sua visão ainda mais turva. Devolveu com um cruzado no queixo que derrubaria a um búfalo. Não funcionou. Em troca uma cotovelada abriu o supercílio e um chute frontal no peito o jogou contra a parede do lado contrário.

Tentou buscar o ar e proteger-se como dava dos golpes que viriam quando as luzes foram acesas, ofuscando ambos os olhares. Com os ouvidos zumbindo ainda escutaram um grito excitado de uma terceira pessoa:

- Corta!

Olharam em volta ofegantes. Estavam cercados. Palmas. O diretor do filme elogiou a cena e eles se cumprimentaram, recebendo uma garrafa com água e uma toalha cada um. Teriam tempo para comer alguma coisa e tomar um banho antes das próximas cenas de luta. Era duro ganhar a vida como dublês.

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

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      O emburrecimento das gerações à velocidade da luz

 

É assustadora a forma como as gerações estão emburrecendo, incapazes de compreender o básico do conhecimento humano que lhes permitiria existir com os seres dignos, e não como sub-humanos que envergonham a si mesmos e à raça sem perceber.

O argumento de habilitar aos desprovidos de condição seria perfeito, não fosse o caminho escolhido para fazê-lo. O discurso de oferecer conhecimento a quem não o tem a qualquer custo acabou por diminuir a qualidade do ensino sensivelmente para que os desqualificados obtivessem o direito formal de se considerar acadêmico. Em vez de treiná-los para aprender com esforço e dificuldade, consideraram aceitar o pouco que ele trazia para exercer profissões importantíssimas completamente despreparados.

Isso faz com que tenhamos professores analfabetos, que não ensinam porque não sabem; médicos que matam pessoas e indicam medicação errada porque mal sabem ler e escrever; enganadores profissionais arrogantes formando idiotas inúteis arrogantes, destruindo o sistema e transformando gerações em anormais incapazes que, construirão prédios frágeis e matarão pessoas; um sistema de tráfego ineficiente que causarão acidentes e muitas e juízes irracionais e incapazes prontos para vender sentenças e prejudicar inocentes por não terem formação familiar, acadêmica e muito menos consciência.

É a devastação da sociedade por falta de cérebros úteis, dominada por imbecis que criam as mais esdrúxulas leis e teses, desarticulando regras que funcionavam bem para manter a hierarquia e o respeito entre as pessoas, tornando um ambiente de desconfianças e mentiras, jogos nos quais todos estão dispostos a passar os outros para trás sem remorso com o único objetivo de adquirir poder, fama e dinheiro.

Um número incontável de imbecis prontos para ser enganados por um número inacreditável de vagabundos sem caráter, dispostos a roubar, matar e enganar tranquilamente, e ainda discursar em favor da ideologia mortal que corrói mentes e assassina os mais fracos para que os maldosos sobrevivam.

As novas castas procuram apagar todas as leis e regras que regeram um mundo que evoluiu por séculos, para entrar em franca decadência sem se preocupar com nada a longo prazo. Prazer imediato, riqueza e aventuras bizarras enquanto puderem existir.

Nada importa a não ser destruir como traças, agir como gafanhotos sem pensar em ninguém além deles mesmos. No fim matando a todos e perecendo por último, felizes por sua imbecilidade congênita.

É assustador observar idiotas discursando com arrogância e determinando rumos inviáveis. Mas o pior é ver que há ainda mais sub-humanos estúpidos prontos para segui-los cegamente até a morte.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

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                                                                        A equação da felicidade

 

A calma com a qual a amo é o oposto da paixão que compartilhamos. De dia somos calmaria iluminada pelos raios dourados do sol na água morna de nossa praia de desejos, e à noite nos transformamos com tempestades furiosas batendo contra as pedras, a espuma branca desnudando nossas almas sob raios e trovões que representavam nossos prazeres sendo satisfeitos violentamente, usando nossos corpos como condutores de toda energia sexual do planeta!

E a tranquilidade como falamos através das mãos dadas, dos olhares ternos e dos silêncios cúmplices eternizava cada segundo que passávamos juntos, atravessando o abismo das dúvidas através de uma velha ponte de madeira prestes a ruir, embora confiantes com a proteção um do outro, a divisão dos medos e a multiplicação da coragem.

Do outro lado o prêmio que nos aguardava era mais do mesmo: o amor que dividíamos sem escolta, sem escudos e sem individualismos. Era a fórmula com a qual resistíamos aos tropeços e vencíamos os piores dias, quando o mundo parecia conspirar contra nós. A força do amor que tínhamos iluminava a neblina espessa do pântano das dores, e mesmo que saíssemos chamuscados, saíamos juntos. E juntos formávamos a equação da felicidade eterna.

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                                              Estranho senso de humor

 

- O fato é que você precisa parecer mais amável com as pessoas, sorrir mais, fazer brincadeiras, contar piadas, conectar-se melhor com os seus subordinados...

- E eu não faço isso?!

-Você é o homem mais gentil e engraçado que eu conheço, mas a pose de mau que mantém para os outros os torna assustados, com medo do seu olhar frio, a cara fechada, as poucas palavras.

- E isso os assusta?!

- Claro, você tem a compleição física de um lutador de MMA e um rosto se um super-herói dos quadrinhos. Esse seu tom baixo de voz, gutural, tétrico, soa como desconfiança, até como ameaça. Por que não tenta ser mais comunicativo, capitão? Isso irá ajudar bastante.

- Vou tentar, doutora.

- Lembre-se, faça brincadeiras, pregue peças, deixe-os relaxar um pouco. Sem esse medo aterrorizante do chefe eles renderão mais, comandante.

- Está bem, doutora, pode deixar.

A psicóloga se despediu e afastou-se do capitão da unidade de crimes violentos, observada por todos os outros agentes por causa da beleza incomum e confiança que emanava dela.

- Quem é aquela gata maravilhosa, capitão? Que coisa mais linda! – era um agente novato metido a engraçadinho, falastrão, mas sem maldade.

- É a minha mulher. – Foi a resposta seca, voz rascante. Nenhum sorriso.

- Oh! Sinto muito, capitão, não quis ofender, eu não sabia. Pode me perdoar?

- Sim. Mesmo assim você vai morrer.

- O quê?!

- Diga a ele que se despeça dos parentes o mais rápido possível – dirigiu-se ao detetive ao lado do novato – Amanhã ele vai passar dessa para melhor.

Afastou-se com um sorriso frio no rosto, deixando o novato branco e em desespero.

- O que eu faço, detetive, ele vai me matar?

- Eu nunca o vi dizer uma coisa e não cumprir. Se eu fosse você fugia daqui enquanto é tempo. Tem muitos parentes de quem se despedir?

O homem saiu completamente fora de si, tomado pelo medo de morrer por uma brincadeira fora de hora. Ele e a sua grande língua!

Não teve coragem de ir para casa despedir-se da esposa e dos filhos, então foi ao bar encher a cara e pensar em uma forma de escapar. Duas horas depois, duas garrafas de pinga vazias depois, ficou corajoso. Decidiu ir com tudo para se defender; matar antes de morrer.

Dirigiu-se ao depósito de armas e pegou quatro revólveres carregados, uma espingarda doze cano cerrado, munição, uma faca karambit de luta corpo a corpo, algumas granadas... Estava pronto para defender a própria vida contra o comandante que o havia ameaçado. Alcoolizado e corajoso, planejou espera-lo em uma tocaia no estacionamento. Assim que o visse jogaria duas granadas e descarregaria as armas. Depois, para ter certeza cortaria o corpo em pedaços e dissolveria no ácido. O que sobrasse depositaria em uma urna de ferro e jogaria no fundo do mar.

A madrugada fora longa bebendo e ruminando a estratégia contra o comandante rígido que o mataria por ter elogiado a esposa sem saber. Era matar ou morrer! E o homem não era brincadeira, nunca fora visto com piadas ou gracinhas. Fazia o que tinha que fazer, por isso era o chefe. Morto ele já estava! Para sobreviver valia qualquer coisa.

Todo paramentado, com botas, uniforme camuflado, capacete e luvas resistentes aguardou. Quando, por volta das nove da manhã o capitão chegou, tranquilo, com as mãos nos bolsos, sem armas à vista, imaginou que seria pior do que imaginava. O homem iria estrangulá-lo!

Com a coragem reforçada pelo álcool correu cambaleante em direção ao comandante com a granada na palma da mão, gritando desajeitado; puxou o pino e tentou atirar a granada, mas algo não deu certo. A granada ficou grudada na luva e, antes que desse mais um passo virou massa de tomate espalhado por todo o estacionamento.

Houve uma comoção geral e quando a psicóloga chegou com o detetive que acompanhara a conversa no dia anterior, o capitão tomava um café recostado ao batente da porta observando a bandalheira.

- Capitão, por que o ameaçou de morte?!

- Como assim, doutora?!

- O detetive estava como testemunha. Você o mandou despedir-se da família porque hoje iria mata-lo.

- O quê?! Foi uma brincadeira! Você não recomendou que eu fosse mais maleável com os meus subordinados? Então... Ele perguntou quem era a gata que estava indo embora referindo-se a você, doutora.

- Sim? E o que disse a ele?

- Que era a minha esposa, e ele iria morrer pela falta de respeito. Teria um dia para despedir-se da família e amigos. É lógico que era uma piada! – a dupla o encarou aterrorizada – Não foi boa?!

Moral da história: senso de humor é algo muito pessoal, pode causar mal-entendidos como aquele. O comandante seguiu à risca a sugestão da psicóloga e, mesmo assim deu tudo errado.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

 

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                                 Falou que me amava, mas era mentira

 

Na primeira chance que teve ela já foi dizendo que me amava. Eu tomava banho regularmente, andava bem arrumado e cheiroso, além de ser gentil e educado com as pessoas por natureza. Só que isso não garantia que uma gostosona como aquela se aproximasse de mim toda sorrisos, sentasse ao meu lado no banco da praça em que eu costumava ler um livro para atrapalhar jogando conversa fora, exibindo aquelas pernas de parar o trânsito, fazendo perguntas de todos os tipos, uma atrás da outra sem esperar respostas.

Ela falava sobre os filmes dos quais gostava, das músicas as quais ouvia, o grupo de amigos com o qual saía, sempre repetindo claramente que, no momento estava sozinha, entre relacionamentos. Era do tipo exibido inocente, fingindo não perceber os olhares que recebia, e não entender as cantadas que recebia.

Eu sempre a tratei com respeito, até carinho. Não posso negar tê-la homenageado algumas vezes no pensamento, sob a água morna do chuveiro, mas sabia que era muita areia para o meu caminhão. E nem caminhão eu tinha!

Ela insistia em me fazer companhia, de vez em quando deixando uma interrogação no olhar ostensivamente, porque outros caras com zero atenção por parte dela já teriam colado para conseguir um encontro com ela. Eu, tentado, continuava me fazendo de tonto.

Quando ela encostou as duas mãos no meu peito, ficou na ponta dos pés e me encarou dentro dos olhos, senti o hálito quente sabor cereja daqueles lábios entreabertos oferecidos com tanta devoção que não resisti. Enlacei-lhe a cintura e tomei a sua boca com uma gula inigualável. Como eu pensava, a garota era artista no amor e correspondeu plenamente, me despindo com avidez, tomando o controle sem frescura, me encaminhando ao paraíso sem escalas!

Às horas de prazer intenso, se seguiram as de torpor satisfeito, abraçados, tranquilos, saciados. Pude verifica-la sem disfarces, confirmando a beleza daquela mulher carinhosa e voraz. Enquanto adormecida em meus braços respirava como um anjo, as perguntas inevitáveis de um cara comum vieram à tona. Por que eu? De onde saíra aquele monumento que frequentava o grupo dos ricos e bem-sucedidos direto para os meus braços?

É difícil acreditar em contos de fadas quando se vive em uma realidade muito mais complicada e nada altruísta. Não há amor nas grandes cidades, dizia o poeta, as mulheres como ela sempre guardam um desejo diferente de alcançar os maiores patamares, fama e riqueza através dos dotes físicos com os quais foram agraciadas.

Assim era a vida, não podia fugir disso. Embora lisonjeado com a sua atenção, e mais, com o seu carinho despudorado, pecaminoso, continuava pensativo, não acreditando na sorte grande. Enquanto isso ela me ensinava a praticar todos os tipos de pecado, literalmente. Estar com ela era um passeio do inferno ao paraíso.

Uma semana depois de sexo e encontros, encontros e sexo, ela disse que me amava. Parecia uma santa, de olhos baixos e voz suave, quase tímida, confessando o seu amor por mim incondicionalmente. Com o coração aos saltos eu nem soube o que responder! Emocionados nos atracamos ferozmente para mais carícias e tudo o que fosse permitido. E tudo o era. Eu a possuía insanamente, fora de mim, observando a nós, aos movimentos hipnóticos dela que poderiam desarvorar um homem. Qualquer homem.

Eu já estava abandonando as minhas dúvidas quando casualmente ela me indagou se eu era o filho do produtor musical famoso, diretor de cinema e TV de quem tanto falavam. Sorria, cheia de pudor, e eu, boquiaberto, observava a minha teoria finalmente se concretizando.

Sem me dar chance de responder, como sempre, começou a enumerar os seus talentos artísticos de canto, dança e interpretação, coisas as quais eu já sabia. Havia experimentado muito além. Tomado por uma tristeza incomensurável fiquei pasmo, em silêncio, ela tagarelando sobre uma chance ou algo assim...

O nome. O nome do filho do produtor era o mesmo que o meu! Homônimos! Ela errara o tiro no tigre! Eu não sabia se morria de sorrir por mim ou de chorar por ela. Repetiu que me amava ao perceber a tristeza em mim. Eu tive que contar. Eu não tinha carro, não tinha moto, nem bicicleta eu tinha! Eu não tinha dinheiro e muito menos herança. Eu não tinha nada! O cara por quem ela devia dizer estar apaixonada era outro.

Assim que contei ela esfriou. Afastou-se. Tentando reunir toda a dignidade que restara, levantou-se e foi embora em silêncio. Antes de fechar a porta atrás dela, perguntou suavemente se eu tinha o número do telefone do outro rapaz.

Eu não disse nada além da verdade. Ela falou que me amava, mas era mentira.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                            Uma mulher para mim, com certeza

 

Você é desconcertante. De um jeito que raramente as mulheres o são. Tem atitudes naturais e firmes, quebrando o clima com esses olhares atraentes dos quais nem tem consciência.

É desconcertante porque conserva uma independência natural nos modos e na fala, não força um feminismo alterado e arrogante, mas recebe o respeito merecido não por gênero, e sim por capacidade.

Quando me olha nos olhos quer dizer alguma coisa? Nunca me oferece um sorriso, embora eu espere por um, mesmo que não o demonstre. Um cara duro como eu, que não acredita em paixões aleatórias ou qualquer coisa que não seja negociada anteriormente para evitar mágoas desnecessárias, acaba por se ver perdendo muito tempo desconcertado pelo seu foco, capacidade e inteligência. E beleza! Fico constrangido em reconhecer em você uma bela mulher, dessas de verdade, sem artifícios para seduzir nem jogos mentirosos de acalentar. Uma boa mulher que tem vida própria e ainda pode oferecer o melhor de si a um homem que a mereça.

Você não sabe disso, o que a torna ainda mais desconcertante. E não serei eu a lhe dizer, não com palavras. Os nossos caminhos se cruzaram e continuam entrelaçados desde então, o que pareceria destino caso eu não fosse cético. Tanto quanto você.

Ainda não sei o que irá acontecer entre nós, além das brigas bobas interrompidas abruptamente quando algum de nós se machuca levemente, ou demonstra fome e cansaço. O instinto de consertar os pequenos problemas um do outro sobrepuja qualquer discussão, embora finjamos agir com frieza, sem preocupação, culpando um ao outro.

Haverá o momento em que o clima pintará e nos fará desmoronar romanticamente, afogada a paixão sob as estrelas e trocando promessas entre sorrisos felizes?

Talvez isso exista. Talvez apenas nos filmes de amor. No escuro do cinema vidas novas acontecem e encantam corações, que ficarão aliviados por um bom tempo, esquecidos da dura realidade que é viver juntos e equilibrar a balança da vida.

Ser uma mulher desconcertante, diferente das outras faz de você um diamante, porque não está envolvida em modas ou ideologias absurdas. Conquistou o seu lugar no mundo com competência e tenacidade, sem se vitimizar nem querer reconhecimento especial.

Você é desconcertante. Uma mulher para mim, com certeza.

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

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                             Organizando a justiça a partir da escuridão

 

Eu me reservo o direito de discordar dos que pensam que fingir é mais seguro do que expressar seja o que for. Esconder atrás de sorrisos o que realmente embasa o pensamento nos momentos importantes do existir, interagindo de maneira correta, honesta por mais dura que seja é validar a atuação como indivíduo, e isso traz à tona o melhor de cada um, porque a verdade expele o veneno que se acumula ao sorrir com banalidade e omitir com exatidão o que seria valioso para manter o corpo aliviado e o cérebro limpo, os pensamentos claros e evidentes para decidir como seguir, mesmo que se escolha o sabor do destino e não a planilha calculista de quem acredita ter o controle por um segundo que seja.

Eu me reservo o direito de lutar contra isso, argumentar objetivamente através de fatos e mostrar que a hipocrisia rege os que criam um personagem para si mesmo, que fala mole, sorri o tempo todo e tenta agradar a todo mundo com falsidades aberrantes, visando sempre o benefício próprio.

Vivem assim, rastejando, buscando restos que consideram status, tentando sobreviver em um mundo depravado como subcelebridades, capazes de qualquer coisa por fama, dinheiro e vantagens vendendo o que não possuem, dignidade, conspurcando o que não lhes pertence, a alma, habitando o subsolo do inferno, enganados e mortos sem ter noção da dívida que precisarão pagar até o fim dos nossos dias.

O direito de desprezar essa gente e persegui-las por todos os recantos, atormentando-lhes a vida de forma que o que imaginem ser felicidade tome o rosto verdadeiro da calamidade e catástrofe.

Não será fácil vencer essa batalha porque a maioria é assim. Os poucos dispostos a destruí-los não têm tanto poder assim. E um bom número de isentos ou não se importam ou são medrosos demais para abraçar qualquer causa que os ponha em suposto perigo e ameace a sua vida pacata e certinha de cegos, surdos e mudos.

Eu me reservo o direito de causar o caos! Eu pretendo fazer ruir as bases dessa sociedade corrompida e expor os grandes bandidos e os pequenos malfeitores que avançam sinais, param em fila dupla, subornam e aceitam suborno. Eu me reservo o direito de ser a espada afiada que trará justiça ao mundo! Só não sei como, ainda...

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

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    Ratos podres de esgoto são melhores do que vocês

 

Políticos são ratos mentirosos. Todos eles, inclusive os que, no início têm boas intenções. Assim que entram na vida pública, ingenuamente apresentam ideias revolucionárias, defendem uma melhor existência para a comunidade, mais segurança, educação, saúde, treinamento paranormal, lazer, prêmios, sorteios... Utilizam os melhores sorrisos e abraçam pobres e criancinhas, escondem o nojo e vão pegando ódio da massa que os elegerá.

Durante uma parte da vida um indivíduo pode ser considerado honesto e excelente caráter, até que decide se tornar candidato a um cargo eletivo. É a partir daí que passa a conviver com a escória da sociedade, a aprender os ardis usados pelos lendários políticos de carreira, e sem perceber vão tendo a sua consciência lavada com lama do esgoto mais fétido, poluída pela total falta de escrúpulos e se inserindo no sistema pernicioso que jamais mudará.

Uma vez vendida a sua consciência, tudo acontece muito rápido: a alma é entregue ao diabo e a visão anterior se apaga como se jamais houvesse existido. Estão prontos para negociatas corruptas e ações que os dominam inteiramente. É quando se olha no espelho e o que vê é um comparsa do poder instituído, com a escolha de abandonar a tudo ou espernear e perder benefícios sedutores para si e toda a família e amigos. A imensa maioria decide pelo mais fácil e enriquecem fechando os olhos, mudando de lado, tratando a ideologia como cifras a serem adquiridas. Quem pagar mais o terá de corpo e alma.

A vida dos ratos nojentos da política não é fácil, envelhecem rápido em troca do poder, então apelam para cirurgias plásticas e Botox, exterminam pessoas friamente através de uma canetada e dormem com o auxílio de comprimidos.

Ao contrário do que se pensa, não há adversários a não ser ilusão, todos estão em concordância e fingem para manter o sistema funcionando; uns comprando a ralé com trocados, outros subornando acadêmicos com cargos e muito dinheiro, cobertura jurídica dentro e fora do país.

Esses ratos decidem aumentar o desemprego e a violência, causam caos na sociedade e prejudicam funcionários públicos inferiores pagando mal, retirando a hierarquia e transformando-os em vilões.

Após anos cumpridos com fé e afinco essas pessoas adoecem, vítimas de seus trabalhos insalubres, e é quando começa o calvário. Locais distantes para realizar uma perícia na qual o paciente não recebe sequer um bom dia, não recebe atenção, e os “peritos” pilotam os seus computadores ignorando-os com asco, sem se interessar pelo que sentem. Em seguida, cinco minutos depois já decidiram negar e os mandam embora, desiludidos, pior do que chegaram. A ideia? Eliminá-los do serviço público de alguma forma, matando ou os fazendo desistir, saindo sem nada, saúde, compensação financeira, dignidade. De qualquer forma prontos para morrer.

Políticos são ratos mentirosos e desonestos por natureza, e necessários como qualquer praga para dizimar populações carentes inteiras aumentando o lucro cada vez mais.

Não há reviravolta sem revolução, nem revolução sem derramamento de sangue, isso é fato. Isso quer dizer que revolucionários podem assumir o poder após uma batalha sangrenta em que todos perdem, principalmente a base da pirâmide pobre e inculta, mas os novos poderosos logo agirão com igual atitude, massacrando para manter o poder, envelhecendo mais rápido e dormindo com dificuldade, assombrado pelos atos repulsivos que cometem.

Políticos quando morrem habitam os porões das profundezas do inferno, sofrendo todo o tipo de tortura pela eternidade. E ainda assim continuam em dívida pelos malefícios que causam, causaram e ainda causarão post mortem.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

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                                                                    Chulé!

 

Aquele maldito chulé determinara o rumo de sua vida. Logo adolescente usando tênis sem meia o dia inteiro e só tirando para dormir, adquirira um odor próprio insuportável até para ele mesmo.

Inquieto e envergonhado com aquele fedor de lama podre com abutres em decomposição, lavava os pés com esmero e aplicava cremes e perfumes, mas não adiantava. Nos lugares públicos evitava ficar próximo a ventiladores pois o odor putrefato se espalhava rapidamente e fazia pessoas passar mal, vomitar e até desmaiar. Tinha que fugir do local antes que descobrissem de onde vinha a fonte dos desprazeres.

Achava os seus pés mergulhados no pântano do inferno, médicos experientes desistiram de trata-lo, outros se recusaram e alguns até sugeriram que os amputasse.

Era impossível namorar porque a proximidade já fazia com que as garotas fugissem traumatizadas. Emprego só como desentupidor de fossas, e a presença dele triplicava o problema.

Pesquisando na internet se dispôs a buscar tratamento no rio sagrado da Índia, mergulhando ao lado de cadáveres; na Antártida congelara os pés a ponto de perde-los, mas o mau cheiro derretera o gelo e mantivera os seus pés intactos.

Na África buscara magia, mas não funcionara. Caminhara sobre brasas em vão, envolvera os pés em placas de concreto... Estava destinado a viver impregnado pelo fedor mortal que afastava moscas, insetos e seres humanos. Infiltrara desodorante nos dedos, esfregara rosas nos pés, já estava desistindo de viver quando um sábio apareceu assegurando a solução para os seus problemas.

Embevecido e emocionado prometeu no homem muito dinheiro caso obtivesse êxito em acabar com aquele chulé indesejável. Depositou metade da quantia prometida e o sábio lhe ofereceu um teste simples. Caso fosse útil garantiria o fim dos maus odores para sempre!

Achou estranho quando recebeu do sábio um pregador de roupas daqueles de madeira. Aquele era o teste?! O homem simplesmente tapou o seu nariz com o pregador por alguns minutos e ele deixou de sentir aquele bafo terrível das fossas do mundo inteiro!

Esperançoso depositou o restante do dinheiro e recebeu uma máscara cirúrgica descartável para utilizar diariamente. Aquele simples gesto resolvera a sua vida! Estava feliz e descuidado sem aquele mau cheiro que o envergonhava. Não percebia mais se as pessoas se afastavam ou despejavam até as tripas para fora na sua presença. Não saberia se o problema estava no seu nariz ou nos seus pés fedorentos. Isso não era mais importante, estava livre para sempre daquele problema aparentemente insuperável e passou a comemorar a própria existência como uma pessoa comum. Soluções simples, eficazes ou psicológicas? Quem dirá?

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

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                                               Las palabras de amor

 

Venha. Conte-me a sua história, não omita coisa alguma, não é necessário. Porque não entorna o rum, displicente, manchando a beira do copo com esse batom destacado, que faz com que os seus lábios carnudos pareçam partes de uma maçã promissora, que instiga a fome gulosa que começa a ser satisfeita com os olhos.

Sente-se. Não dê importância ao meu olhar para o seu decote, eu continuo imóvel como uma rocha, embora queime como uma fogueira sem que você perceba.

O que lhe move? Quais são os seus desejos? Está realmente preparada para isso? É o que quer? Tanto quanto eu? Hum, engolir em seco é uma resposta ambígua, mas o arfar do seu peito tomarei como um sim.

Aproxime-se. Está com frio? Esses arrepios na pele nua significam alguma coisa? Esse meio sorriso, o que quer dizer? Minha mão... Por que a segurou tão suavemente? Faz parte do jogo pousá-la em seu colo dessa forma?

Juro que posso sentir o calor das suas coxas sob o tecido macio e fino do vestido! Mais perto, quase sobre... Essa é uma história que norteará as nossas vidas, você sabe. Assim, mulher, muito perto, quase dentro!

O meu sorriso? Paz... Tesão. Tranquilidade. Lenda. Imortalidade... Fim.

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

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                          Um amor completamente criminoso

 

Toda vez que eu lhe sorria, ela enrubescia. Quando eu me aproximava, ela enrijecia. Os seus olhos, sim, brilhavam, e isso eu via, mas ela escondia, fazia cara de brava e me divertia.

E se eu piscava o olho, ela quase corria. Eu me afastava e no meio da caminhada, virava e sorria, o que a fazia parar, ela se distraía. Toda vez que me falava, frieza ela fingia, no corredor, se eu a encurralava, ela se afligia, com um lindo olhar em chamas, me repreendia. E com os lábios entreabertos, ela nem percebia o quanto isso me abalava, nem sabia que me oferecia.

Para longe me empurrava, e quando me segurava, ela se perdia, o seu olhar no meu firmava, e eu estremecia; com a coxa entre as coxas dela, eu me atrevia. Correndo os riscos a abraçava, e ela não resistia, então a gente se beijava, o mundo não existia!

Se eu era dela, ela era minha, era o que acontecia. Nenhuma palavra se dizia, isso não carecia, ambos fomos atingidos, abalroados, incinerados, destruídos, destinados a um amor completamente criminoso.

 

                                                                                                         Marcelo Gomes Melo

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                                 O velho intragável da casa 705

 

Eu sou bom em ser ruim, essa é a verdade. Faço questão de apavorar a todos os que aparecerem no meu caminho, e até os que não apareçam. Para lhe dar uma ideia, vou lhe oferecer alguns exemplos: quando a molecada deixa a bola cair no meu quintal, pego uma faca e estouro sem dó, depois jogo para o lado de fora os restos mortais da bola, gargalhando do ódio dos moleques que jogavam futebol na rua. Deixo o meu pitbull com fome no dia da leitura da luz e da água e o solto quando os caras tentam acessar o relógio para tirar a conta. Eu gosto de colocar uma ratoeira armada dentro da caixa do correio para pegar os dedos do carteiro idiota ao colocar a correspondência.

Eu sou um velho mau que nem um pica-pau. Lambuzo o corrimão de graxa quando as velhas da família vêm visitar; encho as empadas de pimenta malagueta para servir aos convidados e atiro bombinhas de São João no quintal dos vizinhos de madrugada para acordá-los apavorados.

Quando junto as minhas sobrancelhas grossas e olho por baixo delas com um risinho irritante, já sabem que vou contar o final dos filmes. No mercadão mordo as frutas e deixo no meio das outras, sem comprar. Furo as embalagens de iogurte, bebo a metade e largo por lá mesmo.

Eles me chamam de “o velhinho intragável da casa 705”. E eu fico todo orgulhoso. Denuncio festinhas de aniversário de crianças à polícia causando constrangimento aos pais e convidados. Passo trotes para os velhos religiosos quando voltam da igreja aos domingos, blasfemando até desligarem o telefone.

Eu nasci velho e ranzinza. Sempre fui assim, excelente em encher o saco dos outros. Fingia que ia atravessar a rua e voltava, e as pessoas que tentavam me seguir tomavam susto por quase serem atropeladas. Os meus netos fazem terapia desde pequenos por minha causa, de tanto que inventei de histórias de terror para eles, que ficavam sem dormir, com medo. Talvez algum deles se torne um psicopata indomável!

Estou contando isso apenas agora, no leito de morte, como a minha maior maldade. Eu sei que vou para o inferno, então prometo desde já retornar para puxar os seus malditos pés por toda a eternidade! Ra, Ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra!

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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              Um motivo para a progressão da humanidade

 

A ousadia é o principal motivo para a evolução terrestre. Sem pessoas com pensamentos além do senso comum, inicialmente considerados loucos, as descobertas que facilitariam o domínio do homem sobre a Terra, e a consequente sobrevivência não alcançaria estágios tão elevados, porque a maioria tem medo do desconhecido e reage com violência em vez de tentar o entendimento.

Graças aos que ousaram sair do senso comum para testar teorias inovadoras e provar o enorme valor em todas as áreas, uma sociedade foi construída, costumes foram implementados e possibilitaram uma vida em comum com paz e respeito.

Em cada área, gênios criaram regras e hierarquia para que os homens mantivessem a coragem e a motivação de evoluir e dominar as leis da natureza. Ousadia é a chave para que as coisas aconteçam, e coragem é o escudo que permite insistir em uma luta interminável contra seres obscuros e covardes que se sentem seguros com o atraso constante, impedindo que o ser humano cresça e alcance patamares inimagináveis, acreditando ser o destino traçado por Deus  e a vitória dos obstinados sobre os preguiçosos.

Graças aos ousados no amor, a existência se tornou mais suportável e os corações puderam se alegrar fazendo valer a pena construir coisas novas, úteis e gigantescas, enaltecendo a Deus e às forças da natureza, devidamente domadas com a ajuda divina.

Para as mínimas coisas é preciso coragem e ousadia e essas qualidades garantem a diferença entre humanos e outros seres. Que isso seja lembrado através dos tempos e reforçado, e multiplicado, pelo bem da humanidade.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo                 

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                                 Apenas uma questão de negócios

 

Chegou o dono do boteco. Abaixa a crista, fecha a conta e sai andando reto no caminho de casa. Aqui se bebe, se chora as mágoas e se afoga as dores; com o excesso de álcool se acabam os pudores e tudo é escancarado. Boteco Psicologia, esse aqui. Nome fantasia registrado. Bem mais barato do que um profissional da mente, todos desfrutam do ambiente para enxaguar o ódio ou a alegria com pinga de boa qualidade e petiscos deliciosos.

Camarada felizardo, recém ganhador do jogo do bicho pode comemorar pagando uma rodada para todos os presentes, adquirir endereços de prostíbulos novos e telefones de profissionais liberais sem vínculo com qualquer residência da luz vermelha, agradecer o apoio e o orgulho dos parceiros de cama pela sorte e em seguida sair para o complemento da noite. De manhã chegaria em casa bêbado e sem um centavo, ouviria as reclamações da mulher e tomaria um banho para ir pegar no batente.

Tipos nervosos, sacaneados por todos, podem abrir a garrafa e, soturnos, remoer o chifre, a perda do emprego, a visita da sogra, a queda do andaime e outros males menores, sem serem incomodados por ninguém.

Os sonhadores podem beber sem ter o que comemorar, bradando os benefícios que viriam no futuro, de peito estufado, acreditando como se fosse verdade coisas que não aconteceriam. Eram esses sonhos que os mantinham em pé, com a quantidade certa de cachaça, obviamente.

Aqueles tristonhos, solitários, sem família, bebiam diariamente para esquecer a solidão e lembrar da família distante, que jamais saberia do fracasso que os acometera desde que saíram do buraco em que moravam nos confins do mundo, prometendo enriquecer na cidade grande. Enganados, limitavam-se a trabalhar como burros de carga para beber. A família continuaria sem notícias até que as coisas mudassem e pudessem comprar roupa nova, sapato, um rádio FM, um óculos Ray-ban, um boné...

O dono do boteco era rei no trato com os seus clientes. Observava uns em silêncio, lavando e secando os copos, servindo novas doses. Ouvia atentamente a outros, sorridentes e barulhentos, que deixavam gorjeta quando estavam por cima, e os que, caindo de bêbados choravam, contando as suas tristes histórias de cortar o coração.

O que não permitia era que os valentões, que surgiam de vez em quando, tentassem perturbar o estabelecimento puxando briga com quem estava quieto ou tentando quebrar as coisas do bar. Logo retirava de baixo do balcão um taco de baseball e acalmava o brigão, na pancada ou no ameaço. Nada pessoal, poderiam voltar depois, desde que em paz.

Um profissional precisa realizar a sua função sem raiva, sem lamentação, sem piedade. Ele fazia o que tinha que fazer, protegia o seu negócio e cuidava do bem-estar dos clientes, do jeito que fosse necessário. Eram apenas negócios.

 

                                                                                                      Marcelo Gomes Melo

 

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                                                                O auge da culpa universal

 

É a estreia do resto das nossas existências, cão virulento! Como essa visão sombria pode ajudar a reerguer-lhe do chão duro e seco que lhe apara a queda e impele a derrocada em direção às profundezas do inferno particular que habita essa mente frágil e torta?

Um único tiro de aviso raspa-lhe a sensibilidade, é a hora de levantar o corpo pesado por tanta culpa e garantir um lugar na romaria que vaga em uma única direção, abismo de um lado, floresta escura do outro, sem promessas de que o recomeço seja valioso de alguma maneira.

No céu sobre nossas cabeças, raios azuis cruzam o ar anunciando punição inclemente, criatura soturna, desanimada, vítima dos terrores noturnos, culpado dos massacres diurnos. Limpe o seu machado ensanguentado e o utilize como bengala, ser humano inconsequente, ingênuo, maldoso na própria ingenuidade.

À frente o horror se materializa confirmando que a luz é mais veloz do que o som, porque os estrondos espalham corpos e abrem caminho para o retorno de muitos para o abismo, dessa vez sem volta.

Tomemos cuidado, criatura nojenta! Atente para as minas terrestres que vitimizam vários diante da nossa vista, cobrindo de sangue alheio e restos mortais a sua figura ainda mais patética, apesar de aterradora.

É a estreia do resto das nossas vidas, mas não parece melhor do que foi antes! Não lhe faz indagar se vale a pena passar por tais provações para viver mais do mesmo, criatura nefasta?

O mundo é o mesmo, o cenário já existe, como esperar que mudemos? Pelo que observas, não parece pior? Após uma vida de atropelos e violência, interrompida pela justiça poética, embora já esperada e justa, não te faz perguntar se vale a pena o retorno nesses termos, ou é uma outra fase da punição, fingir que há uma chance para dobrar os tormentos, acelerar a tortura e nos fazer reviver todas as ruindades cometidas ou presenciadas, com mais intensidade e destruição?

Caso pensemos direito, rei da culpa em potencial, talvez seja apenas o recomeço como imãs que atraem todas as formas de ódio universal, travestido de estreia para triplicar a dor, pois acompanhado de esperança, sendo falsa, atingirá o auge da punição em todos os tempos!

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

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  Medo hétero de amar (A Era dos linchamentos morais)

 

Abolinácio queria comer Gabriela, mas não tinha coragem nem para dizer-lhe bom dia, quanto mais paquerar, muito menos aplicar uma cantada legal, que não seja patética, arrogante ou ofensiva.

A culpa de Abolinácio esconder os olhares gulosos e os sorrisos tímidos era o malfadado politicamente correto, o qual ele não entendia bem. Será que ele não podia ser homem e gostar de mulher, e declarar-se com suavidade e verdade, prometendo respeitosamente dividir a vida e a cama com ela sem que o acusassem de machismo e o prendessem, levando-o algemado pelas ruas, apedrejado pelos transeuntes enojados porque ele ousou desejar uma fêmea?

Gabriela era moça séria e bonita, gentil e leal, tratava às pessoas muito bem e sorria com facilidade. Era digna de ser amada e desejada, mas ele temia que por trás daquela simpatia houvesse uma garota impiedosa, disposta a acabar com a vida dele caso soubesse de suas intenções românticas, e por que não dizer, sexuais.

Eram tempos confusos, esses, em que os homens não deveriam expressar interesse nem tentar a sorte, e no máximo ouvir um não caridoso, sem ofensa ou diminuição do seu desejo, como funcionava antes.

Por esse motivo Abolinácio vagava pela firma como um sonâmbulo, perto dos colegas e com ela presente não dizia nada, nem bebia ou contava piadas que pudessem ter duplo sentido e estragasse o seu amor platônico que jamais sairia do pensamento para a realidade simplesmente porque os regulamentos sociais mudaram, e radicalizados passaram a assombrar a qualquer homem decente e saudável que desejasse comer uma mulher.

Restava-lhe o sonho mais cruel, que consistia no dia em que Gabriela tomaria a iniciativa e o convidaria para jantar, ir ao cinema e depois esticar para o término da noite em um lugar discreto e agradável, tudo devidamente registrado em vídeo pelo celular, para evitar surpresas pós encontro. Os estatísticos amorosos de plantão nas redes sociais afirmavam que a porcentagem de uma coisa dessas acontecer era baixa, porque as mulheres temiam errar o bote e convidar um cidadão que não gostasse da fruta. Seria constrangedor para todos.

E o impasse estava firmado e reconhecido, devidamente difundido e vorazmente defendido. Heterossexuais estavam com problemas para se dar bem. Livros sobre como reconhecer os sinais positivos e evitar as gafes e os vexames pré-sexuais estavam vendendo bem. Cursos online sobre como se aproximar na certeza sem ser taxado de assediador, idem.

Abolinácio não era nada disso. Em princípio só desejava comer Gabriela, e depois decidir em conjunto possibilidades de prosseguirem juntos respeitosamente, de forma eventual ou fixa, seguindo a cartilha do bem viver, anti-assédio e divisor justo de tarefas e lucros.

Um dia Gabriela caminhou inocentemente em sua direção com aquele sorriso perfeito e com uma garrafa térmica na mão, e usando aquela voz encantadora e maravilhosa de atendente do antigo serviço de sexo por telefone, perguntou para Abolinácio na lata:

- Abolinácio, aceita um café quentinho? Acabei de passar.

Abolinácio ficou verde, espumou pela boca e, sem conseguir pronunciar uma palavra, infartou, ali, na frente dela.

Foi inaugurada, então, a possibilidade de processo por “contra-assédio sexual desprovido de intenção”. Novos militantes, novas leis, novos advogados, novas atitudes políticas... Fim dos tempos.

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                                                             Sobre os quinhões de reflexão

 

Sob os cabelos empapados em sangue há um cérebro, e nesse cérebro há arquivos obscuros, perigosos, acumulados durante uma vida intensa a serviço de pessoas pouco confiáveis, inescrupulosas, dispostas a qualquer coisa pela manutenção do poder. Sempre atrás de um biombo blindado, é claro. Esses, os dos arquivos mais profundos em um cérebro aberto literalmente, não agem diretamente. Eles nunca colocam a si mesmos sob riscos, embora saibam que esse é o sobrenome que escolheram, abandonando a tudo o que pareça honesto, ético, humano.

Estranhamente são esses os valores que pregam descaradamente, ao mesmo tempo em que matam, cegam, destroem, inutilizam, determinam o modo como a maioria vive, ou quando morrem. Sorriem com facilidade e oferecem vantagens como objeto de sedução. Quando não o conseguem, torturam, ameaçam, causam problemas e maldades, sequer piscam os olhos.

Os arquivos profundos naquele cérebro em plena decadência, contém listas e instrumentos mortais, físicos e escritos, instrumentos que corretamente sussurrados acarretarão tribulações e sacrifícios humanos, tragédias vendidas como naturais, mas provocadas artificialmente com um único propósito: a manutenção do poder.

O sangue que escorre pelos olhos, também escapam dos cabelos e atingem o cérebro, apagando com o vermelho as lembranças mais perigosas para os mandantes, os que se serviram da coragem insana e falta de inteligência total de quem não se considera digno o suficiente para ter ideias próprias. Nasceram para servir, e quando a validade acabar, serem atirados em uma vala qualquer à beira de uma estrada de terra, no meio do mato.

Ninguém chorará por eles, nem se lembrará de sua existência nociva, ilegal, vergonhosa. O sangue empapado esfriará e coagulará, expelindo da vida o seu dono, envenenado por natureza, sem a benção divina.

Os restos mortais não serão encontrados; predadores já estarão à espreita para devorar o que puderem. O que restar será corroído por vermes inclementes e indiferentes, que não discriminam os cadáveres que porventura surjam.

A vida segue, quase ninguém fica sabendo. Na verdade, quase ninguém quer saber, só os que terão, cedo ou tarde, o mesmo destino, comentarão brevemente antes de seguir com os próprios pensamentos. Essa é toda a reflexão que são dotados a ter.

 

                                                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                           Paixão que arrasa, noção que se perde

 

Paulina diz que me ama e que está se tocando enquanto falamos ao telefone, com a voz trêmula e ofegante, encharcada como um pântano mantendo as pernas entreabertas e uma das mãos entre elas, estimulando suavemente incentivada pelas minhas palavras ousadas, pela minha descrição vívida e a rouquidão exigente fazendo-lhe bambear as pernas, os seios subindo e descendo em um ritmo doido.

Estamos distantes, mas ela vê cada centímetro, de olhos fechados. Ela sente. Enxerga o suor no meu rosto, o meu olhar em chamas e a minha mão pesada manuseando como um adolescente todo o tesão que Paulina causa, acesa como uma tocha no meio de uma floresta.

Repetir que me ama aos choramingos é a senha para os meus urros roucos, fora de prumo, êxtase puro e fome voraz, da qual não pretende escapar. Os ruídos de amor fazem parte do jogo. O pensamento violado transforma paixão virtual em realidade sincronizada, sem riscos, sem medos, sem hesitação que impeça que todos os desejos se realizem.

A determinação toma conta e não impede que o instinto de preservação limite o alcance. Tudo é possível e depois sorriremos cansados, só restam lembranças reais, que aceleram o sangue à mera lembrança, e desperta quereres que antes seriam imprudentes.

Tudo é amor, Paulina, quando usamos todos os sentidos disponíveis e criamos alguns outros impensáveis até outro dia, durante a rotina infindável e chata, que obriga pessoas a criar receitas e segui-las alucinadamente tentando satisfazer corpo e alma.

Muitas dessas receitas, senão todas, causarão dependência e tristeza, produzindo robôs que automaticamente se enganam quanto à aurora do amor. Sequer conseguem o mínimo de prazer e o vazio só aumenta, encaminhando corpos sem alma para a beirada do abismo onde tombarão um a um, enganados até o fim.

Paulina diz que me ama, as pernas fortemente trançadas, as mãos sobre os seios com força e os sussurros desesperados, correspondidos à mesma medida rumo a uma explosão incontida jorrando naturalmente, retirando toda a tensão acumulada, fazendo relaxar com um cansaço possível, necessário. E sorrisos, e palavras de amor que jamais farão sentido, se comparadas ao prazer alcançado através da energia dos corpos imantados, que se procuram sem barreiras e se encontram aonde quer que estejam.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

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                                    Um brinde ao final dos tempos

 

-  Utilizando crianças para realizar a sua política suja, imbecil?

- Todas as artimanhas valem a pena perto do final do mundo. Não é você quem impedirá tentando ser o oposto.

- Não há ninguém fora do barco. Nenhum 100% oposto. É isso o que eu quero defender.

- Menos cínico do que imaginei, querendo se aproximar da verdade.

- Não existem verdades. Existem tolos manipuláveis.

- Não ouse me culpar por saber como utilizar isso!

- O poder alcançado é medido pela quantidade de atrocidades que se é capaz de fazer.

- Pensar que crianças de hoje são como as de trinta ou quarenta anos atrás é um erro. São pequenas víboras. Lidar com elas é perigoso, pois caso se voltem contra você será um enorme problema de sobrevivência.

-  Está ciente disso, mas... Não são todas as crianças assim.

- Ingenuidade sua. Estão sendo formatadas assim desde o berço. A ganância se manifesta desde o berço.

-  A indolência é um obstáculo salvador para a ganância, embora inutilizem completamente os portadores.

- É disso que estamos falando! A política necessita dos gananciosos para controlar os indolentes. Quem está no meio, procurando algo parecido com justiça, como você, será completamente atropelado.

-   A guerra nunca termina. Vivemos de batalhas. E posso ganhar algumas.

- Mesmo assim, durante a sua vitória temporária terá que lidar com as minhas cargas depreciativas, a burocracia criada para interromper ideias toscas como as suas que não trarão vantagem alguma aos grupos pequenos acostumados ao controle de tudo.

-   Desistir de uma sociedade menos desigual é desistir de viver.

- Viver para quê? Produzimos zumbis preguiçosos, adoradores de migalhas para que o equilíbrio seja de acordo com as nossas normas.

-   Essas normas são genocidas!

-  É necessário descartar lotes de inúteis de tempos em tempos! É para isso que existem doenças incuráveis, desastres supostamente naturais, líderes religiosos assassinos... As coisas funcionam desse jeito. Acostume-se.

- Nunca irei me acostumar. Envelhecerei e experimentarei a humilhação de ser taxado como tolo pela maioria sacrificável, aqueles por quem tento lutar, a quem tento defender.

- Sinto muito por você. Os livros ensinam século após século, mas há cada vez menos quem os leia. Acreditam em coisas insanas, mas não enxergam a verdade a um palmo dos seus narizes, clara como um dia de verão!

-  O que me resta fazer, nesse cenário apocalíptico?

-  Pegue o seu copo, encha de uísque. Brindemos ao final dos tempos!

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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                           Loira libidinosa e os enganos da vida

 

Loira libidinosa mostrando as coxas displicentemente. O decote no umbigo não era sequer um convite, era uma exigência! Mascava chiclete como se fosse uma cabra, fones de ouvido e celular nas mãos finas e eficientes. Era a imagem da inocência usurpada, sem pensar em nada que fizesse o seu cérebro vazio soltar fumaça.

Ela queria pouco da vida, e não se importava com os pequenos sofrimentos, entretida com os pequenos presentes que recebia para realizar coisinhas simples que lhe pediam para fazer nos cantos escuros, e que outras vezes se oferecia para fazer.

O mundo dela era assim, pequeno, como um quarto de paredes descascadas, sem janela, sem móveis. Um colchão e um pequeno fogão de acampamento. Pequena loira libidinosa, provocando os santos e os comuns, sendo utilizada pelos espertos e pelos maus.

Um dia aconteceria com ela o que ouvia naquelas canções românticas, sarcásticas e pervertidas. Era fato e ela jamais contestaria, porque o mundo paralelo no qual vivia não lhe oferecia opções de raciocínio, e as pessoas com quem interagia eram todas como ela, sem perspectivas e sem conhecimento.

Loiras libidinosas só o são na aparência, para os que as observam de longe, sonhando em tirar uma casquinha sem envolvimento, em segredo, para depois retornar para o outro lado do muro fingindo manter a compostura e uma dignidade inexistentes.

A vida prega peças em todos os que se aventuram por ela, sem fazer concessões. Existir exige consequências, vistosas ou aterrorizantes. Ou aterrorizantes mesmo que vistosas.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                                               Negócios do século XXI

 

Quatro tiros de frente para o arrombado, errei todos. Após uma leve hesitação de ambas as partes ele disparou ladeira abaixo, correndo mais rápido do que notícia ruim. Segundos depois parti atrás, segurando a “máquina” para baixo ao lado do corpo, o dedo fora do gatilho como aprendi nos filmes de gangues.

Aquela ladeira estava asfaltada, mas não era assim na minha infância. Descíamos de carrinho de rolimã até embaixo, sobre terra e pedregulhos, esgoto aberto na sarjeta de ambos os lados. Hoje havia iluminação, e eu enxergava o vagabundo 30 metros à frente, cambaleando para um lado e para o outro, tentando dificultar a minha mira e escapar dos tiros.

Se eu parasse para acertar o tiro ele se distanciaria ainda mais, então decidi queimar o desgraçado atirando em movimento, enquanto corria, mais dois balaços. Não era como nos filmes, errei feio, passou longe. Pelo menos manteria o medo vivo no coração do sem vergonha.

Enfiei a mão no bolso, peguei mais balas; respirando com dificuldade recarreguei. O peão virou a esquina à direita onde havia um campinho de futebol, agora substituído por uma série de casas geminadas, de cores iguais. Continuei a perseguição madrugada adentro sabendo que havia perdido a chance de enviar o sacana para a cidade dos pés juntos nas profundezas dos infernos.

Logo amanheceria. Guardei a arma no bolso da jaqueta, ajeitei o boné e continuei andando, agora calmamente, atento a tudo, permitindo que a respiração se estabilizasse. O meu plano era parar na padaria e esperar que abrisse, sentado na calçada. Se a sorte me sorrisse poderia encontrar o sujo, e então realizaria a minha tarefa.

Ele correra por instinto, não deveria saber o porquê dos tiros. Nem eu sabia. Não se pergunta ao contratante o motivo da tarefa. Você apenas a realiza.

Aquela noite não fora de sorte para mim, para ele sim. Deveria estar em uma igreja ou duas no bairro, mas não ficavam abertas dia e noite. Agora temiam assaltos. Ninguém era inatacável mais. Mesmo assim passaria por elas, desencargo de consciência.

Algumas horas depois, na padaria com um pãozinho na chapa e um pingado eu já sabia que a dificuldade aumentaria, agora. O tapado se manteria escondido, isso se não tentasse fugir do bairro! Liguei para o contratante e o coloquei ciente dos acontecimentos. Informei que iria demorar um pouco mais. Ele praguejou, mas aceitou, não havia outro jeito.

Eu fui para casa, guardei a minha “peça”, coloquei o macacão e fui para a mecânica trabalhar. A próxima noite seria melhor, com toda certeza. Não estava fácil para ninguém.

 

                                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

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Todos querem conhecer o céu, mas ninguém quer morrer

 

O amor em excesso pode gerar efeitos aleatórios no coração e na alma, alterando o ritmo do entorno, a conexão com o que é real e palpável, enquanto uma possível conjunção com a natureza aumentando todos os sentidos propiciam uma nova visão, diferente da visão das pessoas comuns, que se envolvem em paixões enganosas e desnecessárias, as que compelem a tomar atitudes tresloucadas e fogem ao padrão por algum tempo, mas terminam logo, devastam e ferem também por um período; depois recomeçam do zero, mudando só o parceiro, e as mesmas sensações acontecem novamente.

O amor em excesso difere das paixões porque não acaba bem, sobrevivem às tragédias e machucam para sempre, não sendo possível superá-lo. Não acontecem duas vezes e os atores são sempre os mesmos. Eles cometem as mais inocentes loucuras e sacrificam até o que não têm em nome do outro; morrer por isso não soa absurdo, e não para o amor jamais, apenas caminham para um nível além e são revividos de formas estranhas, incompreensíveis para os não agraciados.

Os simplesmente apaixonados se divertem e sofrem, e continuam assim até que encontrem novas paixões que não são imortais nem duradouras.

Trata-se do número da sorte com o qual nasceram, e que determinam o seu destino amoroso que afetarão a todos com quem interajam e o ambiente no qual vivem, sem que percebam a interligação que faz a vida inexplicável e os sonhos inconclusivos, envoltos em uma neblina misteriosa, embora não literal.

Os outros, os que vivem abaixo da linha dos amores e paixões contentam-se com uma existência simplificada, na qual tomam decisões previsíveis baseadas na lógica e não amam jamais, muito menos são tomados por paixões arrasadoras; acabam por cumprir prazos, realizar tarefas simplórias e dividir suas vidas como famílias sem grandes emoções, complementando as grandes civilizações que existem por um tempo e são arrasadas e destruídas, substituídas por outras com as mesmas bases, alguns resquícios do que eram antes, e que, dependendo de como forem interpretados influirão nos novos acontecimentos.

A base de tudo será sempre o amor em excesso, as paixões arrasadoras, e as combinações lógicas, sem prazeres inesquecíveis nem grandes sofrimentos. É a parte que equilibra a balança do universo, mantém os mistérios e garantem o mínimo motivo para constante renovação.

Fora disso tudo é escuridão. Há um limbo programado para que todos acreditem em um poder maior, seja qual for, e os que busquem desvendá-los sejam os causadores dos tumultos que levarão as civilizações ao ocaso e sumiço, até que uma nova ressurja e mantenha girando a grande engrenagem sem nome, indefinida e inevitável. A imortalidade se inicia com a inexistência física. Jamais saberemos ao certo, porque todos querem conhecer o céu, mas ninguém está disposto a morrer.

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

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                     Carta alienígena retaliada por brasileiros

 

Kjar zhar potrekmarr kqxuastwar ipnotylj tabhahh! Okhmerishorr orr dassau tarr ikyiobap tdor kurwmubrzw atxwt rrall briocl tarr na kcloppkq warwvosk ptoryanisopcomnpak yyk hi tetkkx aahlit ohmnikarr gorr ahhr tthermerhosty wewh tirinkslayy podoptowskii arioslikatri pell.

 

Cooxente bixinho! Derrepentemente tu veim da bubônica dum planeta no meio do céu cum essas falas com um zovo na garganta quereno assustambrar um macho maxixe doce do Nordeste, rapai! Aqui eu rô pra adadonde eu quiser, siminini homi, tu rai tomem? Intaum ramo nessa peste bubônica, qui eu tô cum facão na cinta pra mata vagabundo cum cara de porco e assá cum farinha. O planeta é nosso, sinhozinho! Só pruquê tu é gigante e forte como um touro num mete medo ni quem come cacto cum rapadura debaixo do sol que enruga a pele e queima os miolo todo dia.

 

Ara, o sinhô tá sum essa conversa estranha pra daná, que trem é esse, sô? Qué sentá e toma uma pinguinha chegue mais, qui nois até serve uns pão-de-queijo, mais num veim falano grosso quinós naum teim medo naum. Deve di sê arguma invenção de Sum Paulo ou do Ri di Janeiro, uns home di ropa de prasco cum cara feia urrano feito javali. Aqui não, violão, larga do meu pé, chulé. Ocis vão sentá na graxa, uai!

 

O que diacho é isso, guri? Não tá morto quem peleia e aqui no sul nós matamo a cobra emostramo o pau, pra tiver. Tu vai dança o vanerão e tomar um chimarrão que aqui a banca paga e recebe, tchê. Terra de macho que vai se libertar do Brasil e depois dos outros planetas, véio, é melhor tu dares o fora do nosso território, tchê!

 

Comandante, essas foram as gravações que interceptamos dos alienígenas ameaçando invadir o Brasil, pelo menos foi o que eles entenderam e responderam com coragem. Parece que deu certo. A nave deixou o planeta assim que recebeu as respostas.

Nossas defesas orais são convincentes, nem precisamos pegar em armas. Palavras mais ameaçadoras do que a deles, pelo jeito!

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

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                                  Vítima da crueldade das fêmeas

 

Ele estava bêbado quando a conheceu, e curtia o pior momento de sua vida amorosa, ou do término traumatizante dela, e procurava esquecimento através de uísque, tequila, cerveja fosse lá o que fosse, esparramado no bar, parecendo um bagaço humano. E foi assim que a conheceu, oferecendo a pior primeira impressão que alguém pode dar de um homem com alguma dignidade.

Ela tinha aquele aspecto bondoso no olhar, e uma voz firme e tranquila, nada surpresa com o estado em que ele se encontrava quando puxou assunto e sentou-se com ele, aceitando um suco de laranja.

Bonita do seu jeito simples, cabelos escuros e lisos sem adornos e nada de maquiagem, a face real de quem não teme a chegada dos anos, impiedosa com mulheres e homens. Conversando banalidades até que eu tomasse coragem para falar do amor perdido que me causava tanto sofrimento, a ponto de morrer por coma alcoólico.

Resignada, não disse que não o fizesse, apenas ponderou sobre algumas coisas que poderiam ser importantes para ele manter, como a alegria de viver, o sol e a praia, refeições exóticas e sexo bom e sem compromisso, por que não?

O modo como ela colocou aquelas coisas, sem incutir responsabilidades nas minhas costas, sem julgar a minha franqueza, me sensibilizou enormemente. Os meus olhos começaram a enxerga-la, mesmo embaçados, como uma possível rampa de salvamento.

Olhou em seus olhos e tentou seduzi-la descaradamente. Estava bêbado, então parecia mais ridículo do que sedutor, mas ela nem se importou. Sorria de tempos em tempos, entre um gole e outro no suco de laranja.

O cara ainda não ainda não havia se dado conta de que estava tratando com uma freira, até que ela lhe disse, sem nenhuma mágoa ou surpresa por ter sido convidada para o apartamento dele para transar loucamente até afastar os fantasmas de sua vida desolada.

Agora fazia sentido o vestido preto sem decote, cobrindo até os pés, e o crucifixo no peito, além do colar de contas na mão direita. Além de triste ele era burro. Já ia iniciando o processo humilhante de implorar por desculpas quando ela o surpreendeu aceitando o convite, desde que ele permitisse que ela dirigisse até lá, devido ao seu estado deplorável.

Confuso e excitado pagou a conta e entregou a ela as chaves do carro. Comprou outra garrafa de vodca para viagem e a seguiu cambaleando, tentando descobrir algumas curvas no corpo completamente coberto da freira. Seria a sua primeira vez com uma noiva de outro, e o pior era que o outro era Jesus, o Próprio! Ele estava certo que o seu caminho seria o inferno por isso.

No caminho continuou a beber para sufocar perguntas adolescentes que poderiam ofendê-la: se era virgem e ele seria o primeiro homem dela, ou se costumava servir como marmita para os padres sacanas, pois sempre existe um.

Muito calma, quase indiferente, estacionou o carro fora do prédio e pegou a chave do apartamento. Quando ele indagou por que não usar a vaga que tinha no estacionamento, mencionou algo como praticidade e fazê-lo andar para recuperar a consciência e a condição física para possuí-la selvagemente. Ficou louco de alegria, não havia nada mais importante para ele do que conhecer no sentido bíblico aquela madre tão diferente e especial.

No apartamento o levou para a cama e o ajudou a usar a garrafa de vodca como uma mamadeira. Só acordou no dia seguinte por volta do meio dia, sem saber por certo onde estava.

Aos poucos percebeu que estava em casa, e apesar da enorme dor de cabeça relembrou o xaveco na freira, que deu certo. Olhou em volta procurando por ela inutilmente. As roupas de freira jogadas no chão do banheiro lhe arrancaram um sorriso de felicidade, junto com uma dor lancinante. Ele ainda achava que havia se dado bem e teria história para contar aos amigos, gabando-se por ser um sedutor.

Então percebeu que estava na banheira, com muito gelo em torno de si. Será que enchera a banheira de uísque e fizera uma farra regada a bebidas?! Em seguida notou um curativo na região abdominal e um bilhete embaixo do celular no chão do banheiro.

“Ligue para um hospital imediatamente e solicite uma ambulância, diga que perdeu um rim e o fígado. Boa sorte”.

Na cozinha faltava a cafeteira, o fogão de seis bocas, o micro-ondas; na sala não havia mais televisão. A carteira continha os documentos, mas os cheques, o dinheiro, os cartões de crédito... Os relógios e as correntes de ouro, anéis haviam sumido.

Uma gigantesca sensação de perda se apossou dele. Não que estivesse apaixonado, mas enganado assim tão facilmente!

Quando os policiais chegaram junto com a ambulância, contaram da falsa freira que aplicava o boa noite cinderela nos trouxas e levava tudo o que pudesse carregar enquanto o idiota apagado achava estar no paraíso sem comer ninguém.

O delegado o aconselhou a deixar para lá e evitar a humilhação de ter caído no golpe; os paramédicos disseram que viveria com apenas um rim e que o fígado já não prestava para nada mesmo. Mais detonado do que antes fui para o hospital pensando em comprar mais quatro garrafas de vodca e quatro de uísque. Ter sido feito de bobo por uma mulher vestida de freira o enfio na mais profunda das depressões.

O golpe da freira foi marcante para um homem experiente como ele. As cicatrizes aumentaram e ela terá que se adaptar ao fato de que sou um eterno imbecil, destinado a ser vítima das mulheres cruéis pelo resto da vida.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

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                                             Sezefreda do xibiu doce

 

Sezefreda do xibiu doce era a rapariga mais maravilhosa da caatinga. E a mais caridosa também, sim, senhor! Mulher da gota serena, a Sezefreda. Dura como uma rapadura, espinhosa como um cacto, mas delicada como uma flor temporã no meio daquela seca maldita.

Era ela a responsável por aliviar o desespero daqueles caboclos brutos sedentos de água e de prazer nas noites de quarenta graus e um céu azul marinho, banhado por um mar de estrelas, ironicamente.

Sezefreda tomava pinga como um macho cabra da peste, e fazia com que aquelas mãos calosas e ressequidas passassem por sua pele morena como um esmeril. Ela apreciava mãos grandes como raquetes de tênis, dedos grossos de unhas sujas contrastando com aquele xibiu enorme, macio como uma rosa em flor, que ficava úmido ao primeiro toque, inchado, rosado, e se abria instintivamente quando acariciado. Sezefreda suspirava antecipando o tesão que aqueles dedos causavam, roçando com uma suavidade sacra, o oposto do que aqueles ogros aparentavam no dia-a-dia.

Largada em uma rede na varanda da casa mal iluminada por candeeiros, ela sentia a penetração dos dedos tranquilos, o carinho que faziam, experientes e eficientes como um vibrador. Enterravam-se nela e ficavam maravilhados com os seus suspiros atormentados, sua boca entreaberta e o olhar perdido.

A rede rangia e Sezefreda reagia imediatamente, movendo-se com a paixão de quem se entregava aos afagos dos ogros, homens de verdade que idolatravam quase como crianças abandonadas. Muitas vezes ela chorava sentindo as línguas ásperas em seus mamilos generosos, e os dedos explorando com urgência aquela gruta em lodaçal, pronta para estocadas potentes. Muitos deles não o faziam, gozavam se masturbando entre suas coxas, enlouquecidos pela beleza rústica e resistente de uma mulher do cangaço.

Rainha das meretrizes, Sezefreda, bondosa, delirava na ponta da língua dos boiadeiros que a saboreavam suculenta como a mais doce compota de figo desmanchando-se entre os dentes de ouro dos pobres trabalhadores que de dia sonhavam com a riqueza.

O apelido ganhara força e era um mantra, aceito pelas outras mulheres e pelos adolescentes prestes a iniciar o caminho misterioso do sexo. Mesmo desajeitados conseguiam enlevar Sezefreda a ponto de fazê-la rugir tal tigresa no cio, proporcionando uma primeira experiência inesquecível a quem, dali em diante teria uma vida difícil, permeada por perdas, envelhecendo rápido, fortes como touros, cheirando a fumo de corda e cachaça de cana de açúcar.

O xibiu doce lendário de Sezefreda virou ponto de turismo na pequena cidade, e autoridades das cidades vizinhas não hesitavam em ir provar a valiosa precheca de creme, e os uivos de loba faminta que Sezefreda oferecia de bom grado. Se houvesse uma igreja ela seria alçada a autoridade eclesiástica; se houvesse prefeito, com certeza a honra seria dela.

Para homens que viverão pouco e intensamente, o xibiu de Sezefreda era sagrado. O maior prêmio de uma vida enganosa e cruel. Sezefreda era o mel que os animava a acordar para um novo dia terrível de dores e lamentos. Fariam tudo por ela.

 

                                                                                                Marcelo Gomes Melo

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                                        O modo como agem os heróis

 

Não é pelo fato de gostar dela que eu vou retroceder nos meus princípios. Não é pela falta de oportunidades que deixarei de abrir o meu caminho, à força, se preciso for.

Os dias passam lentos sob o sol escaldante do deserto de possibilidades, no qual me incluo e fico arranjando desculpas para não declarar meu amor por ela. Prefiro manter a pose de mau e a ignorância dos fracos de coração, criando uma muralha intransponível, impenetrável, e jamais seria magoado por algum tipo de rejeição.

É interessante ser a estátua de gelo que não pode ser destruída e ter que suportar o peso dos desgostos alheios, que jamais pensarão que há uma mera possibilidade, bem distante, de conter sentimentos sob a aparência impassível e as poucas palavras.

Eis a razão pela qual não retrocederei. Com os passos firmes o olhar no horizonte sacrificarei todos os meus sonhos em troca do status de indestrutível. Quem toma as decisões mais difíceis e arca com as consequências merece estar no comando. Quem não tem a coragem necessária passa a vida reclamando, aos brados, e se escondem como ratos sob qualquer dificuldade. E ainda lhes resta a capacidade de culpar aos outros pelos seus próprios defeitos, descaradamente.

Culpam a Instituição em vez de sua falta de decoro e esforço, acusam prédios, inanimados, por não terem sido preparados corretamente, mas nunca olham para os seus inúmeros defeitos. Sempre que encaram um espelho enxergam a alguém melhor do que jamais serão.

Nenhuma recompensa individual tem qualquer valor, porque amor não correspondido é folha seca flutuando ao sabor do vento; amizade irretocável nem sempre é reconhecida, porque a maioria sempre tem algo material em mente, então ela perde o sentido.

Não retrocederei! Recusarei qualquer benefício sentimental e não oferecerei nada a ninguém, nem a ela, a quem amo. Farei o meu trabalho com honra e violência, tanta quanto necessária; perguntar é impróprio, adivinhar é estúpido. Apenas realizar o que pode ser realizado e seguir adiante, chamuscado e coberto pelo sangue dos outros, curando os próprios ferimentos através do tempo.

Um homem coberto de cicatrizes invisíveis, mentais, não pode provar as consequências dos seus atos. Julgadores improváveis são os que mais proliferam no mundo como baratas que sobrevivem a tudo para devastar o local no qual vivem, rápidos como uma praga de gafanhotos.

A espada afiada deve cair sobre essas nulidades sem dó, mesmo que se reproduzam mais rápido do que são eliminadas. Nada de piedade, soldado, não pense nela e nem em si mesmo, muito menos nos dois juntos. Não é assim que agem os heróis?

 

                                                                                                    Marcelo Gomes Melo

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                                 Amores distintos, inegociáveis

 

Se me amar não faça escândalo. Arrume o futon, aqueça o quarto, coloque snacks em uma mesinha de madeira e algumas cervejas, vinho de arroz, soju...

O ambiente silencioso, em comunhão com os deuses nos permitirão meditar lado a lado, de mãos dadas e olhares furtivos.

Logo mais, com as luzes apagadas, trocaremos carícias não totalmente despidos, contendo os gemidos, prendendo a respiração, transparecendo os sabores através dos olhares agoniados e respiração entrecortada.

Com a lua cheia iluminando nosso quarto através da janela, testemunhando momentos secretos que jamais serão discutidos, porque menos é mais, e não ousamos sequer pensar entre as outras pessoas.

Me ama, então cuide dos meus silêncios e aceite os meus sorrisos e toques tímidos com prova do amor inesgotável que surge depois, muito depois, porque nos conhecemos e convivemos no princípio como totais estranhos, e nem sempre a sorte sorri unindo o casal ajustado, que se entenda sem que um se sobreponha ao outro em termos de status.

A bebida nos deixará relaxados, menos tímidos, o que facilitará nosso amor discreto, escondido do mundo, para um sono tranquilo, abraçados, casados com a vida.

Difícil se acostumar com culturas diferentes, encontrar um meio-termo que garanta honra e dignidade sem perder a lascívia justa para qualquer casal verdadeiro.

Me ama, não diga em palavras, eu sei. Aprendi a conter a minha volúpia de gritar aos quatro cantos e guardar para nós dois apenas entre as quatro paredes.

Amores distintos, inabaláveis, impossíveis de entender por quem reconhece apenas o que é imediato.

 

                                                                                Marcelo Gomes Melo

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                                            Entre a esperança e o ódio

 

Parta-se do pressuposto de que não há mudança em larga escala sem revolução, e que não existe revolução sem sangue derramado, sem mártires forjados em batalha e heróis que se sacrifiquem pela causa.

Em uma democracia, há que ficar claro a obrigatoriedade de que as decisões da maioria serão as acolhidas, e que as minorias têm o direito de exercer a sua cidadania tendo em mente o cumprimento dos deveres e a preservação de todos os direitos.

Caso seja essa a ideia de uma sociedade, minorias não dominam, opinam, e caso a sua reivindicação seja rejeitada pela ampla maioria, agir como crianças birrentas desrespeitando as regras e as leis não funcionará, apenas criará balbúrdia e focos de violência.

A política não é compreendida pela maioria do povo; isso acontece porque deve ser assim para que uma maioria comande milhões e roubem, legislem em causa própria, vendam a própria alma para manter o poder. Não existe lado bom! Todos são corruptos, todos agirão para acobertar uns aos outros e fingir para que a grande maioria se divida entre a esperança e o ódio.

Jamais essa imensa maioria exercerá poder algum, se formarão em grupos para ser comprados e dividir o espólio com outros que se conformarão com um quinhão ainda menor, e a vida continua a mesma, com a mídia reivindicando o quarto poder, trabalhando para o lado que lhes ofereça mais vantagens, assim como os sindicalistas, os artistas e outros corruptos em potencial.

Essa é uma razão consciente para que os partidos políticos se revezem no poder, que nenhum consiga instalar um esquema perfeito para perpetuar-se no poder doando migalhas, esmolas, distribuindo humilhações e morte contabilizada matematicamente para manter o poder através do número de viventes que forma a população.

Mudar periodicamente de ideologia atua como um bálsamo para as costas chicoteadas, a ausência de cultura cultivada para evitar o entendimento do que está acontecendo. Então forma-se mais acadêmicos diminuindo as exigências, criando profissionais despreparados com um diploma superior, que funciona nas estatísticas, mas destrói o núcleo social mais necessitado com falsa pompa, e arrogantes, destroem o ensinamento do idioma, matam pacientes receitando remédio para virose quando não sabem que se trata de câncer...

A política sempre será assim, os que estiverem no comando negociarão com os adversários atrás das cortinas e todos sairão beneficiados. O povo? O povo é dispensável, gente para levar a culpa, sofrer, acreditar ingenuamente, receber trocados e bater palmas, se tornando violentos uns contra os outros em nome dos seus donos e morrer sem nada.

Sempre foi assim e sempre será. Sem revolução radical não há mudança; sem o sacrifício impiedoso dos líderes, as coisas se ajeitam, e os pseudo-adversários discursam odiosamente, e bebem champagne do alto dos seus edifícios.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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O final dos tempos e a tentativa de alcançar um plano superior

 

A cada dia as coisas ficam mais confusas. As pessoas parecem estar sob o efeito de diversas coisas, drogas, emoções contraditórias, fé cega, impaciência crônica, cinismo em altas doses, descrédito sobre a existência de coisas positivas e atitudes cívicas, éticas, morais e bondosas, incluindo cada uma delas.

Então as teorias da conspiração dominam uma boa fatia da sociedade, debatendo teorias absurdas, mas com resquícios de possibilidade, e isso causa uma enorme polêmica, principalmente em uma época em que as distâncias inexistem e as informações surgem como um piscar de olhos, sendo aperfeiçoadas antes de serem passadas à frente, lembrando a antiga brincadeira adolescente do telefone sem fio.

Hoje ninguém com menos de trinta anos faz ideia de que brincadeira é essa, concentram-se em difundir coisas mais perigosas e próximas da realidade, através da tecnologia que veio para modificar as pessoas física e mentalmente. Atualmente os protocolos mudaram, e a forma dos pensamentos e atitudes também. O que era regra geral e crença total, agora é contestado brutalmente, polarizando lados, e possibilitando guerras frias, civis, estudantis, inclusive infantis.

A confusão contribui para as teorias religiosas, extra-sensoriais e universais, produzindo fanáticos para todo o tipo de necessidade, com hipocrisia em massa e vitimização como arma para vencer a batalha do fim do mundo.

O que se vê em torno, dia e noite, pode ser comparado ao que foi previsto na Bíblia, adivinhado por videntes, previsto por todo o tipo de privilegiados com linha direta para os céus. Em comum, a facilidade em angariar fundos financeiros de todas as formas, com as promessas mais bizarras e intragáveis, mas que funcionam, pois há uma imensidão de cordeiros dispostos a se deixar abater em troca de um lucro maior oferecido pelos seus líderes.

As pessoas escolhem acreditar no que quer que seja com a esperança de salvação, de vida melhor, de sobreviver com algo bom para acreditar.

O final dos tempos vem acontecendo claramente, principalmente para os milhões que, de alguma forma são abatidos pelo caminho levando consigo as crenças que aliviaram a consciência de que perderiam para ganhar um nível maior, alcançando um plano superior que seja perfeito para quem sofreu bastante durante a estadia nesse planeta em caos.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

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                                                      Amor hediondo

 

Aqui, em pé sobre o seu sepulcro, observo o ambiente arejado entre as montanhas de pedras centenárias e árvores milenares, por entre as quais correm as águas límpidas do rio essencial, frio e audaz, superando obstáculos com a sua força estupenda despencando em cachoeiras monumentais, as que celebram todas as dores e jamais questionam os porquês.

As flores ao redor parecem assistir, maravilhadas, o local de sua queda, tão glamurosas o quanto podem até murchar. Assim que acontecer, naturalmente darão lugar a outras belas flores que em seu tempo de existência, embevecidas, servirão de escolta ao seu túmulo gelado e sombrio, habitação sinistra para alguém tão vivaz quanto vossa magnificência, senhora dos pecadores, o imã que atraiu os mais valentes e ferozes cavaleiros para a morte, com um balançar de quadris equivalente ao canto das sereias.

Apoiado na empunhadura de minha espada, com a ponta equilibrada sobre a pedra antiga de sua sepultura, deixo a mente vagar em busca de esquecimento, senhora dos amores profundos, comandante do juízo dos homens, produtora contumaz de insensatez suficiente para alijar tropas inteiras do combate, as enviando para um deserto de sentimentos, transformando homens em bestas feras.

Como é fugaz a paixão, imperdoável quando usada como uma lâmina afiada nas mãos de um profissional insensato e cruel. Deslindar os seus segredos me foi ordenado, senhora os seios fartos e olhares cálidos. Preparado tanto quanto um ser humano de pedra, com o pensamento treinado por tempos e tempos para não se atingido por nada perfumado e suave, macio e quente, concentrado apenas no objetivo a mim confiado durante os treinos nas masmorras santas da colina dos imortais, sob os umbrais dos anjos muitas vezes imaginei como seria, mas passou longe do melhor que pude fazer! Não se imagina a beleza insana de uma mulher fenomenal e selvagem, quase uma divindade.

Quase nada pude fazer, atingido pelo primeiro sussurro que era sua voz como um dardo tranquilizante, ao mesmo tempo em que fazia formigar todo o meu corpo por um desejo incapaz de conter-se!

A minha respiração se alterou e a força das minhas convicções se abalaram instantaneamente, senhora dos pensamentos impuros de todos os pecadores e santos. Como um boneco me vi sob o seu encanto, que imediatamente produziu borboletas em meu estômago. Por cem dias e cem noites vivi como presa entre os braços de uma caçadora fulminante! Amar e amar virou um mantra ordenado pelos seus desejos, que realizados quase me assassinavam de prazer! Eu, o cavaleiro melhor preparado, o mais forte e inabalável, virei um a mais de seus súditos. Em determinado momento, no meio dos seus beijos, com o seu corpo em minha posse cheguei a duvidar da razão!

Tremendo como uma criança sob a neve quase abandonei o propósito de salvaguardar o mundo como o último templo, devorado deliciosamente pela sua gula suave e falsamente gentil.

No último momento, entretanto, senhora dos enganos mortais, busquei no fundo da alma toda a determinação a qual um homem pode ter com os seus deveres, e com os dentes trincados finquei o punhal prateado em seu peito a centímetros do meu.

Não há arrependimento no homem destinado a se tornar uma lenda, senhora das paixões permanentes. Hoje, em pé sobre o seu túmulo, sei disso mais do que os que por você pereceram, vítimas do seu hediondo amor. Você foi, mas permanecerá para sempre em mim.

 

                                                                                   Marcelo Gomes Melo

 

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                Sobre peras maduras e corpos insaciáveis

 

Ofereceu os lábios como se fossem as mais puras pétalas da rosa mais macia, suculenta e doce, assim, em um gesto de desprendimento e coragem dignos da heroína de um filme de época, os imensos olhos negros, misteriosos como o conteúdo se um frasco de veneno escuro como a noite no interior de uma floresta.

Olhando daquele modo acelera os meus batimentos e desestabilizou a base da minha vida, formada por terreno sólido, paredes seguras e céu claro, sem nuvens. O calor que emanava do corpo dela encontrava o meu no meio do caminho, um metro de distância e um vulcão antes adormecido gerando força suficiente para erupções abaladoras, constantes, eternas.

No limiar da perda de consciência, quando o restante do mundo desabaria e seríamos transportados para outro mundo, o dos prazeres infindáveis, nos conhecendo intimamente, suavemente, até que a velocidade aumente gradativamente, pronta para atingir a rapidez da luz, que chega antes do som como o relâmpago antes do trovão.

As mãos antes inquietas, sem ter aonde ir além dos bolsos, nervosamente, agora buscavam os corpos sem obediência às regras sociais; se tocavam e exploravam cada milímetro, e os lábios por ela oferecidos como favos de mel e chocolate amargo foram aceitos e tomados com fúria incontida.

Não havia vozes audíveis, nem frases coerentes, apenas sussurros desconexos e gemidos desesperados, exclamações abafadas, a busca pelo encaixe perfeito através de ações desajeitadas, adolescentes.

Arrancar a roupa apressados, em meio a beijos e carícias pode ser mais complicado do que parece! Roupas femininas podem ser destruídas, foram feitas para isso; logo tomará a camisa como posse, porque as roupas masculinas são mais simples e resistentes. É a natureza confabulando em nosso favor.

O local. Uma mesa, um tapete, um sofá... Elementos criados estrategicamente para quem tem urgência! Chaves na porta, um rádio tocando alto qualquer canção da Sade, os sorrisos nervosos, os movimentos ritmados que vão se tornando concentrados... O fôlego que some e volta, os olhos que se reviram, os cabelos que se espalham, o combate que se intensifica e as marcas que permanecem como lembranças para depois...

Os pensamentos que martelam incessantemente nos horários mais indiscretos, nos fazendo sorrir como bobos, sem poder explicar a razão aos presentes atônitos...

A espera do fim do dia para mais um encontro, de início contido, na tentativa inútil de parecerem colegas insuspeitos, com os toques acidentais e os sorrisos cúmplices dando a maior bandeira aos mais distraídos do mundo!

E no final um novo começo, com aqueles lábios macios e vermelhos oferecidos sem possibilidade de recusa, e as mãos... Ah, as mãos!

 

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                                                  O anjo exterminador

 

Eu sou o único da minha espécie e o primeiro do meu Tempo. Trago como instrução única abdicar de todos os prazeres e conflitos apenas para me concentrar na tarefa vital de julgar, com letalidade impiedosa, após observar o comportamento das outras espécies.

Não cabe a mim arbitrar ou demonstrar qualquer sentimento que turve os meus julgamentos. É tudo muito simples, observar, analisar e destruir. A mínima falha será punida, não há salvação nesse ramo. Todos perecerão sob a minha arma, sem o direito a uma palavra de arrependimento ou aceitação.

A surpresa em suas faces será a última imagem que ficará em minha mente. Na deles, nada. Irão para o além sem paradas no caminho. Uns sofrerão a tortura de relembrar a própria história para sempre, em um looping interminável. Outros habitarão o limbo, sem saber a razão, o motivo da culpa que os machuca ferozmente sem descanso.

Eu sou o primeiro do meu Tempo, não carrego paixões, nem qualquer coisa além de armas. O único da minha espécie, criado para restituir a glória através do extermínio cruel e indispensável dos seres cujas falhas são intrínsecas e milenares.

Esse caminho de mão única não tem distrações, nada dos lados, destruição à frente. Conduzir os incapazes é o meu dever; o meu signo é a paz imperdoável, sou o silenciador dos bramidos vulgares que acalentam os nocivos à luz.

Cérebros queimarão e o odor liberado embalsamará os ridículos para que sejam atropelados pela parte insana que correrá a esmo tentando encontrar salvação sem alcançar êxito.

Cada um exercerá o seu papel nesse final de tempos em que a limpeza se faz necessária. A chuva ácida corroerá a tudo e em meu redor apenas escuridão.

A lenda que me tornarei para os novos durará milênios, e os fará temer tudo o que foi feito até o tempo antes deles, portanto nada será repetido por séculos, até que se esqueçam e retomem o caminho de mão única, ameaçando o equilíbrio universal.

Nessa época, então, eu, o único da minha espécie e o primeiro do meu Tempo retornarei, com mais armas, mais impiedoso, para cumprir o meu destino que é observar, analisar, julgar, punir.

O rastro de destruição, como um cometa, se afastará das galáxias até desaparecer por completo. E serei conclamado e temido de boca em boca e nos registros escritos e digitais. Eu sou o anjo exterminador.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

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           Outras belezas em um mar de fraquezas

 

Já parou para pensar que o que se considera feiura são outras belezas, do tipo não compreendido por quem está acostumado a seguir os rótulos, aceitando participar da ditadura do que pode ou não ser perfeito.

Quando criaram a moda, cuidaram em espalhar para todas as coisas, inclusive pessoas, inventando meios para convencê-las a mudar por causa do que consideram estilo, assim as marcas se tornaram famosas e sonho de consumo dos que acreditam que o status das poses materiais superam a saúde intelectual e o comportamento racional.

O ser perdeu importância e o ter conquistou enorme espaço no mundo, fazendo as ideias coletivas constrangedoras, a não ser que sejam as defendidas pelos inúmeros grupos que se vestem igual, falam igual, parasitas inúteis prontos para seguir os líderes que vendem o absurdo como algo a ser conquistado e desprezando os que não têm chance alguma de alcançar os mesmos cosméticos para parecer de forma a ser considerado belo, instituindo a ditadura do que é feito.

E as pessoas com autoestima avariada não só acreditam como se submetem, adorando a beleza da moda definida por uns idiotas ambiciosos e se atolando na lama da miséria e tristeza, incapazes de se considerarem úteis, diferentes e capazes. Apenas outras belezas, que não precisam seguir normas e regras para enfeitar esse mundo de meu Deus.

Quem, em sã consciência teria a cara de pau de acreditar que podem determinar o que é belo e o que é feio? Quem, em sã consciência confiaria tanto nessas bobagens a ponto de destruir a própria vida procurando as sombras para se esconder sem nenhuma necessidade?

As inúmeras belezas habitam todo espaço, diferente entre si, seja material ou humana. Não existe feiura física, apenas a falta de beleza da alma, o horror que habita a mente e envenena o coração. Essas armadilhas diferem pessoas, as colocam em outras prateleiras de acordo com as regras que criaram, e assim a hierarquia impede que quem se julgue fora dos moldes definidos do que é bonito se coloquem à margem sem questionamentos.

A farsa que move o mundo não importa para nada, e mesmo assim domina as ações e enriquece os abençoados com o que os outros não nasceram.

Fica cada vez mais difícil sobreviver em um mundo tão fútil com pessoas tão vazias e toscas, sem chance alguma de contribuir com a evolução humana. Vivem rastejando por coisas inválidas e através dos dias perdem o direito de serem considerados racionais.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

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                Surtos fabricados para vidas descartáveis

 

Ele estava em uma dessas enormes lojas de eletrodomésticos, roupas, tecnologia, e tudo o que se possa imaginar, parado na seção de televisões de última geração, gigantescas e eficientes, que só faltam falar. Uma delas, de 75 polegadas estava ligada a um aparelho home theater com som estrondoso, apresentando uma luta de MMA, dessas sangrentas e ultraviolentas.

Hipnotizado observa os golpes massacrantes, chutes na cabeça, joelhadas que esmigalham narizes, olhos cobertos de sangue e supercílios inchados. Pernas arroxeadas não intimidavam os gladiadores corajosos e acostumados a lutar pela sobrevivência. A bolsa, que é a quantia recebida por cada um, iria sustentar ambas as famílias por um bom tempo, enquanto tentariam se recuperar no hospital, cada vez mais emendados como Frankensteins funcionários de um esporte doloroso, mas atraente aos sádicos que deliram vendo sangue e ossos partidos em nome da honra.

A cada golpe ele associava à sua vida. Soco cruzado no queixo: ele destruíra o despertador de manhã, forçando-se a levantar para o trabalho, ambiente maldito que odiava a cada dia, escravizado pela necessidade de sobreviver.

Joelhada no abdome: recebera da esposa a notícia de que estava grávida, em breve outra boca para alimentar, mais horas extras para implorar ao chefa, mais falta de sono e preocupação com o período de cuidados da mulher até o nascimento.

Cotovelada na testa, chute na panturrilha: nervoso ao chegar no trabalho recebera antes do bom dia a notícia de que o patrão queria falar com ele urgentemente. Mais recriminações, broncas e ameaças de demissão, o que era corriqueiro, pensou, descobrindo que o café era de ontem e estava frio.

Chuva de socos e antebraço na cara: notícia de que os negócios da semana deram errado e perdera clientes. Trincava os dentes e arregalava os olhos, os músculos dos braços retesados, os cabelos da nuca eriçados.

Chave de braço, esticando a ponto de quebrar: o chefe chegara e bruscamente lhe dera bilhete azul aos gritos, desrespeitando um funcionário de muito tempo de casa que estava em má fase. Todos ficaram sabendo imediatamente, então retirara-se totalmente humilhado, com o ódio do mundo e de todos os egoístas que não se importavam com nada nem com ninguém!

A desistência de um dos lutadores com o braço partido foi uma chave que ligou nele aquela vontade impossível de superar de devolver ao mundo as maldades das quais estava sendo vítima. A loucura começou como um furacão, assustando a todos os presentes. Sacando da mochila um taco de baseball partiu furiosamente destruindo as tevês com golpes violentos, varrendo prateleiras e quebrando vitrines.

A raiva o tirou da sensatez, o único caminho era vingar-se quebrando a tudo e a todos. Os vigilantes que tentaram se aproximar foram atingidos sem piedade, cortes e pancadas desferidas aleatoriamente. A rotina de um homem pode destruí-lo a qualquer momento, ele é uma vítima de si mesmo e do entorno que têm significância em sua vida. Tudo pode piorar a ponto de não ter retorno.

Os policiais, ao chegar usaram armas de choque, derrubando-o através dos choques, fazendo-o tremer no solo como se sofresse uma crise de epilepsia.

Preso, algemado, apareceria no jornal da noite como mais um louco e ninguém jamais consideraria os motivos que o levaram ao surto. A imprensa, feliz, arrancaria o que pudesse do fato, torcendo, distorcendo e aumentando para manter o público hipnotizado em frente à tevê, horrorizados e dispostos a comprar tudo o que os patrocinadores seduzem nos intervalos, sem tempo para raciocinar. As coisas estão entrelaçadas, as vítimas, os espectadores devidamente fisgados, nem imaginam que em breve poderão se transformar em notícia para alimentar a mídia sedenta de poder e dinheiro.

 

                                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

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               Imortais refletidos no espelho do teto

 

Eu te amo enquanto os nossos corpos desfilam nus pelo quarto à meia-luz, nessa atmosfera densa que espalha expectativas no ar, nos fazendo respirar paixão através dos olhares que trocamos, com promessas que em breve serão cumpridas.

O amor que sinto por você nesse instante é capaz de mover montanhas e chacoalhar prédios com o mesmo furor, mas delicado como uma pétala de outono ao sabor do vento frio no final de tarde, transpondo dificuldades para realizar desejos instalados em corações frágeis, preparados exatamente para tal propósito.

Querer desse modo requer método. Os passos que damos ao encontro um do outro são lentos, mas, como na superfície lunar sem atmosfera, nos conduzem rapidamente aos braços pelos quais ansiamos. A liberdade tem um jeito estranho de se manifestar, atando-nos fortemente, movendo os nossos corpos em um ritmo alucinante e indescritível!

Os seus cabelos caindo em cachos sobre os olhos em câmera lenta, o brilho no rosto contrastando com o fosco dos olhos distantes do mundo real, nesse exato segundo a beleza ideal para um homem em êxtase transcende a poesia inevitável de viver!

Esse prazer recíproco acelera o meu coração e é por isso que amo você ainda mais. É preciso mostrar com ações esse amor, cada palmo do seu corpo macio explorado avidamente, sem pudores ou resistência; lençóis amarfanhados em clima tórrido, sensações à flor da pele determinando pensamentos de eternidade.

O amor reflete imortais no espelho do teto, inebria com o aroma de flores e sabores ardentes do roçar de pele com pele. Essa é a declaração incontestável, tatuada nos corpos em manchas roxas e marcas avermelhadas, suspiros de desespero no caminho à linha de chegada, batimentos incontáveis e sussurros deliciados, sem hora marcada para amainar, o instinto tomando conta, alijando a razão para realizar apenas o que queremos, além do que precisamos, surpresas que ficam para depois nos corações e nos pensamentos, para sorrir e relembrar, e querer mais e pedir, e receber e desfrutar. É assim que é amar você. E poder declarar sem necessariamente dizer, apenas realizar, possuir e desenvolver o fruto inviolável que persistirá através dos séculos e além.

Eu amo você para além das palavras, dispensando qualquer compreensão, imiscuindo por todos os poros a energia divina que clareia e enobrece, enaltecendo o sentimento e transformando-o em lenda. E lendas são imortais.

 

                                                                                        Marcelo Gomes Melo

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 Cruzar o pântano carregando as flores do conhecimento

 

Tente escapar da vala comum na qual a grande parte das mulheres desse mundo se esconde, dê uma chance aos seus desejos mais furiosos, guardados no fundo da sua mente confusa. É a hora para o grito primal libertar o seu corpo das correntes morais impostas por uma sociedade pobre de espírito, permitindo que a sua alma flutue entre o vulcão e as cinzas, intocada pela lava destruidora.

Talvez seja a hora de submeter-se aos pecados plurais que lhe cutucam diariamente há anos sem resposta, rechaçados pela força imortal intrínseca ao ser humano que é hoje em dia. Reflita a respeito do que lhe incomoda realmente, descubra se é a opinião alheia ou o medo de espantar os fantasmas afastando as teias de aranha, infiltrando-se em um novo nível, corrompendo os seus princípios antiquados e aceitando a adrenalina que faz o seu sangue correr, o perigo da iminente descoberta lhe tirar o fôlego... Ansiar por isso mais vezes, reconhecer-se como a vencedora do concurso de sonhos realizados!

A partir de hoje sinta mais, não se abstenha de nada, experimente tudo com um olhar de curiosidade e a mente aberta, uma sombra de sorriso no rosto como uma Monalisa depravada, aprendendo e aperfeiçoando tudo o que está destinada a desfrutar, graças ao meu convite bem-intencionado. Inesperado, eu sei, mas, o melhor que já lhe aconteceu em todo esse tempo, musa das inspirações contidas em um pequeno frasco de perfume.

Venha comigo, mulher preciosa, acredite no que eu digo e no que lhe direi, mais tarde. Um mar de sabores percorrerá seus lábios, relâmpagos de prazer sacudirão o seu corpo e trovões assinarão com os seus gritos a tempestade de amor e a crença de que tudo a partir dali irá melhorar. Você será o algodão doce mais puro produzido para o paladar dos anjos, que cantarão enlevados em um coro perfeito que lhe conduzirá à luz eterna.

Os seus medos ficarão para trás, querida, contanto que prefira abandoná-los! As suas dúvidas se dissiparão em nuvens, caindo em seguida como chuva que emprenharão a terra, e ela, molhada, úmida, estará preparada para prover alimento ao mundo com fartura para sempre.

A mim restará arar, e plantar. Prometo que sou habilitado a fazer isso com doçura e profissionalismo, é o meu dom ancestral. Aceite o convite, me acompanhe esta noite, vamos, irmã, orar por todos os dias de conluio macabro pela falta de religião em você! Eu serei o seu pastor, o padre leal que lhe preparará a hóstia sagrada. O vinho será por sua conta.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

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                                                 Antes que percebam

 

À revelia dos meus erros insisto em cometer o máximo de acertos que posso, para adquirir um tíquete em direção ao paraíso. E entendo as dificuldades envolvidas nessa jornada porque o mundo é gélido e o sol se distancia cada vez mais de mim, visivelmente.

Não há o que lamentar. Uma respiração profunda seguida de várias outras estabilizadas, ajuda a encontrar o centro das emoções; pelo menos é o que dizem os treinadores emocionais que recebem para determinar o nível de estresse das pessoas e calcular a potência de suas auras em consonância com o universo.

Toda a tristeza e as decepções acumuladas um dia precisarão escapar da represa na qual se encontram, é irreversível e irremediável. Pensar em qualquer tipo de fuga é tolice e covardia, não existe escapatória. Os que morrem antes retornam para assombrar os vivos, que se recusam a reconhecer a verdade e passam a vida atormentados, inebriados ou ambos.

As caminhadas prometem coisas semelhantes a auto reconhecimento, sem autopiedade e luz calmante no final. Só esquecem de avisar de que há desvios, pedras no caminho. Ainda bem que o poeta não esqueceu. Mesmo assim seria mais fácil encarar aquelas filosofias de filmes de kung fu, com paisagens, maravilhosas e enigmas para decifrar. O cinismo em mim é maior do que eu imaginava!

Não quero ser aquele que vai revelar a realidade ao mundo, muito menos outro com ideias radicais pré-concebidas, bradando um cajado de lágrimas e lamúrias contra os que discordam do que digo. Prefiro a paz que prometem aos domingos de manhã, mesmo que eu ainda esteja dormindo e não esteja apto a alcança-la. Seria essa uma dádiva ou punição?

É muita divagação para um só momento, é preciso muito mais esforço e ação para fazer valer a pena, portanto, é melhor seguir o passeio em silêncio, antes que notem que estou conversando comigo mesmo. Em voz alta.

 

                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

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       A ingenuidade como força motriz da existência

 

Chega um momento na vida em que se percebe o quão ingênuos se tem sido, durante todo o tempo. Em relação a todas as coisas! Ingenuidade a respeito das pessoas com as quais se convive, sobre os sonhos, sobre a sociedade em que se vive...

E essa ingenuidade gera um monte de clichês a respeito da vida perfeita, do trabalho perfeito, do status necessário, do amor que se deve ter e como deve ser! E todo mundo se esconde atrás desses ritos tolos, tornando suportável o fato de existir. As tristezas, quando se equilibram com a felicidade causam a sensação de bem-estar ideal, porque a balança mental permite olhar o horizonte e encontrar um ponto de apoio, um farol para guiar os tormentos e os prazeres.

Nesse instante um clique faz perceber a utilidade de ser ingênuo e procurar acreditar nas coisas que sequer sem admitir contestação, nem de si mesmo. A bendita ingenuidade com a qual se é brindado desde o nascimento e nos protege da realidade crua, por isso as inúmeras teorias da conspiração, aliens, fanatismo político, religioso, agnóstico, não importa, qualquer uma!

A matrix que incentiva inúmeros grupos a viver com alguma coisa em comum, que estimule a continuar pelo tempo necessário a ser útil para alguma coisa ou para alguém. Depois disso, terminada a importância, a morte é o prêmio final, talvez o mais desejado. As alternativas são todas piores: insignificância, inutilidade física, incapacidade intelectual.

A ignorância é uma mãe bondosa e gentil que impede que a imensa maioria deixe a escuridão durante todo o seu período de permanência no planeta, sobre a Terra e não embaixo dela. À medida em que se vai sendo amaldiçoado com algum conhecimento a alegria some, a amargura toma conta e o sentido de viver desaparece rapidamente.

Pessoas amargas sobrevivem, o propósito varia entre se achar dominante, calculista e cruel, e se achar dominado, injustiçado, usando como desculpa para o masoquismo que os move inexoravelmente; os alimenta como idosos no parque dando migalhas aos pardais.

A ameaça de conhecer as coisas como são é maior do que se pode acreditar, é a razão para seitas ou grupos estranhos de adoradores de qualquer coisa proliferarem livremente disseminando confusão e destruição. Isso é necessário para que o curso se mantenha durante alguns séculos antes de serem rompidos irreparavelmente através de uma sucessão de tragédias monstruosas que eliminarão grande parte da população para que recomecem do zero, com novas regras, novos ambientes e novas necessidades. Quem sabe o segredo do universo seja esse? Aliás, seja o segredo menos necessário de ser descoberto. Para que as coisas não se quebrem e a razão de existir jamais se renove.

A iluminação seria apenas livramento. Só isso, nada mais.

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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                                     Sombras de um futuro nefasto

 

O ano é 2078, os seres híbridos povoam a Terra, 80% máquinas, ou outras espécies orgânicas, 20% humanos. Os seres humanos puros restantes são absoluta minoria, velhos e incapazes de pensar. Não fazem parte da lista de seres vivos de primeira classe. Não estão mais o topo da cadeia alimentar e não mais se reproduzem, o que significa que logo estarão extintos e não são considerados um risco à unidade social, que é como são denominados os antros de convivência, monitorado por robôs. As máquinas estão no comando e implementaram uma guerra sangrenta e impiedosa contra os humanos, a quem consideram uma praga capaz de devastar o planeta.

Eles são uma raça maldita, abaixo dos gafanhotos e ratos, e tão duráveis quanto as baratas, resistentes a qualquer situação, adaptando-se rapidamente e implementando protocolos nocivos a qualquer outro tipo de vida. Incivilizados.

Essa foi a razão pela qual, ao vencerem a batalha pelo controle, as máquinas se asseguraram de que os humanos restantes terminariam exterminados naturalmente, através de assepsia total, e os tornaram inférteis no processo. Pelo bem dos antros, e para demonstrar algum tipo de piedade, emoção a qual não entendiam, mas que fazia parte dos seus registros programados nos primórdios pelos seus imperfeitos criadores, os permitiam esgueirar-se como roedores pelas esquinas escuras, desde que não ameaçassem à vida de nenhum outro animal ou máquina.

A configuração do planeta é completamente diferente agora. Visto do espaço a cor é cinza por causa da maioria de artefatos metálicos sólidos e gigantescos na superfície, ausência de verde, pois não existem florestas, e de azul, porque os mares infectados são da cor de petróleo, com uma consistência parecida.

As nuvens são negras e o céu grafite, cortado por raios frequentes. A chuva foi substituída por som de estática, como as antigas televisões fora do ar, com um barulho agonizante. As leis são simples e diretas, não há negociatas, as coisas são como são para todos, independente de sua espécie. As espécies diferentes devem respeitar as diferenças sem questionamento; qualquer deslize implica em eliminação direta.

Não é permitido ter humanos de estimação, nem os alimentar diretamente. Eles podem viver desde que consigam encontrar uma forma sem ofender aos outros. Como não são mais capazes de raciocinar, instinto é tudo o que lhes restou. Não sabem ler, escrever e nem falar mais, portanto se comunicam através de sinais, que estão esquecendo rapidamente e logo não conseguirão interagir sequer entre eles mesmos.

Um triste fim garantido pelos delírios de grandeza da época em que criavam outros seres arrogantemente, e massacravam o ambiente com uma crueldade tão abjeta que logo se voltaria contra eles. Todos os seus escritos e feitos, denominados cultura foram destruídos pelas máquinas como conteúdo ofensivo a quem quer que seja. Em breve não restará um traço de que um dia existiram sobre a Terra e se julgaram deuses. Puseram fim em sua raça porque eram indignos desde o começo. Não Há volta.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

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            Modificando a matriz da existência humana

 

O entendimento se dá através das sensações imediatas, as que alcançam o coração e o cérebro, portanto, em princípio as palavras podem ser ignoradas em troca das expressões, dos olhares, dos gestos, da comunicação não verbal.

Tenha em mente que os sons que te emocionam não são apenas os que veem acompanhados de versos em seu idioma. Mesmo que venham, pode ser que sejam metáforas ou hipérboles e condicionará o seu entendimento à sua sensibilidade, não sendo, portanto, o mesmo para todos os que tomam contato.

A música, por exemplo, emociona através de um conjunto de atitudes, e entre eles não está o entendimento tácito através do que é dito; vai acontecer mesmo que não entenda uma palavra do que foi dito, mas está conectado às emoções ali expostas por um condutor hábil que lhe tocará através do timbre, do domínio do tablado com movimentos concisos e puros, e transmita através do corpo o que a alma necessita naquele exato momento.

Então, durante aquele espaço no tempo, viverás uma tristeza profunda, uma alegria incomensurável, uma ternura comovente, uma fúria lasciva, um desejo incontrolável...

As emoções conectam as pessoas e deixam em segundo plano o entendimento comum, determinado pela decodificação do código criado para que as coisas existentes sejam comumente rotuladas para que uma linguagem em comum possibilite um anúncio social através desse conjunto de regras.

A raiz do que realmente aproxima as pessoas de diferentes culturas, conhecimentos distintos e rotinas ímpares, chamado atualmente globalização, nada mais é do que a necessidade gutural de aproximarem os pensamentos através das emoções puras, como as artes, poesias, pintura, música, dança...

O mundo avança rapidamente com suas facilidades tecnológicas sacrificando o ambiente natural em nome da evolução, mas apesar de tudo isso são as reações primárias que realmente unem as pessoas, geralmente criadas pelo artificial que toma conta do que é orgânico, envenenando e modificando a matriz da existência humana.

Há como resistir ou presenciamos de camarote a transição de seres humanos para seres mecânicos inanimados que prometem felicidade destroçando o que temos de singular: as emoções verdadeiras e inerentes desde a concepção do ser vivente.

 

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

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                         Receita para formação de psicopatas

 

O tormento é da cor dos meus olhos, o desespero corre pelo corpo como o sangue, cultivando um novo ser disposto a tudo nessa selva tecnológica em que escravos se julgam senhores por não precisarem usar o cérebro, escreverem e lerem o que desejam, eternizar a própria história através do aprendizado herético ou santificado, dependendo do modo de vida.

O horror habita a retina, as mãos em forma de garras, calosas, duras como pedras demonstram resquícios de trabalho duro, pesado, ou reações violentas em bares de beira de estrada após desentendimentos causados por excesso de álcool e jogos ilegais.

O corpo é gelado, com veias azuis correndo onde deveria haver sangue, e as reações são lentas, quase displicentes; há um atraso de alguns segundos para o entendimento do que foi dito, um computador processando com atraso por excesso de aplicativos e lixo digital.

Um ser estranho há alguns anos, mas hoje em dia considerado comum, porque as pessoas agem de forma esquisita, o ego à flor da pele não lhes permite prestigiar nada além de a si mesmos, causando uma brecha enorme para que psicopatas, sociopatas e cientistas sadomasoquistas atuem livremente, misturando-se àquela turba de modernos que lutam pelos quinze minutos de fama.

A maldade caminha entre os povos, radicalizando principalmente os que julgam como se fossem blindados, incapazes de cometer qualquer erro, portanto superiores. Esses acendem o pavio com as bombas que incendiarão a cidade, e ninguém, no meio do caos, terá segurança de apontar um culpado.

É no meio dessa bagunça que um homem se transforma em monstro, e o monstro em um caçador de desvalorizados que serão transformados em cadáveres. E o círculo vicioso se reinicia, com mais acusações, mais culpados, mais vítimas, mais tormento e mais desespero. Nova receita para criminosos em potencial.

 

                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

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                                               Jamais falarei de amor!

 

Eu nunca disse a ela que a amo. Nem nos melhores momentos. Jamais lhe falei a razão do meu sorriso mais quente, nem por que raios atendia às suas insinuações mesmo parecendo o contrário. De maneira alguma parava de mexer com ela, incomodá-la, deixa-la brava com as minhas piadas irônicas e cínicas.

Com toda certeza ela não faz a mínima ideia do porquê lhe compro chocolates e a levo comigo para ver os filmes que eu gosto, e comemos pipoca e sorrimos e nos beijamos.

Ela não imagina o motivo pelo qual eu passo as tardes de chuva em seu quarto, reclamando da vista só para fechar as cortinas e, à meia luz provoca-la e despir suas roupas, seus desejos, sua alma. Posso afirmar que ela se deixa seduzir e mergulha comigo em viagens que não incluem a mais ninguém, nesse mundo ou em qualquer outro. Ela não sabe que há um mundo só nosso porque eu nunca contei.

Quando me abraça e encosta em meu peito, ela pode pensar que é carinho barato. Eu nunca contei sobre as sombras que ela afasta imediatamente, e a força que incute em meus movimentos.

Como ela nunca me pergunta sobre nada disso, e sorri lindamente mantendo o nosso caso de amor na superfície. Amor do meu lado, se ela soubesse... Mas sou de ferro, forjado no fogo lendário das montanhas furtivas, invisíveis, mas inegáveis.

Não vou contar que a amo. Ela não saberá por meus lábios selados. E não se importa com essas coisas de contos de fada que acontecem apenas a crianças, que vivem paixões alucinantes a cada semana, a cada dia, a cada hora. Essa mulher não é assim. Ela prefere morar no meu abraço sem saber dos meus segredos, e nunca me contraria os dela.

Eu sei que consigo aplacar o seu desejo e diminuir-lhe as aflições, que os meus toques a deixam sensível como uma flor de inverno, e isso é tudo o que ela permite mostrar. Não conto que a amo nem sob tortura. Por mim jamais saberá. De mim jamais saberá.

E não digo porque sei que a ela não interessa. Preciso conviver com esse fato como se fosse um culto, tornar a sua existência um jardim perfumado longe de qualquer problema que um amor como o meu lhe possa causar.

Quando respiro fundo e acalento o seu sono eu só quero eternizar o momento, e fico quieto como um samurai, imóvel, com todos os pensamentos direcionados apenas para ela, enquanto houver som, enquanto houver luz... Ela é a paz que eu preciso. Por que destruir o que sinto apenas lhe falando de amor?

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

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        Tempos difíceis para o amor como o conhecíamos

 

Ele a observou por algum tempo sentada naquele barzinho animado tomando cerveja com os amigos. Era linda e de expressão firme, determinada em suas ações defendendo o seu ponto de vista com vitalidade e segurança. Discutia, bebia e fazia piadas despudoradas, e ainda assim mantinha o respeito merecido por parte de todos.

Trocaram uns olhares durante a noite, e a ele pareceu vislumbrar algum interesse por parte dela, no mínimo alguma curiosidade. Como estava atraído, achou legítimo tentar a chance, assim que percebeu que ela não tinha nenhum parceiro naquele grupo.

Em determinado momento da noite enviou um torpedo através do garçom e ofereceu um drinque daqueles bonitos e enfeitados que significavam quase um convite para o sexo de fim de balada.

Ela leu o torpedo, aceitou a bebida erguendo a mão em um brinde, sorvendo de um só gole na sequência. O olhar dela era irônico e não romântico, mas não pensou muito nisso, já que estava se dando bem.

Com um gesto ofereceu a cadeira vazia ao lado da sua naquela mesinha solitária. Lembrou-se de sorrir no processo e mostrar uma expressão que julgava sedutora. Os segundos que se seguiram pareceram horas, até que ela se ergueu, pediu licença aos amigos e caminhou sensualmente até a mesa dele.

Um caminhar sexy e assustador se aproximava de um homem com o coração batendo fortemente, levantou-se e galantemente puxou a cadeira para acomodá-la. Apresentou-se e ofereceu outro drinque, ao qual ela aceitou prontamente, analisando-o com um olhar firme a ponto de desconcerta-lo.

A conversa girou em torno de amenidades até que ele ousou roçar as mãos casualmente. Ela não recusou. Em plena madrugada ofereceu-se para leva-la para casa e foi aceito. O desfecho deveria ser o esperado e ele estava confiante, quando, no estacionamento pouco iluminado empurrou-a gentilmente para um canto e tentou bancar o macho alfa roubando um beijo logo de cara. Tocaram os lábios e ele tentou pressionar o corpo contra o dela, mas a surpresa o atingiu de frente quando ela assumiu as ações.

Uma forte joelhada na virilha o fez se dobrar, surpreso e sem fôlego, segurando os genitais com ambas as mãos. O rosto ficou exposto para a cotovelada que abriu uma sobrancelha e depois a outra; um soco violento quebrou o nariz e novas cotoveladas abriram cortes no couro cabeludo. Tonto, confuso, tombou no cimento em posição fetal, uma mão protegendo a cabeça, a outra os “países baixos”. O ataque continuou. Ela chutou-lhe as costelas e pisou em seu rosto violentamente, com um golpe esticou o braço dele e quebrou-o à altura do cotovelo.

A nuvem de sangue o impedia de enxergar e as dores o impediam de se defender ou correr. Até o momento fora um cavalheiro, gentil, educado, respeitoso... Mesmo assim estava sendo punido por uma psicopata travestida de anjo sem aparente motivo, pensava, apavorado, se vitimizando. Chutes na cara partiram-lhe os dentes, socos nas orelhas causaram um som de estática permanente.

Namorar agora era uma atividade assim perigosa? Ficara há tanto tempo fora do circuito que esquecera as regras de aproximação na balada expressando atração sexual adulta e segura? Balbuciou como dava, indagando a razão da surra sem piedade que ela lhe aplicava e ouviu a verdade, o mantra dos tempos atuais: “quem ele pensava que era, um macho opressor tentando dominá-la arrogantemente, pagando bebidas e rosas, sendo gentil e antiquado sem respeitar o direito de liberdade dela?

Ficou ainda mais aturdido, ali no chão encolhido, magoado, destruído como homem. Antes de afastar-se ela ainda cuspiu nele e recomendou que parasse de tentar ser homem e agir como um brucutu de Eras neandertais.

Os tempos eram outros, homens como ele estavam em extinção, eram minoria e não tinham voz na nova sociedade andrógina, dominada por mulheres que odiavam homens e logo, logo, criariam uma lei para exterminá-los de uma vez.

Era o declínio do amor heterossexual apresentado de maneira crua e cruel. Ele era mais uma baixa que possivelmente carregaria o trauma pelo resto da vida.

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

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                                                            O rebotalho

 

Bêbado, sujo, fedendo a porco podre com os cabelos ensebados endurecidos por falta de banho, cheio de migalhas de pão e mato seco do travesseiro de grama do parque onde dormia, restos de roupas esgarçadas, bafo de peixe cru e cachaça de péssima qualidade, ele caminha desligado da correria da cidade grande, olhos secos e avermelhados. As multidões se abrem, enojadas, e ele passa arrastando os pés em chinelos carcomidos, a maior mostra da derrota humana através dos séculos.

Os invisíveis são muitos, e a decadência que representam não se resume a eles próprios, mas principalmente à derrota das leis de convivência criadas para sustentar uma sociedade que hoje é corrompida em quase noventa por cento, sem possibilidade de volta a um caminho de honra e ética.

O rebotalho não é invisível ainda. Lá está como um cancro nojento expondo a falta de caráter dos dirigentes, cuja qualidade inexiste totalmente, e assumem o destino de toda uma população através de promessas mentirosas e ações comandadas por psicopatas, malucos se estapeando por ideologias imbecis, prejudicando apenas à maioria enquanto são transformados lentamente, e cada vez mais em rebotalhos, os mesmos por quem nutriam desprezo, raiva, vontade de torna-los invisíveis.

O passo seguinte é a eliminação surda, o sumiço peremptório do meio dos vivos para habitar a vivenda dos mortos sem que ninguém perceba por fingimento em próprio proveito. Não se permitem pensar que aquele novo rebotalho era um deles há pouco tempo e foi perdendo tudo até chegar àquele estado.

Já dizia Bento Carneiro, o “vampiro brasileiro”, personagem do genial Chico Anísio, que veio do “aquém do além adonde que vivem os mortos”, e agora há um espaço real aonde rebotalhos são lentamente desorientados e transformados até que encontrem a morte.

A sociedade moderna varre esse lixo para debaixo do tapete da vida, e o mundo segue se deteriorando a olhos vistos até que os corruptos destruam uns aos outros, cantando o hino à ganância e se dissolvendo como a pior amostra de letalidade viral no universo, desaparecendo sem deixar saudades nos porões do sem fim.

 

                                                                                     Marcelo Gomes Melo

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                                                 Eu quero comer jabá!

 

As vísceras do porco espalhadas dentro de um recipiente de alumínio, ainda quentes, sendo manuseadas com destreza pelo profissional intermediário entre a matança do animal e a mesa dos comensais.

Na outra bancada tripas de todos os tipos esperando para receber um corte adequado e uma limpeza razoável antes de serem fritas e servidas como iguaria monumental, acompanhadas de cachaça mineira.

Bofes, buchadas sendo costuradas com primor para a degustação geral com acompanhamento de pimenta malagueta selvagem apurada em mel de abelha africana e wasabi.

Testículos de carneiro castrado vivo misturados a ovos de avestruz mexidos com mostarda e ketchup. Lesmas amarradas pelas antenas e cozidas com saúvas vorazes da Etiópia para os conhecedores da arte de se alimentar de forma exótica.

Fugu preparado por top chefs cegos, surdos e mudos, sofrendo de Alzheimer e incluídos social e profissionalmente, ainda no início da patologia, triplicando o perigo e a emoção dos corajosos que devorarão o tenebroso peixe cujo veneno pode matar em pouquíssimo tempo...

- Estrôncio, larga essas vísceras e vamos almoçar. Não, não precisa lavar as mãos, é rápido. Depois a gente contínua.

- Vai comer o quê?

- Pão com mortadela e refrigerante. E você?

- Eu quero é comer jabá!

 

 

                                                                                         Marcelo Gomes Melo

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                                                       Sede de sangue

 

É sentimento de culpa quando se tenta agir de forma a amenizar o suposto erro sem pedir desculpas diretamente. Quando o argumento visa atenuar as supostas falhas e não a tentativa de reconhecer e recompensar o mal feito contra a vítima.

Agir dessa maneira demonstra muito mais o egoísmo do que o reconhecimento do erro, afirmando sutilmente que a culpa é maior de quem foi enganado do que a do algoz, que cometeu a maldade praticamente porque a vítima pediu por isso.

Enganosamente esse comportamento não aliviará o sentimento de culpa, ele continuará lá, adormecido, como um vulcão pronto para despertar assim que for provocado, causando ainda mais destruição física e mental para todos.

O culpado busca basicamente absolver a si mesmo, embora saiba da reprovação de todos, e isso causa agressividade. Tratar a si mesmo como vítima do mundo é o próximo passo, e vais e intensificando até que o polo se inverta e de malvado, se torne (na sua própria visão) em quase um santo de botinas.

Há esse tipo de gente aos borbotões nesse mundo de meu Deus, incapazes de encarar as próprias falhas e covardes o suficiente para tentar perdoar a elas mesmas cinicamente, chegando a contar a história completamente distante da verdade. O sentimento de culpa permanece.

Pessoas com extrema dificuldade em amar a si mesmas, que parecem tentar se punir com ações que acabam magoando aos outros mais do que a elas, e vivem sedentas por vícios e atitudes não recomendáveis, sem jamais saciar-se.

É assim que a vida toca, e se toca a vida. Uns vivem para magoar, outros são eternos magoados. Uns magoam para se punir, outros são punidos e aceitam, cordeiros que são, abatidos diariamente pelos que têm uma inacabável sede de sangue.

 

                                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                              De filé e de humilhação...

 

Eu agarrei a chance pelas pernas literalmente, porque não sou homem de limitar os riscos, enlouqueço no café da manhã e acelero até a madrugada, não parando nem para cochilar. Sendo esse protótipo de insanos personagens de filmes de ação, fiz o que esperava de mim mesmo e caí ajoelhado na sala cheia de candidatos, de paletó e gravata, abraçando-a pelas coxas, encostando a cabeça naquela saia de tecido macio, balbuciando impropérios ininteligíveis e implorando, às lágrimas, ser um dos escolhidos.

A recrutadora, surpresa, toda séria e profissional não sabia o que fazer; ficou aturdida, pálida e constrangida. O mesmo para a maioria dos concorrentes ali, chocados. Outros sorriram nervosamente e a responsável tocou minha cabeça levemente, tentando me acalmar e afastar. A expressão no rosto dela era de nojo pela suposta indignidade a qual eu estava me submetendo e ao mesmo tempo aos presentes.

O que eles não imaginavam é que eu tinha tudo calculado, o meu cérebro trabalhava a mil e as lágrimas escorriam na quantidade certa para não estragar aquela saia caríssima. Chegou um momento em que eu não pedia mais nada, apenas coaxava como um sapo, “por favor, por favor...”.

Dois companheiros da moça, funcionários da empresa, aproximaram-se e me afastaram dela. Eu já estava preparado, não ofereci resistência, me estendi no chão frio, braços esticados em posicionamento de adoração, beijando os ladrilhos, deixando claro a necessidade que me acometia pela vaga.

A recrutadora retirou-se após algumas palavras nervosas de agradecimento, pedindo que aguardássemos contato confirmando ou não a vaga.

Um a um os concorrentes foram se retirando. Alguns me ignorando, outros mais sensíveis me tocavam dizendo boa sorte, demonstrando o bom coração embora a minha conquista significasse a perda de um deles.

Os que me ridicularizaram argumentariam que se tratava de apelo emocional para ganhar a vaga e a simpatia e não por qualificação. Quando fiquei sozinho na sala levantei ajeitando a roupa e secando as lágrimas com uma expressão entre cínica e enigmática. A vaga seria minha.

Eu conheço a psicologia das massas, as emoções, principalmente as humilhantes, e sei que a tendência hipócrita dos latinos é abrir mão das coisas as quais merecem por causa de algum charlatão que abandone a própria honra por um bom show de mentiras desonestas e sensacionalistas. Acreditem, eu já fui político, enganei facilmente os meus eleitores e fui rejeitado para um próximo mandato.

Por enquanto vou vender enciclopédias, fazer contatos, esperar que esqueçam, então retornarei por cima com eleitores suficientes para me recolocar na bancada do filé.

 

                                                                                                    Marcelo Gomes Melo

 

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                               Papo de motel. O que não se espera.

 

- E agora?

- O que quer fazer?

- O que faremos?

- Mais sexo? – sorriso triste.

- Eu não esperava que fosse assim. – sorriso igualmente triste.

- Assim como?! – olhar de curiosidade.

- Bom!

- Eu jamais duvidei! – sorriso irônico – Então resolveu arriscar? Veio por curiosidade?

- Não! – enfática – Eu quis dizer que não esperava que fosse tão bom!

- Não confiava na nossa conexão? – tom de surpresa sutil

- Eu não sabia em que confiar! – explicação suave – A vontade venceu a hesitação! Nunca achei que algo passageiro pudesse alcançar tanta intensidade.

- Passageiro? – confusão no olhar.

- Não era assim que pensávamos desde o começo? – surpresa.

- Era?!

- Não sei, me diga! Não tenho esse tipo de experiência.

- E eu tenho? Nunca me envolvi em casos de uma noite, se é o que pensa.

- É difícil de acreditar! – sorri sem maldade – Você parece saber como agir, digo, muito educado, inteligente, carinhoso e sexy.

- Isso é um currículo digital de garoto de programa? Coroa de programa. – Sorriso tenso, incomodado.

- Não, desculpe, estou me sentindo uma adolescente a essa altura da vida! Pareço patética com essa dificuldade em me expressar?

- Hum... Acha estranho querermos mais?

- É como se fôssemos vítimas de uma peça muito bem arquitetada.

- E daí? Só nos resta deixar fluir, não acha?

- Muitos obstáculos surgirão de agora em diante.

- Sim. Não há o que fazer se foge ao nosso controle. Passo a passo, driblando dificuldades...

- Controlando o incontrolável?

- Quem se apaixona assim, em um encontro desses?

- Posso citar uma ou duas pessoas – sorriem e se abraçam, forte.

- Como iremos viver agora, longe um do outro?

- O novo mundo começa agora. As reações emocionais provavelmente irão nos açoitar...

- E como iremos superar?

- Por enquanto venha cá... Vamos descobrir isso bem de perto. Muito perto. Dentro...

 

                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

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                                                  Tempos de loucura

 

Helicópteros sobrevoam a casa no meio da noite, holofotes iluminam cada compartimento como se fosse dia. Eu sou forçado a colocar um par de óculos escuros, e de pijamas desço a escada em direção ao patamar inferior. Passando pela sala cubro os ouvidos com potentes fones protetores que pouco adiantam, pois os alto-falantes deles são superpoderosos, e as vozes esganiçadas e altas destroem facilmente qualquer sistema auricular.

O tom das vozes parece cordial, mas são mordazes, ferem a audição mesmo com as palavras cobertas com mel. É impossível escapar! Na cozinha esquento leite, tento pensar em outras coisas, acalmar os nervos destroçados.

Mais uma noite sem dormir. Ouso espiar pela janela. Drones carregam banners com mensagens escritas em neon: “é inútil resistir!”; “entregue-se e cuidaremos de você!”; “vale a pena fazer parte desse time!”. Eu sei que não vai parar e assim que amanhecer ficará ainda pior, através do rádio, telefones, televisão e aparelhos celulares.

Passa por minha cabeça atormentada a opção de pegar a calibre doze no sótão e disparar a caixa de munição que eu guardo há anos, mas sei que de nada adiantará e serei preso imediatamente. Hoje as leis são distorcidas para favorecer a quem ataca, não a quem é atacado.

Sentado em uma cadeira procuro me concentrar no aquário, observar os peixes pode me tranquilizar... Engano dos enganos! Os infelizes inventaram um microchip que invade a casa de forma invisível e instala-se dentro do aquário; ao notar qualquer presença humana transformam-se em um tubarão em 4D e emergem de surpresa, quase matando de susto com a mensagem explodindo na sua cara!

Tempos de loucura, esses em que vivemos! Bombardeados por todo o tipo de comerciais, querendo ou não, dentro do nosso lar, obrigados a decidir se aceitar as ofertas nos darão um pouco de paz, ou ficará ainda pior, com convites para que continuemos atrelados aos seus contratos, assombrados por suas cláusulas. Não somos mais pessoas, somos con-su-mi-do-res! Clientes, cobaias, objetos de estudo!

Resistir não é opção. A guerra só vai piorar até que esgotemos todos os recursos e nada mais reste além de sons automáticos de venda até que a bateria acabe!

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                             Rompendo com a crueza do destino

 

Atire as cartas sobre a mesa e vamos conversar em outros termos, já que a mudez chique que envolve a nossa rotina vem mais de mim do que de você, que dá a entender que um bom barraco de vez em quando desentope as coronárias e limpa os olhos de uma vez, vertendo lágrimas salgadas e oxigenando o cérebro.

É fato que sempre um dos dois morde os lábios e engole o veneno que mata lentamente, enquanto o outro expele verborragicamente, tilintando copos e lustres, mas mantém a sanidade depois de incomodar vizinhos e presentes, constrangendo sem nenhum pudor e esquecendo tal e qual alegam os bêbados no dia seguinte a um vexame catastrófico.

Por isso vamos à luta, cara a cara, atrás de um muro formado por duas xícaras de café, fingindo ser civilizados ao mesmo tempo em que os olhos lançam relâmpagos e a boca trovões, sob uma nuvem negra que insiste permanecer apenas no local em que estamos, chovendo frio, promovendo calafrios e mal-estar.

Se é verdade que o embate vigoroso no confronto de ideias liberta e salva qualquer relacionamento, a equação deve ter sido manipulada de alguma forma, pois sempre um dos  dois cederá, ficando com aquele gosto amargo na boca e a péssima sensação de fraqueza por ter aberto mão de princípios em nome da boa convivência, perdendo espaços e interiorizando cada vez mais os próprios pensamentos.

O vencedor, por sua vez, não percebe que venceu na marra e continua a avançar exigindo mais e mais, até provocar uma explosão sem volta que magoará a ambos e deixará cicatrizes visíveis. Mesmo assim insistirá que não venceu os embates e não corrompeu toda a lógica da igualdade de espaços conforme o caráter e o perfil de cada um.

É realmente difícil continuar com essa lenda de amor perfeito e entendimento completo, quando a impossibilidade é gritante, portanto, corrobora a existência dos contos de fada, de amores eternos e convivência pacífica, igualitária e magnífica. Isso só acontece no cemitério, com os dois lado a lado cobertos de flores e sem mais nada a dizer.

Se tudo evolui, os sentimentos mudam e é impossível manter a mesma visão do mundo por muito tempo. Os fortes aceitam as falhas, contabilizam as dores e seguem em frente como podem, admirados pelos ingênuos, ironicamente sorrindo dos elogios recebidos por uma longevidade que nada tem a ver com comunhão de pensamentos, mas de romper com a crueza do destino custe o que custar. E o conseguem.

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

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O apocalipse em curso (batendo palmas para louco dançar)

 

O mais assustador nesses tempos é a tristeza e desencanto por parte dos jovens, desvalorizados por suas próprias atitudes, enganando em grupo aos próprios pensamentos, enfraquecendo a alma sem poder acusar os mais velhos por seus deslizes, porque rejeitaram a receita, tentaram criar a ditadura da juventude e sequer levaram em consideração que sabe menos quem vive menos, e a experiência é o melhor dos remédios, com o amargor correto, mas percentagem superior de cura.

A dor exposta é a inocência exterminada, embora a ingenuidade salte aos olhos e as respostas não têm valor porque as questões são rasas, a necessidade é urgente e destrói o fruto, comido verde, sem sabor, sem paciência.

O que acontecerá quando envelhecerem o suficiente, caso o consigam, sem as respostas, sem as perguntas, adoecidos e assombrados pelas convicções vazias que governaram os dias de glória?

Tudo muda. Mesmo o que é ruim muda, para pior, e cria ainda mais decepção porque não há fundo no poço. Largar a juventude sem propósito, desaprendendo coisas, esquecendo de como continuar humano, subvertendo a lógica absurdamente, sustentando furiosamente, culpando aos outros sem ter certeza de quem exatamente são.

A tristeza é a palavra de ordem, espalhando-se cada vez mais cedo, tornando o homem a cobaia do homem. Sem sentimentos, sem ressentimentos, seres monótonos e inviáveis defendendo teorias de autodestruição. Os mortos-vivos da vez, pululando as cidades e as lanchonetes de fast food, escravos de suas máquinas, incapazes de se comunicar, cada vez mais voltados para o interior, descobrindo o quanto são insignificantes, nocivos e letais.

O medo que sobrevoa os terrenos como drones, infiltrando-se nos cérebros, expondo vidas jovens arrebentadas, imagens putrificadas de um futuro próximo, executando velhos envenenados e embasbacados pela incapacidade latente de quem deveria representar a continuidade da raça, a evolução garantida, mas demonstram ser a assinatura final no livro de óbitos da existência humana como a conhecemos.

O verdadeiro apocalipse em curso, enquanto os sensatos batem palmas para louco dançar?

 

                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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                             Sobre tempos antigos e senso moral

 

Entre os pés de eucalipto nos encontrávamos naquelas tardes de sol, trocando sorrisos e brincadeiras adolescentes de uma época um tanto mais inocente. Havia beijos, claro, e as mãos se exploravam mutuamente, interrompendo quando o calor aumentava a ponto de perdermos o fôlego. Então, de mãos dadas tomar uma Coca-Cola sentados no banco da praça do colégio, em frente às quadras de esportes.

Ali os amigos se aproximavam e as conversas se alternavam entre troças colegiais, piadas de duplo sentido e agenda para os encontros de fim de semana em grupo. As festinhas de sábado à noite, cada dia, em uma casa diferente funcionavam de maneira diferente, com música dançante dos anos 80 para socializar com passos sincronizados de dança, bebendo meia de seda, cuba e hi-fi.

Em determinado momento da noite o ponto alto era a seleção de canções românticas produzidas durante a semana em fitas cassete, gravadas com esmero. Noventa minutos para dançar agarradinho e tentar a sorte, quem ainda não tinha um par garantido.

Conosco era diferente, ela e eu. Nos apertávamos e trocávamos suspiros. Eu costumava traduzir alguns versos das canções americanas em seu ouvido como estratégia de sedução. Nos beijávamos à meia luz, nos tocávamos e em breve iríamos para o jardim mal iluminado, discretamente apimentar a noite.

Era certo dizer que chegávamos bem longe, e voltávamos inebriados, mas jamais concluíamos nossos eventos de amor porque simplesmente ela não estava pronta e eu respeitava sem arrependimentos. Muitas vezes chegávamos muito perto. Era tanto tesão que nem acreditávamos!

Esse tempo chegou. E foi muito bom, inesquecível. Sem medos ou culpas, apenas a realização do que há muito esperávamos. Isso nos amadureceu, foi um upgrade emocional compartilhado entre nós dois durante bastante tempo, até que ela dividiu com as melhores amigas e eu com os meus melhores amigos.

Sorrisos, brincadeiras, curiosidades satisfeitas... Era um ambiente saudável física e mentalmente. Ninguém deixou de seguir os passos que nos foram ensinados para manter a segurança, portanto não houve surpresas.

Uma época relevante para quem descobre o sexo naturalmente, sem a maioria distorcida ou incentivada erroneamente, com políticas estúpidas de conter a promiscuidade liberando comportamentos sem instrução, liberalismo a um ponto sem volta, porque aprender errado não oferece retorno, é um trem descarrilado rumo a uma tragédia anunciada.

Não há épocas diferentes em que jovens desconhecem o desabrochar sexual; o que acontece é a divulgação errada de como isso vai acontecer. Divulgação é poder, instinto é exercer a selvageria e perder um período precioso da vida em nome de regras sociais malformadas, permissividade confundida com liberdade, libertinagem como uma deusa enganosa que destrói conceitos como se fossem preconceitos. O fim é inevitavelmente cruel. Para todos.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

 

 

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                 Rejeição à pureza de atitudes como ideologia

 

Ela parecia me amar, mas o ódio costuma caminhar por estradas paralelas, e hoje em dia se deve duvidar da própria sombra. Homens e mulheres sempre pensaram diferente desde o início dos tempos, e o surgimento de diversos tipos de gênero complicaram ainda mais as coisas.

Vive-se em uma época em que elogios mal interpretados podem render ódio e violência, e a desconfiança extermina o que antes era conhecida como amizade. Não existe pureza nos corações jovens, amor é uma farsa, um conto de fadas para desacreditar e subverter o status de quem ainda acredita.

Os hábitos se invertem, os erros viram acertos e vice-versa. Tudo o que importa é transgredir e modificar o modelo de regime, pois a democracia implica exercer a escolha de uma ampla maioria, então seria um paradoxo que os desejos minoritários sejam enaltecidos e considerados oficialmente, alijando a grande maioria e as suas escolhas e necessidades.

Ela realmente parecia me amar, mas eu estava confuso e não podia confiar totalmente, tendo em vista todo o modus operandi citado acima, que gera conflitos e afasta pessoas, que passam a conviver em pequenos grupos agressivos com os outros por teimosia e ausência de razão.

É a decadência da sociedade como a conhecíamos, impedindo que amizades desinteressadas proliferem e amores sejam levados a sério. Uma nova conjuntura obriga que os novos relacionamentos sejam superficiais e descartáveis, alienando cada vez mais e atrofiando cérebros a ponto de causar tragédias irreparáveis.

Ela parecia me amar, todas as atitudes indicavam. Só que essas atitudes eram antigas, não combinavam com a geração dela; todo cuidado era pouco, e o mau comportamento se alternava entre frio e desconfiado, confuso e covarde.

Se ela realmente me amava teríamos problemas com o resto do mundo. Corresponder seria ainda mais perigoso, e marginalizados estaríamos condenados a uma vida de sofrimento e dor, julgados por uma coisa que já foi desejo de toda uma população, sem ganância nem manipulação.

Amar e ser amado em tempos difíceis como esse, nos quais os valores estão sendo corrompidos com uma facilidade aterradora é o pior dos acontecimentos. A pior das decisões.

Um mundo sombrio começa com a perda da esperança e o desprezo completo ao estilo de vida ultrapassado que inseria felicidade na equação perfeita de viver.

 

                                                                                                Marcelo Gomes Melo

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                                                    Prolixos no amor

 

Acontece com aqueles que constroem muros em torno dos sentimentos e acreditam que os abençoados com o seu amor sabem exatamente o que eles, os apaixonados estão sentindo. Agem como imbecis completos, usam de meandros e caramelam a fala de uma forma tão adocicada que enjoa! Repetem estratégias nocivas a eles próprios, afastando a quem deveriam atrair, porque são incapazes de ir direto ao ponto, objetiva, mas gentilmente.

Ao usar palavras demais, movimentos demais, sem esclarecer coisa alguma, tornam-se assustadores, repulsivos, e adoecem ao enxergar o motivo de seus amores cada vez mais longe, não estão aptos a entender os motivos pelos quais afastam em vez de encantar e trazer essas pessoas para dividir o seu mundo.

A realidade é que não conseguem expressar efetivamente o que sentem e ficam dando voltas, repetindo em tom monótono coisas sem nenhum sentido por falta de poder de síntese. Isso não significa que os que são objetivos, frios e diretos em proclamar o seu amor pálido se dão melhor; a eficácia está entre os polos. Naturalidade, tranquilidade e certeza explicitam sentimentos com muito mais clareza e eficiência. Os olhares certos contam histórias de amor, os toques mais suaves transmitem o melhor tipo de paz.

Os prolixos no amor não entendem e transformam tudo em confusão, acabam sendo as suas próprias vítimas e caminho pelo mundo reclamando, apontando dedos, acusando e culpando inocentes por não serem amados, mas não conseguem ver que estão inaptos a receber qualquer tipo de atenção porque envenenam com sua conversa fiada. O choro é o seu discurso mais profundo, a fanfarronice os torna patéticos; o espelho os machuca e os obriga a querer modificar externamente a falha que está por dentro. Mais um erro que os torna bizarros.

Quanto mais caminhos constroem, mais se afundam no próprio labirinto da inabilidade em se comunicar. A libertação só virá quando derem a sorte de encontrar alguém que se declare de maneira simples e os deixem em choque imediato, passando por um período de negação: “como alguém pode gostar de mim e simplesmente dizer?”. “Não é fácil demais?”. Na sequência, a raiva: “por que essa pessoa pode me amar e confessar tão tranquilamente, enquanto eu destruo a mim mesmo com dúvidas e covardia?”.

Por fim, a aceitação, que talvez os liberte por completo, se a pessoa aguentar tempo suficiente para treiná-los para agir com simplicidade, coragem e menos, muito menos palavras.

A receita efetiva diz “pense menos, sinta mais, admita, conte”. A probabilidade de funcionar é enorme, mas se não der certo será possível sobreviver sem tanto desgosto. E tentar de novo.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

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                         Um inevitável passo rumo à extinção

 

A tendência em preservar as memórias das melhores épocas em que vivemos é mundial, independe de culturas e raças, é um traço característico da humanidade, o que diversas vezes causa o fenômeno da expressão “no meu tempo...”, e invariavelmente as comparações com o atual vencem. É como se a qualidade de vida fosse se deteriorando com o passar do tempo e o envelhecer natural colocasse o que se apresenta como novo em um patamar inferior.

Levando essa teoria em consideração só nos resta avaliar que não há evolução, se as coisas apenas pioram e os seres das novas gerações estão sempre inferiorizados intelectual, física e mentalmente, contribuindo para a destruição de um habitat que já foi incrivelmente melhor!

Em contrapartida, os novos costumes implantados dominam completamente aos contemporâneos, que tendem a desprezar o que é antigo, e portanto, segundo a sua visão superado pelas novas descobertas, novas maneiras de se expressar e novos credos.

As mudanças físicas, os dogmas impostos pela sociedade que se considera amplamente superior causa uma fenda impossível de consertar com as gerações antigas. Essas vão sendo colocadas à margem e o seu conhecimento e experiência descartados como inutilidade. Tais acontecimentos se repetem à medida em que novas tecnologias substituem a intuição, e cada vez mais valores vão se extinguindo por falta de uso, inclusive a alma.

Eis que agora tudo é questionado, mas de forma correta, ou sob escamas de ódio e incompreensão? O comportamento evolutivo das espécies pode ser considerado realmente algo importante e digno de exaltação?

E se o universo for um poço escuro e sem fundo, sendo as estrelas lembranças remotas de um brilho que vai se perdendo lentamente enquanto nos afundamos cada vez mais na areia movediça do pântano da extinção?

Isso explicaria o comportamento dos românticos observando os planetas e imaginando coisas maravilhosas que já existiram e jamais viverão. O que é destruído jamais será revitalizado sem mudanças críticas. Então não há como retornar ao passado e retomar o vigor, as vitórias e as experiências intensas vividas no melhor período das vidas de cada um. Cada passo além é o inevitável consentimento à própria extinção.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

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                                            O que não tem explicação...

 

Os candelabros iluminavam aquele ambiente sombrio cercado com paredes de pedra precariamente. Lá fora os relâmpagos cortavam a noite e os trovões anunciavam que nada passaria incólume. O cavalheiro coberto por uma capa elegante mantinha as luvas de couro enquanto segurava a taça de vinho, sentado à cabeceira da mesa de madeira de lei, entalhada há séculos, marcada por segredos inimagináveis à faca ou por resíduos de alimentos ali consumidos, sangue ali derramado...

A motivação dele era obscura naquele momento, o leve sorriso sem mostrar os dentes, combinados ao olhar devastador assustariam ou atrairiam, de acordo com a ousadia do interlocutor.

Do outro lado da mesa a dama de grandes olhos azuis sustentava o seu olhar com firmeza os longos cachos ruivos delineando o seu belo rosto de pele alva e macia. Os lábios vermelhos em forma de coração encorajariam um louco a elogia-la com ousadia, mas essa não era a intenção do homem.

Em pé, próximo à lareira onde a lenha crepitava, um indivíduo alto e magro palitava as unhas com a ponta de um canivete bastante concentrado naquilo. O silêncio de palavras significaria muita coisa, caso fosse possível ler aquelas mentes barulhentas.

Já era madrugada e todos permaneciam imóveis, atentos, trocando acusações mentalmente. Um ambiente sem suspiros, nada de risos, tudo parecia definitivo. Os passos lá fora, sob a chuva, instalou alguma ansiedade, mas contiveram os movimentos. O cavalheiro com a capa apertou os olhos e inclinou a cabeça para o lado direito, pensativo. A ruiva tocou o próprio busto com uma mão bem cuidada de longas unhas vermelhas. O indivíduo alto pousou o canivete sobre a lareira e enfiou as mãos nos bolsos da calça, virando-se para a pesada porta de madeira.

Vozes se misturaram aos passos lá fora, e armas calibre doze foram engatilhadas. Faróis de camionetes iluminaram as janelas fortemente.

Em minutos a porta de madeira veio abaixo e homens com armamento pesado invadiram disparando. Não houve conversa. O cheiro de pólvora tomou conta do ambiente e os corpos, atingidos pereceram imediatamente.

O homem com a capa foi atirado contra a parede de pedra, e lá ficou como um boneco, inanimado. A ruiva caiu aos pés do indivíduo alto, coberta de sangue, os olhos mortalmente abertos, ainda mais azuis. Os tiros no alto o transformaram em um queijo suíço, caindo metade sobre o fogo dentro da lareira, metade para fora, as botinas enormes tocando os cabelos da mulher. O cheiro de carne queimada infestou rapidamente o espaço aterrorizante.

Muitos tiros, muita fumaça, muito sangue. E logo o silêncio voltou a dominar o lugar. Um dos atiradores encontrou a pequena caixa de madeira, quadrada, que era o que procuravam. Ergueu-a e mostrou aos outros.

Olharam em volta por uns vinte segundos e saíram sem dizer nada. Largaram a porta escancarada. A chuva parara. O céu, antes escuro estava modificando para um tom cinza, trazendo um amanhecer horripilante.

O som dos motores e todos os carros se afastaram. O odor da morte permaneceu. Sem nenhuma explicação...

 

                                                                                                      Marcelo Gomes Melo

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                         O futuro organizado de forma caótica

 

Os cartazes da destruição estão espalhados por todos os lugares, incitando subliminarmente a todos os que passam por eles, de carro ou a pé, olhando as imagens ou gravando os dizeres, estão em locais estratégicos com uma só função: destrambelhar comportamentos, firmar dogmas, incitar rebeldia, amainar conceitos, direcionar caminhos, turvar sentidos, produzir dúvidas...

Jamais alguém perguntou quem os espalhou pela cidade e se o fez por algum benefício, próprio ou para outros. Nasciam convivendo com as imagens e com os escritos, mal os notavam, mas eram afetados permanentemente por eles pelo restante de suas vidas.

Aqueles cartazes tinham vida própria, mudavam de acordo com o tempo e o clima, estavam enraizados na cidade como as árvores milenares, e não ofereciam sombra nem frutos. O seu alcance era além de tudo psicológico, poderoso e definitivo.

Correr em direção à luz poderia significar muitas coisas, superar obstáculos ou ser um dos obstáculos também. É marcante estar sob controle de algo sem ter a menor noção disso, os que sabem ler a ponto de definir significados, os que leem sem alcançar qualquer significado, e os que não enxergam as letras, deixando-se guiar pelas cores, todos igualmente hipnotizados, comprados, esterilizados.

São os cartazes em branco, preenchido pelo que consta nos diferentes cérebros e corações, que determinam o futuro organizado de forma caótica, garantindo uma sequência interminável de eventos nada aleatórios, mas secretos o bastante para gerar inúmeras teorias da conspiração, e isso é a  verdadeira diversão para os peões no xadrez irrisório de viver.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

 

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                A retórica enganosa que mantém sobreviventes

 

Há regras implícitas que o senso comum subscreve e não há porquês, em hipótese alguma são questionadas, e se alguém o fizer, automaticamente estará à margem do que a maioria decidiu; estar à margem pode ser bem solitário e difícil, porque a maioria costuma agir com bastante crueldade.

Essas regras equilibram o ambiente, evitando ao máximo que a selvageria tome conta, e a lei do mais forte prevaleça, sanguinária, desvalorizando a capacidade de raciocinar em nome de uma força destruidora que controle através do medo e do terror.

Uma terceira via, tão egoísta quanto, pretende inverter os valores para tomar o poder comprando a quem não tem nada com migalhas, escravizando sub-repticiamente, enganado para abocanhar a maior fatia do bolo, mentindo descaradamente até lobotomizar incautos para manter o poder.

Teorias conspiratórias viram distração para uns, verdade inexorável para outros, mas, sua melhor serventia é criar a dúvida, espalhar o caos e alternar os pensamentos para encaminhar uma grande maioria a labirintos individuais, nos quais empenharão toda a energia esquecendo de conhecer e perceber a verdade.

É assim que as sociedades são formadas, manipuladas por uma minoria para apresentar resultados conforme a necessidade desses poucos que inventam motivos e regulamentam comportamentos que sobrevivem através dos tempos, mantendo a escravidão, garantindo a mansidão das massas enquanto for necessário.

A troca de poder polariza atitudes, mas é indispensável para que o sistema não apodreça a ponto de não ter volta. A minoria que comanda e se alterna no poder sabe disso, então fingem para manter a consciência dos fracos pura, ao ponto de estarem dispostos a morrer pelos seus ideais, plantados friamente para garantir que propósitos superiores aconteçam como sempre, sem novidades.

A existência em grupo funciona desse jeito desde os primórdios da humanidade, e os que se rebelam viram indiscutíveis vilões ou heróis, e em ambas as situações serão crucificados e destruídos. Sem os regulamentos e a alternância de poder dos pequenos grupos, o fim chegaria, indiscutível, exterminando a todos pela ausência de crenças, sem a oposição que mantém a girar a enorme roda do universo.

As perguntas sobre quem somos, de onde viemos, para onde vamos são retóricas, alimento sem sabor para manter uma esperança ilusória, inexistente. Tristeza e alegria são a mesma coisa, egoísmo e hipocrisia são armas usadas para aliviar o fardo de habitar eternamente um enorme vazio sem razão de existir.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

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      Viver intensamente, morrer sem arrependimentos

 

Dormir em camas duras moldaram o meu corpo e o meu caráter. Ando com a coluna de um ciborgue e a velocidade de um carro fórmula um. Gosto de pensar que sou duro como pedra, demoro para acabar, assisto o passar do tempo e me alimento com cada gota de beleza natural que flameja, alcança o ápice e desaparece largando o perfume peculiar para misturar-se aos sabores dos séculos, permanecendo na memória e na atmosfera como algo indescritível e inenarrável, tão sublime que encanta e seduz a poetas e artistas. Esses procuram, mas jamais alcançam a nota perfeita, o verso magnífico para descrever plenamente o que se sente.

Provavelmente porque os sentidos mudam de pessoa para pessoa, ainda que igualmente maravilhoso, sutil e viciante. É difícil conviver com o produto da própria mente lhe massacrando, exigindo respostas para o que não há resposta, instigando ações que são indevidas e paixões que são derrotas anunciadas.

Será prejuízo andar assim, solitário, com o rosto impassível e olhar sufocado, cheio de temor nessa amplidão desconhecida que pronunciam coração? Rumo ao caminho que me resta a passos largos, finjo não hesitar, mas demonstro como um brinquedo velho, desabo por dentro enquanto corro entre as rosas. Tudo o que vejo é macio e belo, mas o que me restará serão as marcas dos espinhos pelo corpo.

Lidar com as cicatrizes. Penso nisso depois, não há bálsamos que sempre durem, mas costumam funcionar bem para curar. Só as lembranças é que não têm cura. Permanecem firmes, reavivando-se a cada toque, a cada olhar. Inevitável. Como viver. Como morrer.

Então assumo ser feito de pedra e presenciar as vidas que passam como um banco no parque, imóvel, servindo de apoio a todo o tipo de gente, me desgastando aos poucos até ser esquecido sob o frio do inverno, imune às intempéries, inútil, entretanto.

Viver rápido e intensamente, morrer sem arrependimentos era o lema dos astros que largavam para o futuro os seus versos perfeitos para as almas carentes, como perfume das flores, como a escuridão da noite, como a incerteza intrínseca aos povos.

Aos que duram para sempre é negado os sabores, os prazeres; podem apenas observar sem sentir, admirar sem saber a razão, do mesmo modo que aquelas pessoas nos museus, observando quadros, pensativos, falsamente entendedores, mais ignorantes do que nunca!

 

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

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           A barca inconsistente que carrega os raciocínios

 

Não me deito tranquilo. Sou um mar de inquietações em noite de tempestade, o meu peito sobe e desce ao saber das ondas traiçoeiras, então não consigo lidar com a obscuridade dos meus pensamentos rasos.

Debater-me em vão, de um lado para outro da cama não ajuda em nada, porque não há concentração, não há foco, é impossível controlar pensamentos aleatórios e dominar a ansiedade até admitir o quão solitário pode ser o mundo, e como é difícil confiar no entorno sem confiar em si mesmo, vivendo um drama sem fim noite após noite, suando frio e rangendo os dentes sem perceber, torcendo desesperadamente para que o dia se apresente claro, ensolarado, caloroso, dispersando incertezas e disseminando razão, coragem e alegria.

Entretanto tudo é vazio, e quando se alcança maturidade suficiente para perceber isso, uma escolha se faz necessária e urgente; trata-se de convencer a si mesmo que se vive em uma bolha, irreal o quanto pode ser, admitindo a própria incapacidade intelectual, ou lutar pela causa que a claridade propõe, relativa à propostas até certo ponto esdrúxulas, difíceis de acreditar’

O entardecer inclui melancolia na equação de existir em um universo incontável como um ser diminuto cujo livre arbítrio pode ser mera fantasia, pois o destino, traçado sabe-se lá desde quando, cumpre disciplinadamente o seu caminho sem olhar para os lados.

Esse ponto de vista arrancaria de você qualquer tentativa de assumir a direção, permanecendo à deriva, aguardando o desfecho como um mero passageiro em um avião sem piloto.

O interessante é que, mesmo após todos os questionamentos a mesma noite chega e é escura, a insônia se repete da mesma forma como a ansiedade pelo amanhecer.

Essa rotina se quebra em algum momento? Quebrando-se nos levaria a outro nível? Em outro nível mudaríamos o jogo ou apenas reiniciaríamos a mesma partida com as mesmas inquietações que acreditamos ser falhas, no entanto podem ser acessórios de fábrica porque deve ser assim para sempre.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

                   

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                                Um sistema tão complexo de amor!

 

Talvez eu seja o cara certo no momento errado, aquele que pode lhe falar dos seus erros e deixa-la furiosa, ao invés de lhe lembrar dos seus sonhos e adocicar os seus lábios, substituindo o amargor por um lote de esperança.

Quem sabe eu seja o homem errado no momento certo, por possibilitar a você consertar os enganos que lhe machucariam por anos, infiltrando em seu sangue felicidade em estado permanente. Entretanto, sendo o homem errado, lhe ajudaria, mas jamais herdara o prêmio desejado que é desfrutar de você no senso mais amplo, e seguiria a minha triste trajetória enquanto durar o meu calvário, sem poder reclamar ou trocar de ideia.

Eis que chegamos à filosofia do egoísmo do amor, que para alcançar momentos eternos precisa magoar um dos dois em uma barganha cruel, determinando o final de algo feito para durar para sempre, apenas porque a vida é feita de escolhas.

Não havendo como rechaçar o destino, fingimos ingenuidade hipócrita, acreditando no que jamais acontecerá aos amantes mais prontos um para o outro, porque o final reserva um sabor amargo com notas adocicadas para torturar a memória nos piores dias, nos quais contestamos a existência e ameaçamos morrer por amor.

Estranho permanecer assim geração após geração, produzindo tragédias cantadas em prosa e verso, que servem para incentivar e não repelir um sistema tão complexo como o amor, que oferece períodos felizes alternados por sofrimento mortal, modificando personalidades, causando danos irreparáveis no intelecto e no físico, e ainda assim se solidificando como a conquista mais importante dos vivos, dispostos a matar e morrer por uma sensação estonteante e destrutiva ano após ano, sem limite de idade, experiência ou maturidade.

Um veneno ao alcance de todos, o mais proibido e o mais impossível de conter. O maior vencedor nas batalhas que atraem os já perdedores sem muito esforço. A realidade misturada aos contos de fadas, que ninguém ousará recusar, garantindo um final trágico haja o que houver.

 

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

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           As palavras enigmáticas que só uma mulher diz

 

O que realmente me interessa está no conteúdo desse vestido sexy, leve, que chacoalha ao sabor do vento cálido em consonância com os seus cabelos revoltos, mas não posso demonstrar, os óculos escuros são para isso.

Tento passar uma imagem desinteressada e relaxada, não pensar no seu decote desviando o olhar o tempo todo para o desinteressante, em comparação a você, fim de tarde à beira da praia. O dourado dos raios de sol se esvaindo no horizonte se chocam com o verde da água, se transformando rapidamente em azul escuro, e logo, logo, em negro como os seus olhos misteriosos. Imagino que seja uma homenagem espontânea à sua magnificência, e tomo um gole do drinque gelado com aparente desleixo, com intenção de molhar os lábios secos.

Você cruza as pernas com uma naturalidade extra-sensorial, e o meu coração quase para, mas insisto na pose indiferente. Observo discretamente e o que vejo confirma que o meu disfarce corre bem, pois você parece extremamente distante e desinteressada, como tem que ser.

Os seus lábios se movem comentando alguma coisa, mas é inútil, não tiro os olhos da maciez suave que separam e se juntam, entremeando a pontinha da língua rosada que me despertam maus pensamentos e calafrios perigosos. O que você disse não foi assimilado em nenhum momento, então dou um sorriso profissional que pode significar qualquer coisa.

As suas belas mãos brincam com o copo distraidamente, e volto a me concentrar no subir e descer dos seus seios, respiração tranquila, maravilhosa. O seu olhar finalmente pousa na minha figura com alguma seriedade. Você me observa com uma nova atenção comovente, franzindo o cenho como se acabasse de fazer uma descoberta. Sob os óculos escuros o meu olhar enfrenta o seu, covardemente porque você não pode ver o brilho que deles emanam apenas por seu jeito de ser mulher, completa, desejável e despretensiosa.

Agora já tenho a sua imagem desenhada na retina, e sei que vou relembrar cada movimento seu, cada som emitido por sua voz, mesmo que não me lembre do que foi dito.

De repente um novo acontecimento, um novo nível, e eu sei que não colaborei com nada para que acontecesse. Você tocou as minhas mãos com as suas mãozinhas quentes e firmes, e agora pude me concentrar nas palavras que você sussurrava com tanto vigor e decisão. Eram realmente palavras dirigidas a mim, e só a mim! Não estava apto para desvendar o bem que fiz para que Deus permitisse tamanha felicidade. Ela apertou as minhas mãos sobre a mesa e falou, sexy até alcançar o universo:

- Está anoitecendo. Venha, vamos para o meu quarto. Não quero esperar mais.

Nem eu, senhora, pensei, erguendo o corpo, atrevido. Muito menos eu!

 

                                                                                       Marcelo Gomes Melo

         

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                     Só se percebe o envelhecimento dos outros

 

Raramente se percebe o envelhecimento em si mesmo. É um processo gradual, quase invisível para quem se olha no espelho diariamente, porque há um protocolo interno que impede que a realidade nos atinja de pronto, bruscamente; às vítimas dessa percepção resta uma revolta que se manifesta de diversas maneiras, e nenhuma é positiva, a não ser para os poucos preparados para a aceitação da decadência inevitável, diminuindo a acuidade visual, auditiva, afetando a memória e os anticorpos, prejudicados por vidas descuidadas, sedentárias, aumentando a fragilidade do corpo e diminuindo a confiança da alma.

Quem percebe o envelhecimento são os outros, nunca em si mesmos. Atualmente há os que lutam contra o inevitável através de dietas, exercícios, orações, drogas e doutrinas supostamente eficazes para retardar os sintomas da velhice, até que se encontre a fonte da juventude.

Muitos se submeterão a tratamentos patéticos e se tornarão motivo de piada por tentarem permanecer em uma faixa etária a qual não pertencem mais, procurando se adequar às novas modas e estilos, trocando convicções por aceitação. Os tiozinhos e as tiazinhas, vestidos completamente fora dos padrões etários, mascando chiclete e misturando gírias antigas com as novas sem notar o ridículo no qual se inserem para curtir uma falsa sensação de juventude.

As maneiras de conseguir sexo e de como se comportar em uma balada para se dar bem mudaram tanto quanto as escolhas de gênero e os fetiches, colocando os que se recusam a envelhecer em saias justas que poderão transformá-los em vilões, machistas, fascistas... Mas não passam de idiotas em potencial quando a atenção de uma forma impossível, pois mesmo que modifiquem as suas convicções, ainda serão estranhos no ninho, bradando por causas inúteis, fazendo a caminho contrário à evolução, dispostos a ficar menos e menos inteligentes até o período pré-histórico.

O que era natural agora é reprovável; a falsidade é a moeda da vez e a democracia muda de definição e passa a ser considerada como a vitória das minorias e a punição à maioria que ousar pensar diferente.

É difícil envelhecer sem perceber, colocando-se em situações embaraçosas para ser considerado parte da nova ordem, sacrificando tudo por uma coisa irreal, que no fundo apenas os fará sofrer mais e mais.

A riqueza de envelhecer com dignidade, mantendo os princípios e a honra pode parecer absurdo, mas é o contrário: um toque de Midas que permitirá um final dourado à margem das novas configurações sociais inaceitáveis. Ninguém é para sempre. Envelhecer agora significa escapar das gerações ineptas responsáveis pela destruição da vida como a conhecemos.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

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                     A máquina removedora de vidas antigas

 

A ela foi dito que, com as novas descobertas e inovações tecnológicas, bastava apertar aquele botão à sua frente para zerar a vida como ela a conhecia e havia vivido até ali, recomeçando do nada uma outra, sem os erros cometidos, profissionais, financeiros e amorosos, esquecendo as decepções, as perdas e fracassos para produzir algo novo, com o prévio conhecimento adquirido por uma pessoa que alcançara o estágio de meia idade, e com ela uma série de conquistas pessoais e coletivas dignas de orgulho. Não as teria novamente ao reconfigurar a vida, dar um boot no sistema e assumir o arbítrio de conhecer as vitórias para aprimorá-las como quisesse, multiplicando-as ao ponto de dobrar, triplicar o seu status.

É claro que, sabendo dos erros que cometeu, dos arrependimentos que colecionou e das falhas que a prejudicaram e a outrem, poderia consertar sem remorso imediatamente. Tudo aquilo apertando apenas o bendito botão à sua frente!

Foi aí que se pôs a pensar nas maravilhas que produziria para si e para o seu círculo de amizades, colaboradores profissionais e relacionamentos amorosos. Iria consertar as mancadas que decepcionaram os pais, que feriram os amigos e terminaram abruptamente com os amores. Seria a primeira moradora de um paraíso particular sem enganos ou perdas. A felicidade batendo à sua porta!

O que estava esperando para acionar tal maravilha magnífica removedora de vidas experientes, substituindo-as por outras perfeitas e longevas?

O seu coração acelerou até parecer uma enorme máquina da qual dependiam todos os sistemas a ela conectados, caso explodisse as chances atuais e futuras seriam perdidas para sempre.

Algumas considerações deveriam ser feitas, entretanto: zerar uma vida e recomeçar não garantiriam as mesmas pessoas em sua vida. Não atestariam que as mudanças não influenciariam novos acontecimentos os quais modificariam tudo o que ela tinha conquistado e que formava o ser humano que ela era naquele momento. Todas as cicatrizes que personalizavam o seu lugar no mundo como ser humano único, individual e diferente de todos os outros seriam eliminadas para sempre!

Isso significava dizer que ela, conforme selo original abençoado por Deus e bonito por natureza sumiriam do mapa. Todas as experiências se tornariam salobras e inodoras! Valeria a pena transformar-se em um arremedo de ser vivo, desprovido das marcas que a faziam ser quem era para viver uma vida artificial, sem surpresas e sem nenhum risco, que é o que assumimos durante o nascimento e a morte para garantir a nossa centelha de existência?

Ela raciocinou sobre os prós e os contras, observando o botão por um longo período sem se mover. Até que tomou a decisão. Determinada atirou o botão pela janela, lavou as mãos e as secou no avental. Sorriu pensativa, mas satisfeita com a escolha de viver com imperfeições e riscos, contando com a família e amigos, além da valiosa ajuda divina para traçar o seu rumo no mundo, da forma como tiver que ser. Firmemente ergueu o queixo e caminhou com os olhos brilhando rumo ao restante de sua vida, real e abençoada.

 

                                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

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                                                       Intervalo de luta

 

Soa o gongo. Fim de assalto. Banquinho, balde, garrafa com água...

- Aê, brother, está indo bem, está indo bem! Bora!

- É isso aí, campeão, bebe água aqui.

- Conserta o olho dele, Tonhão! Coloca pra dentro e grampeia. Respira, parça, respira.

- Tenho que vedar esse talho na testa, treinador, está muito fundo, sangrando, o árbitro pode parar a luta.

- Enche essa porra de vaselina, Tonhão! A luta não pode parar, senão ele perde metade da grana da bolsa. Tudo joia, campeão? Ele grunhiu, Tonhão, está vivo, tudo certo.

- Tenho que colar a zoreia, treinador.

- O que, Tonhão?!

- A zoreia dele está caindo, tenho que colar, Ele levou muita porrada no escutador de rádio.

- Cola com fita crepe. Presta atenção, parça: bate na linha de cintura, que o adversário está acabado. Viu os olhos esbugalhados, a língua pra fora? Está cansado, o sacana. Chuta na perna e na cabeça, arranca um tampão daquela cabeçona.

- Treinador, o nariz está quebrado.

- Conserta, Tonhão, ele tem que respirar, faltam dois assaltos! Respira pela boca, campeão, pensa no dinheiro!

No corner adversário:

- Bom, campeão, foi bem, foi bem! Senta a pancada, mano, chuta a cabeça, a orelha dele está caindo!

- Toma água aqui! Falta pouco, está ganhando a luta, pensa na família, nas crianças, temos que vencer essa. Treinador, um olho está fechado por causa das joelhadas em sequência que ele recebeu. Acho que quebrou uma costela.

- Normal, normal, guerreiro, mete gelo, Nino, ele tem que enxerga com um olho só; pelo menos uma sombra... Está chorando por que, guerreiro?

- Minha família, treinador. Minha mulher fugiu com o carteiro e levou os meus dois filhos...

- Quem falou em família aqui, você, Nino?! Deixa de ser burro!

- Desculpa, treinador, estava tentando animar... bebe água, guerreiro, bebe água.

- Mais uma razão para vencer a luta, rapaz! Vai ter que pagar pensão. Além do mais...

- O que treinador?

- O seu adversário é carteiro. Ele luta pelo sindicato.

Ouve-se um grunhido de ódio e o som aterrador de luvas se chocando um pouco antes de tocar o gongo para o reinício da luta.

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

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                        Indivíduo nas alturas distante de Deus

 

Da sacada do apartamento no trigésimo andar ele vê as nuvens, porque é do seu sentimento procurar sempre o alto, não importa onde esteja.

Em seguida volta o olhar, relutante, para enfrentar os gigantes de cimento e aço erguidos pelas mãos humanas para ocultar o sol, proteger do vento e da chuva e demonstrar o poder que, simbólico, espalha-se pelos cérebros menos favorecidos e os controla indiscriminadamente.

Ele enxerga as sombras aterradoras e as luzes artificiais que enganam, constroem um novo local de sobrevivência que é um corpo estranho fincado no coração do planeta, um quartel de onde desenvolvem todo o tipo de experiência usando outros seres, outros bens naturais e outros semelhantes.

Do trigésimo andar, agora com o auxílio de potentes óculos ele enxerga os seus semelhantes, ínfimos, caminhando como formigas por entre os edifícios, desviando de outros micro organismos idênticos, com pressa, focados cada um em seus problemas, prontos para realizar os objetivos dos que possuem os prédios e a vida dos que os constroem arriscando-se por quase nada, manipulados que são durante toda uma existência sem se darem conta disso um minuto sequer.

Os que se dão conta não suportam, são vítimas ainda maiores porque se matam, se excluem da pantomima armada pelos comandantes que produzem o caos para manter sob as rédeas os não suficientemente ambiciosos, e os premiam pela docilidade com o mínimo, algo parecido com a felicidade, relegada a uma cerveja gelada e um bater de bumbos no meio da cacofonia desorganizada que desabilita cérebros e domina através de cobranças e prêmios pequenos.

Ele observa lá de cima os seus semelhantes adestrados, defendendo ideais obscuros que não são verdadeiros, rebelando-se contra um monstro criado pelos monstros que os induzem e utilizam como boi de piranha.

Inscritos nesse contexto, a vida segue, os seres minúsculos são esmagados, os sobreviventes lamentam, curam as escoriações e adiam a morte para outro dia, pois precisam brigar mais um pouco contra as dificuldades que lhe são impostas além do que merecem ou acreditem.

Voltando o olhar além das nuvens, agora ele aprecia o vazio, e desejando ou não o pensamento lhe cruza a mente conturbada. Ele finalmente percebe o quanto ainda, mesmo daquela altura, ainda está longe de Deus.

 

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

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As ferramentas de autodestruição apresentadas como poder evolutivo

 

Outros mundos, outras perspectivas, outras vidas diferentemente vividas, outras sanhas, ambições belicosas, novidades inconstantes, influenciadas pelo poder de atração de outros planetas. A partir das luzes, da ventania, do calor e das novas maneiras de poesia, a vibração move as montanhas invisíveis no pensamento retrógrado, desde que tal pensamento possa ser definido objetivamente. Talvez não seja possível com intensidade porque o que é novo rapidamente envelhece, e as novas ideias chegam como um rolo compressor, não importando que sejam mais fracas do que as anteriores.

O ser humano é um processo de corrosão natural, e a sua evolução é enganosa, a cada geração ficam mais fracos e sensíveis, causando na espécie maiores dificuldades de sobrevivência através da sua própria maior qualidade, a de adaptar-se às mudanças bruscas para resistir.

Enquanto cria novas tecnologias para avançar sobre a natureza, obtendo a falsa sensação de que está no comando, a humanidade enfraquece a si mesma física e mentalmente através das invenções que cultiva e espalha indiscriminadamente. Nada que aparentemente facilite a existência hoje em dia, torna o ser humano mais forte e focado com a comunhão milenar com a natureza. Estariam trabalhando contra os princípios de sua existência?

As sensações podem ser fabricadas e usadas contra todos os deficientes de estima própria, controlando-os e instigando neles atitudes cada vez mais absurdas e letais. A busca por novos planetas, por ferramentas artificiais, alternativas para a sobrevivência. Ou mais locais para destruir, modificando a matriz humana ao ponto de torna-lo irreconhecível?

Tudo é duvidoso, ninguém confia sequer na própria sombra, não há quem mantenha a simples palavra, a não ser que se resigne a morrer à margem da mediocridade geral.

Acabando por perceber o vazio à sua volta, só resta questionar se no vasto universo há espécies com tanto poder autodestrutivo, capaz de tentar eliminar aos seus pares e detonar o habitat com tamanha convicção, sorrindo como um alucinado no processo?

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

 

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                              As línguas que flertam com o eterno

 

A língua dela tão diferente da minha, ainda assim competia, macia, não media o que dizia ou repetia o que ouvia. O misturar das línguas sadias com suas gírias, e o modo peculiar de expressar o que se queria, desejos, pedidos, exigências, urgências...

A língua minha faminta como a dela, se encontravam em situações nas quais ficavam tímidas, não diziam, nem pediam, não ousavam até que se tocavam. Era especial como só os polos diferentes o são, e se atraem, ensinam maneiras sensíveis, nada sensatas, aprendem instintivamente, uma vez mais e novamente, contando segredos, indo ao final dos encantos, dividindo paladares, tocando com fúria de tempestades passageiras, degustando através de palavras maneiras, substantivos, adjetivos, conectados por artigos e conjunções milenares.

Essas línguas santificadas exploram lugares, multiplicam sabores, enriquecem o corpo, a alma, o intelecto, expandem os conhecimentos, instigam desafios...

Quero continuar a tocar a minha língua na dela, a liquidificar os nossos anseios sem discriminação, quando alcança fácil o coração e nos faz querer mais.

Não há globalização mais gloriosa do que aquela que goza, que entra em erupção facilmente, ladeando o perigo, cheia de convicção, esticando os corpos no limite da tensão, como cordas de violão que desenvolvem um cantar suave, sereno, que aumenta a pressão e se torna mais e mais urgente, pesado, insistente, levado, incoerente, molhado, indecente, aumentando vocabulários, rompendo limites, saciando os desejos além-mar como se houvesse apenas uma longa aldeia e nossa casa à beira do rio fosse a cama mais macia, que um dia seria a bateria que recarregaria os nossos sonhos.

Poliglotas do amar, exploramos através do falar, do pensar, do querer e ganhar todas as vontades que através das línguas se tornam verdades, e nós dois, viajantes da vida, sempre dispostos a alcançar novos níveis, jamais recusamos a chance divina de gostar, de aprender, dividir e depois descansar com um sorriso nas nuvens e uma carícia no pensamento, até o momento de recomeçar o intercâmbio ilimitado de quem flerta diariamente com o novo, o prazeroso, o eterno.

 

                                                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                   A vida secreta dos seres noturnos

 

As noites em claro que costumo passar há anos, me ensinam comportamentos novos, diferentes dos das pessoas diurnas, aquelas sempre dispostas a sorrir para esconder os seus terrores, enganando antes de tudo a si mesmas, vendendo atitudes anormais como se fossem padrão, defendendo pontos de vista os quais não necessariamente acreditam só para obterem a sensação de que participam da panela maior em que todos concordam com o óbvio e se martirizam escondido em nome de um status quo sem muita importância em um mundo que atravessa um período de transição gigantesco.

À noite a percepção fica mais aguçada sob o signo do silêncio, e os enganos mais vívidos, o cinismo é aceito e a ironia é uma arma pacífica que causa estragos e determina rumos diferentes dos escolhidos pelos acomodados, os que preferem fazer parte da grande máquina que devora pessoas e as hipnotiza de forma a tomarem decisões abruptas e desesperadoras, que os prejudicará a longo prazo, mas oferece uma falsa sensação de segurança, embora estejam sendo manipuladas constantemente.

Os seres noturnos contestam a tudo; a eles mesmos e aos que os cerca; sofrem por isso, radicalizam a existência e nem sempre sobrevivem à verdade nua e crua, virando estatística fria, sem que ninguém saiba o porquê de flertarem com o abismo obsessivamente até que sejam derrotados.

Não escapam impunemente porque conhecem mais o que se esconde por trás dos corações humanos, a necessidade que os obriga a trair os pactos de honra e ainda dormir o sono dos justos. Não há justiça! Há portos nem sempre seguros que desafiam o tempo todo àqueles que escolhem viajar, conhecer e silenciar, surpresos e ao mesmo tempo inquietos, rebelando-se contra a imensa maioria de ovelhas que caminham para o abate todos os dias, aparentemente felizes com a ignorância com a qual são brindadas, e que é bondosa porque não os permite perceber a realidade de suas vidas vazias, com falsas perspectivas, nulas, repetitivas.

Nesse ponto se igualam. O destino é o mesmo, mas os que vivem à noite sofrem mais por saberem mais, privados da bondade que é viver no escuro sem enxergar a escuridão que os cerca, a ladeira que os guia a um final indeterminado e incerto. Bois a caminho do matadouro.

Os noturnos acabam da mesma forma, não há vantagem nenhuma em perceber a matrix, além de causar um fim mais sangrento e assustador para cada um dos despertos.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                                   O que só as deusas demonstram

 

Jezebel, nas manhãs de domingo em meu chalé nas montanhas, hesito em me erguer dessa cama quente na qual realizamos todos os nossos planos pecaminosos, gostosos e revigorantes para, abalroado pelo frio cortante descer o caminho de terra entre a mata para marcar presença na missa, como um rude cavalheiro de fé!

Com o cheiro cativante do seu corpo em meu corpo, relembro os seus movimentos desinibidos recentes, inebriando o meu cérebro simplório, me pedindo coisas que eu jamais imaginaria, mas realizava feliz com o prazer alcançado, alucinação momentânea que ao amanhecer deixaria em meu pensamento de fé uma leve vergonha, um embaraço juvenil, um medo de punição pelos desvarios noturnos com direito a tudo, sem nenhuma proibição.

Da cozinha, o cheiro forte de café recém passado, as torradas com manteiga e ovos com bacon fazem remoer o meu estômago, faminto em recuperar as forças gastas em uma batalha sensual inacabada. O meu cérebro, Jezebel, matreiro, insistia em lembrar que você estava lá, guloseima das guloseimas, trajando a minha camiseta apenas, fazendo comida para me incentivar a passar o domingo na cama, esquecendo os deveres religiosos de há tempos, destemperando a minha confiança, acusando a minha eterna fraqueza humana sem perdão. Arderia eu, Jezebel, no fogo dos infernos além das chamas de suas coxas quando a minha hora chegasse, em nome dos prazeres carnais oferecidos por você com tão grande talento?

Eu não sei, então apelo à vã filosofia no momento em que nu, me enrolo no cobertor e caminho descalço até você para recomeçar o domingo de nós dois, abandonando qualquer remorso com uma peça eficiente do pensamento humano: uma coisa de cada vez, amanhã é outro dia e terei todas as chances de reparar os meus supostos pecados até o próximo final de semana, quando nos reencontraremos como sempre, eu desconfiado, você com a expressão tranquila e despreocupada que só as deusas demonstram.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

 

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            A decadência do amor romântico para os homens dinossauros

 

A última cartada foi a das flores, rosas vermelhas simbolizando o amor lascivo, o tesão destemperado, o desejo imparável que descia a colina como um trem desgovernado querendo se alastrar como borboletas coloridas sobre os campos e os rios, entre as árvores das montanhas, perfumando com cheiro de terra molhada, criando o clima através das metáforas para uma noite de amor inesquecível, seguida de outras e outras romanticamente, ao som de canções românticas que embalariam o relacionamento enquanto durasse.

Ele era um homem antigo. Não fazia ideia do quão pareceria desrespeitoso entregar flores a uma garota moderna, chegando arrumadinho, perfumado e com gel nos cabelos para impressionar ainda mais!

Mantivera o traquejo dos velhos tempos, e agora se tornaria vítima do próprio romantismo. Ela não aceitaria as flores e o acusaria de machismo contumaz por querer compra-la com rosas vermelhas, símbolo do domínio masculino através dos tempos; recusaria o jantar à luz de velas porque não era um mero objeto a ser conquistado com alimentos e bebidas, que em breve seria requisitada a pagar com uma noite de paixão em que ele ainda se ofereceria para pagar as despesas, incluindo o motel.

Ele ficaria assustado com a ferocidade demonstrada por ela, ameaçando processá-lo por assédio sexual e conduta repressora, considerando-a uma mera fêmea sem o poder de tomar as próprias decisões, humilhando-a com excesso de cuidados torpes que serviriam apenas a um intuito, que era esbaldar-se em seu corpo em busca de prazer unilateral, sem se importar com os desejos e objetivos de uma mulher empoderada que sabe exatamente o que quer.

Nada de presentes fúteis como correntes de ouro, pulseiras coloridas ou anéis de compromisso, falsos na intenção até onde podiam ser, mentirosos porque representavam apenas um investimento imediato na sede de possuir o seu corpo esquecendo a sua alma cruelmente, os seus anseios políticos e sociais, a sua ascensão à glória feminina moderna que era ocupar cargos de alto escalão, viver estressada com a rotina diária que não incluíam mais deveres de casa, cozinha, lavar roupa, passar roupa, enfim, ser a rainha do lar.

Não importava se as intenções do pré-histórico fosse pedi-la formalmente em casamento, prometer uma casinha branca com jardim e uma cerca de madeira aconchegante; que desejasse ter filhos e ensiná-los a amar e conviver socialmente, sendo preparados para virarem adultos coerentes, louváveis, honrosos.

É, ele era abobado e sairia dali descrente da vida, descobrindo o quanto era medieval e ultrapassado, um homem repulsivo que nenhuma mulher aprovaria hoje em dia, com os seus defeitos de parecer homem, falar como homem e amar como homem. Era mais um dinossauro abatido na grande roda da vida, no novo ambiente de caça que opunha gêneros diferentes em nome de uma redenção desconhecida. Recolher-se à caverna mais próxima para morrer em torno de uma fogueira parecia ser a única opção.

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

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                              Frio, solidão, escravidão, escuridão

 

Vai ficar tudo bem onde o vendo faz a curva e você vai poder se estirar na relva molhada do amanhecer, recebendo de braços abertos o sol nosso de cada dia.

Os cristais de geada desenhando os seus fartos cabelos não chegam a incomodar, pois o seu estado de êxtase ante um viver desprovido de ambições contorna todos os obstáculos e lhe impinge uma enorme vontade de sorrir, os olhos fechados, selecionando as imagens maravilhosas em sua mente devidamente faxinada, sem os tapetes que escondiam a escória das atitudes ruins que aprendeu e utilizou durante o decorrer de sua existência.

Você acreditou na falácia de que a exposição total lhe garantiria fama inconteste, e vendeu inclusive as escolhas que não queria fazer; transformou-se em uma caricatura de si mesmo, gargalhando alto e seco, sem transmitir nenhuma sensação; exercitou a falsidade das frases feitas e mentiu descaradamente realizando ações em troca de reconhecimento. Participou da guerra dos hipócritas em busca de status e poder, procurando prêmios que não satisfaziam, apenas destruíam a vida dos que entravam em sua mira malévola.

O ar puro que lhe invade os pulmões quase lhe sufocam e arrancam de você o ódio disfarçado com o qual tocava a vida, o lucro esperado, a comemoração lasciva, o vazio interior no final de tudo, concluindo em angústia o jogo que você criou e agora, após muita destruição, percebeu ser inútil, voraz e usado por displicentes sem caráter, com pouca consideração pela vida e desconhecimento total da razão de existir em um ambiente tão rico, predador dos seus próprios pares, desconsiderando o que é mais sagrado por ignorância e maldade.

Lá onde o vento faz a curva, estirado na grama molhada não tem coragem de fitar o céu azul, com medo de que ele desabe sobre você, vingando as atitudes cruéis implantadas com uma naturalidade assustadora.

Magoar é serventia da casa. Os sapatos fora dos pés são sinônimo de liberdade, embora os dedos das mãos se crispem involuntariamente, e um esgar de dor entorte os seus lábios incapazes de pedir perdão, simplesmente por desconhecer o sentido da palavra.

As sensações que lhe bombardeiam são múltiplas, e todas são novidades para a sua escala inferior de conhecimento de mundo. Esses sentimentos bons lhe agridem e torturam, você não está acostumado com eles! Desesperado tenta respirar ofegante, nos estertores de sua vida, quando conhece e entende finalmente sobre algo que deveria ter norteado a sua existência. Tarde demais. O céu desaba sobre você. Os últimos segundos de clareza antes do fim lhe prometem apenas frio, solidão, escravidão, escuridão.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

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                                                “Titês”: a saga do óbvio

 

Seria um novo e pitoresco idioma surgindo no espectro radical de uma sociedade decadente e entontecida, criado por algum indivíduo marcado pelo “mídia trainning”, desconhecedor do idioma culto do país, incluindo o linguajar informal, emulado por um lobby irônico de grande parte da imprensa,  que passou a acreditar em si mesmo como um novo tipo de gênio universal, enxergando em si uma aura tão superior que produziu todo um artifício mirabolante para se comunicar com um povo que julga inferior intelectualmente, repetindo incansavelmente ser o mais humilde de todos os tempos, o mais honesto e bondoso, referindo-se a ele próprio na terceira pessoa, e no chamado plural majestático!

Com uma voz gutural, sonolenta, insossa, modorrenta, passou a misturar arcaísmos ( palavras que caíram em desuso que a maioria da população desconhece) em sentido impossível de compreender, com jargões conhecidos apenas pelos profissionais da área e neologismos ( fruto do curtíssimo conhecimento do vocabulário extenso da língua portuguesa) impôs esse novo idioma considerando usar um tom professoral, por engano, porque parece mais um padre assustador ou um pastor assombrado, e infiltrou nos cérebros infimamente cultos a pergunta que jamais se cala: o analfabetismo funcional produzirá uma maneira inferior e confusa de comunicação entre os povos?

“Analisando a guerberogática supurítica erveloleviska do último terço, ti sabes que eu enquanto ser humano homem, humanoide, humanitário humanista da humanidade humanística e humanobiótica, sou mim mesmo o mais humildóide ser dentro da parametridade sinquica rotundélica fálica, que sendo o cidadão que sou, cidadanístico pai, irmão, filho, tio, marido, tio, amigo, companheiro, profissional da maior e melhor profissionança títica e tática, não quero dizer a tu que, e ainda mais menos que não, porque talvez não seja o que nunca foi sido, sem deixar de ser o que, vamos, mesmo que ti digas que não, eu digo que mais ou menos, mas não vou repetir, repito, não vou repetir outra vez de novo sobre o que é digno da dignização da dignidade que só mim tenho, olhando do ponto de vista visto que só mim tenho, de indivíduo individual mas não individualista que valoriza o de-sem-pe-nho mais do que o simples desempenho desempenhado em si mesmo.

Hoje foi maravilhoso ver o arco-íris em preto e branco cruzando o alto do chão verde enquanto, vou dizer, foi, mas não foi se ti pensardes de verdade no que se achou do achismo achado pelos que perderam antes de ter certeza, porque a certeza é certa e a dívida é duvidosa dentro dos princípios principiantes que regem a minha conduta conduzida apenas e tão somente na grandiloquência grandiloquente que a viagem viajante faz viajar rumo à vitória vitoriosa, porque a derrota é a vitória de quem perde, e a vitória é a derrota que não veio e precisamos com a honra honrosa e a humildade mais humilde aceitar que eu sou quem sou, porque se eu não fosse mim, ninguém seria também. E tenho dito!

 

                                                                                                   Marcelo Gomes Melo

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                            Façamos a evolução, senhores!

 

Vamos liderar a evolução, homens de luta! Não hesitemos em distorcer normas e burlar regras, desconsiderar a ética em nome dos prêmios que poderemos ganhar, no presente e no futuro, cidadãos conscientes da necessidade de exercermos o poder nesse círculo privilegiado de semideuses inatacáveis!

Nós precisamos esgotar todos os recursos naturais em nome da evolução, tramando pela diminuição dos seres viventes do planeta com toda a frieza necessária aos mandatários superlativos da humanidade, habitantes do topo da cadeia alimentar.

Levantem-se, companheiros de fé e de ação! Reconheçamos que somos o lobo do lobo do homem e não pensemos duas vezes em devorar nossos semelhantes abaixo de nós com firmeza de propósito em nome da evolução. Dominar o universo em todos os aspectos, corroer os pilares da razão com voracidade, substituindo por mantras produzidos sob a égide do caos, controlado por nós, donos das rédeas do tempo, insaciáveis guerreiros comandantes da reconfiguração planetária, da condução da maioria das cobaias para o recanto apropriado às suas insignificâncias, submetidas ao destino implacável com o qual nasceram.

Pela limpeza do habitat que incitamos ser sujos e destruídos, agora convenceremos à maioria inerte através do hipnotismo e da cantilena rasteira suficiente para obriga-los a caminhar como gado, zumbis errantes prontos a crer em qualquer palavra e a aceitar a qualquer comando sem raciocinar, porque a incapacidade de pensar os faz inferiores, inabilitados a participar da evolução iluminada, a não ser como lenha para ajudar a queimar a honra, transformar a razão em cinzas e empilhar a civilização em declínio em um abismo irrevogável, criando uma nova sociedade sob o signo do imponderável, da irracionalidade e suscetibilidade superficiais, tornando um “todo” em centenas de “minorias” que batalhem entre si, e que percam sempre, subjugados pelos nossos desejos; nós, os donos da Nova Era; nós, os cirurgiões da modernidade, os líderes supremos e eternos, dirigentes do planeta no qual vivemos e de todo o espaço que nos cerquem sob, sobre a Terra e em torno dela.

Façamos a evolução, senhores! Irretocavelmente sejamos cruéis e mortais, porque não há revolução sem sangue... Desde que se trate de sangue alheio.

 

                                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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                Aos que nunca foram abençoados com o amor

 

A quem nunca foi abençoado com o amor, só posso chamar de cego! Alguém por quem os anjos não sentem perdão, não detectam fé, não utilizam a visão periférica, direta ou indireta ou sobrenatural e não pode ser considerado por isso.

 Surdos institucionais indispostos a ouvir o chamado, aos gritos, ou sussurrados de um tíquete para o paraíso. Não pode haver benevolência com esses seres desconsiderados, que vagam pelo mundo totens em um trem descarrilado com velocidade assustadora e letal

A essas pessoas patéticas só resta o desprezo só resta o desprezo e a impaciência complacente, a acusação muda através de um olhar impiedoso por não terem conseguido perceber qualquer centelha de paixão, amor, carinho verdadeiro que os mantenha afastados da rota de colisão com o sofrimento e a dor por toda a eternidade.

Sem a liberdade se deixam enganar pelos flashes notívagos, instigados por motivação etílica e diversas outras maneiras de inebriar o cérebro levando o corpo a se dilacerar completamente. As emoções enganam e carregam ao cemitério dos espíritos sem comiseração que assombram almas perdidas, que se enganam tomando atitudes erradas, confundindo sacrifício com amor, pena com sobriedade, permanecendo insaciados e insaciáveis enquanto se negarem a enxergar o que lhes pertence por direito.

Que os anjos encarregados por liderar essas vítimas insanas do desconhecimento demonstrem alguma piedade, em algum momento, e permitam que os seus segredos se esvaiam pelo ralo, permanecendo desconhecidos por todos os que poderiam julgar e condenar sem nenhum resquício de bondade no coração.

Não desistam, cães miseráveis sem as bênçãos de amor! Continuem a perseguir o autoconhecimento, sejam solidários consigo próprios, não esmoreçam!

O amor está roçando em você, corpo mortal e cruel, basta encontrar o nível correto de sensibilidade para merecer recebe-lo e, através dele, e só dele, encontrar a paz!

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                            A namorada do criminoso

 

A namorada do criminoso é bela como um entardecer na praia, com seus modos jeitosos e olhares convincentes. Os seus passos tão leves a levam à caverna em que o criminoso se esconde, e então ela derrama sobre ele as bênçãos de uma mulher iluminada.

A garota do criminoso fala como uma escolhida, de voz aveludada, com o olhar baixo o suficiente para denotar submissão, mas o queixo erguido o suficiente para demonstrar superioridade nata, não forçada. Ela costuma passar incólume por entre os ratos que habitam a caverna do criminoso, dividem com ele o lar e a escuridão. Ela jamais reclama, parece não os ver por lá, roendo restos das refeições que entrega religiosamente ao namorado diariamente.

Disso o criminoso não pode ser acusado; não dividir suas rações com os companheiros ratos e demais seres rastejantes que parecem não assustar a princesa flutuante que é sua musa. Ela tem o dom de envolver a carapaça dura e fria do criminoso com suavidade e amor, e controlar com a respiração os instintos mais mortais da criatura.

A mulher do criminoso não o teme. Não teme, também, os algozes que o perseguem, nem os juízes que o julgam, ou os curiosos que o acusam; ignora aos covardes que o incriminam ao mesmo tempo em que o temem. Ou o incriminam porque temem.

A namorada do criminoso sorri bondosamente a seu tempo, distribuindo pílulas de amor como milho aos pombos da praça, nocivos pela inutilidade da existência atual, embora extremamente ativos na antiguidade, mensageiros de boas novas e segredos tétricos.

Ela parece pairar acima de todos os outros seres, e o fato de namorar o criminoso aumenta ainda mais o respeito com que lhe tratam a escória, e também a elite. Só há elogios para suas atitudes e paixão platônica para sua pessoa, já que ninguém ousaria tirá-la do criminoso; não por temê-lo, mas por saber que o amor dela era intransponível, intransferível e eterno. Ninguém jamais poderia competir com o criminoso, cujas boas referências desconheciam, muito menos a capacidade dele de amar, mas por ela ser a perfeição sobre duas belas pernas, exalando perfume francês e ajudando a todos, crentes ou descrentes sem discriminação. Aliás, como poderia? Era a namorada do criminoso!

A namorada do criminoso desfrutava de um status absurdamente elevado, sem almejar nada daquilo em momento algum; ou exatamente por não almejar tanta influência. Namorá-la tornava o criminoso, aos olhos dos outros, alguém com um resquício de alma, digno de habitar as profundezas sem ser definitivamente eliminado da vida em sociedade.

O criminoso deveria agradecer a cada momento pela existência de tão bela criatura que o amava incondicionalmente e acalmava a fera contundente e aterrorizante que ele era desde que nascera; deveria saber que ela era o único anteparo entre ele e o inferno em chamas, e sua luz para o caminho inacabável e escuro da redenção.

Todos amavam a mulher do criminoso. As mais jovens sonhavam imitá-la na postura, na beleza e na bondade, embora não quisessem nenhum criminoso como marido; as mais velhas adoravam a sua devoção humilde, a sua disposição com o namorado, a sua atuação como pacificadora implorando perdão a Deus pelos crimes do desastre que era o seu homem.

Os homens jovens a olhavam com ardor apaixonado, sem ousar dirigir-lhe a palavra, mas todos a homenageavam em seus quartos, à noite, com uma mistura de medo e prazer. Medo e vergonha de que suas mães descobrissem, e pavor indescritível de que o criminoso soubesse! Os mais velhos a cumprimentavam com seus olhares lascivos e sorrisos falsos, escondendo atrás do respeito excessivo seus desejos mais nojentos.

Era unanimidade, a namorada do criminoso. Principalmente quando chegava ao Banco após a visita ao seu homem e abria a sacola cheia de dinheiro, depositando 80% em sua conta secreta e o restante na conta conjunta com o seu namorado. Os gerentes sorriam, babavam e tremiam, hipnotizados por tanta beleza e tanto dinheiro vivo! Os banqueiros tiravam os chapéus e ofereciam café e licor, quem sabe um jantar ao anoitecer, mas ela recusava docemente e se recolhia, tranquila, para preparar-se em seus aposentos para uma nova caminhada ao amanhecer em direção à caverna.

Todos ouviam as notas divinas do piano, tarde da noite, vindas do quarto da figura atraente e superior, e imaginavam com inveja, comovidos, como alguém poderia ser assim abençoada com tantos predicados. Após a peça bem tocada ao piano, a namorada do criminoso recolhia os anéis de ouro que jaziam sobre o instrumento e os recolocava em seus dedos finos e elegantes. Então retirava o peignoir e dormia o sono dos justos em sua alcova macia e gigantesca, sem pensar na caverna em que o criminoso, de olhos arregalados, abraçava o próprio corpo para diminuir o frio e tentava sobreviver uma noite mais.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

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                                        A humanidade em desencanto

 

O ritmo acelerado das nossas vidas empobrece as percepções que deveriam enriquecer individualmente, e que são importantes para o crescimento como ser humano.

Hoje as pessoas envelhecem mais rápido, sem tempo para absorver a experiência de vida que possibilitaria colaborar com as novas gerações de forma natural e eficiente.

A superficialidade tomou conta dos povos, que parecem se preocupar com as coisas fúteis e dispensáveis da vida, e deixam os verdadeiros valores esmaecendo nas prateleiras mofadas da existência.

Uma população inteira sem força de caráter, valorizando absurdos, vivendo de atividades toscas, nocivas, criando uma possibilidade doentia de se sentirem ofendidos por qualquer coisa, enfraquecidos e adoecidos em grupo. Humanidade em desencanto, inimigos do próprio habitat, facilmente dominados e controlados por seres sem escrúpulos, descendo a ladeira em bloco a caminho do inferno.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                                                  À procura de mim

 

Estou sempre me procurando para argumentar comigo mesmo, mas nunca me encontro. Estou sempre em rampa oposta, um subindo, outro descendo, na contramão de mim, razão e sentimentos separados.

O engraçado é que ambos, separadamente, por coincidência ou intenção, me levam ao mesmo pântano escuro, sombrio, lotado de armadilhas, areia movediça, plantas carnívoras, terreno acidentado plantado com bombas e tentáculos mortais. Seria essa a definição de destino?

No limiar da entrada acontece a divergência. A razão me empurra para um lado e os sentimentos para outro, oposto nos mínimos detalhes.

O caminho ofertado pela razão parece mais equilibrado, com uma limpeza indescritível para um pântano, mas igualmente perigoso, de maneira que a lógica poderia me salvar dos meus arroubos de rebeldia e atitudes pueris.

A direção que os sentimentos me apontam são turnos, sensíveis, incrivelmente belos para um local tão assustador. Atraem com um sorriso dúbio, que planta a incerteza em meu ser, mesmo insinuando as delícias infindáveis que atingem o meu corpo frágil e repleto de desejos.

Não consigo conversar comigo mesmo, mas algo me diz que ambos os caminhos darão no mesmo lugar. Basta que eu consiga escapar sem arranhões profundos, ferimentos que me destruam antes que alcance o equilíbrio e a junção entre corpo e alma, razão e sentimento. Seria essa a definição de paraíso?

Não me alcanço e afundo em meus terrores a cada noite, na geladeira da razão, congelando até o amanhecer, confuso com a necessidade de obter alguma coisa que me complete, ou mergulhado no caldeirão dos prazeres a ponto de sufocar querendo um pouco de controle para dominar a mim mesmo e alcançar a tão sonhada perfeição.

Seria isso possível de alguma forma? Ou a procura inacabável é o verdadeiro elo do ser humano com Deus, nadando por águas turvas e descansando nas nuvens, a seu tempo.

Por um ínfimo segundo nossos olhares se cruzam, e, oh, Deus sabe o quanto é lindo viver assim!

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                                 A  rainha tem um bebê!

 

Ela tem um bebê. Um garoto lindo e forte, faminto e curioso, alguém que veio com os seus olhos negros como o oceano à noite para iluminar a vida, anunciando, a partir daquele momento uma vida mais feliz, tranquila e repleta de esperança!

Um bebê de mares tormentosos cercando um ambiente maravilhoso, mas cheio de dificuldades intrínsecas, superadas com tanta simplicidade que enternece a alma de todos os que se dão conta de que o mundo é lindo, uma parte dos seus habitantes é o que atrapalha.

Ela tem um bebê! É uma fada que sabe cuidar com tanto carinho que emociona. O sorriso dela abarca o universo e abençoa o neném, que se sente aconchegado em nuvens de algodão doce; a voz morna de mamãe que encanta e completa o mundo fortalece a criança que devolverá em paixão todo o esforço voluntário para torna-lo feliz e amado incondicionalmente.

Esse bebê lindo sorri para a mamãe, lhe acalma os terrores, faz correr por suas veias novos desejos de se transformar em alguém melhor, saudável, reconhecer o quanto sempre foi amada e que o amor costuma exercer o poder de fazer brilhar, fortalecer e ensinar novos caminhos, antes não percebidos ou não reconhecidos.

Ela tem um bebê! Amor trocado sem dúvidas, canções que embalam o sono reparador, a arte de flutuar pelos locais sem se deixar abalar, mundo próprio que enleva e tudo vira sonho. Ela é linda e tem um bebê! Ambos, em sua caminhada espalharão flores e perfume inebriando aos que a amam incondicionalmente.

Bençãos ao príncipe que, nos braços de sua rainha passeia impoluto pelo Arco do Triunfo, o amor em forma de gente!

 

                                                                                   Marcelo Gomes Melo

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                                          “Cabra do norte não presta”

 

O pau cantando no boteco do Corrupião e o cara continuava sentado em seu lugarzinho, bebendo a sua cervejinha como se nada estivesse acontecendo.

De um lado, munidos de faca e garrafas quebradas, aos gritos e ameaças, um grupo defendia o repúdio à discriminação racial, social e regional provocada por uma fala descuidada e ofensiva de um cínico qualquer. Os adversários, com copos vazios e cadeiras empunhadas faziam a resistência, prontos para a briga feroz, argumentando que a frase dita não agredia nem discriminava a ninguém, portanto, lutariam, chegariam às vias de fato contra acusações exageradas e levadas a sério por conta de excesso de sensibilidade, prejudicando a liberdade de expressão.

Era a demonstração cabal de que o mundo polarizado atingia os lugares mais recônditos, e os seres humanos estavam cada vez mais intolerantes, tornando a vida em sociedade um perigo permanente. Qualquer coisa pode ofender. Seria o fim das piadas, dos apelidos, do tratamento amistoso que caracteriza o brasileiro comum?

Agora as relações humanas estavam esfriando e a dificuldade em fazer amizades, ampliar os círculos de companheirismo, facilitados com o advento das redes sociais agora era um tiro pela culatra, com as posições políticas e opiniões pessoais colocando lenha na fogueira, polarizando a vida e derrubando os posts de flores e frases de autoajuda, hipocritamente alternados com as brigas violentas, ameaças e assassinato de reputações.

O Corrupião, dono do bar, desesperadamente tentava separar a briga e evitar mais prejuízos, arriscando o pescoço para atuar como barreira entre os grupos inflamados. Ele tentava ser eloquente e convencer a todos com o seu linguajar informal permeado de palavras de baixo calão, mas parecia complicado, no momento.

No auge do terror, alguém se lembrou do cara calmamente sentado em um canto com o seu copo de cerveja e bradou em tom de acusação que ele era o responsável pelo início do ódio mortal! Todos pararam com os insultos e se viraram em direção a ele. Corrupião o interpelou bruscamente:

- Você começou os insultos e está aí tranquilo. Não tem vergonha na cara?! Foi você quem afirmou em alto e bom som que “cabra do norte não presta”!

- Sim! O que tem a dizer sobre isso? – perguntaram membros dos dois grupos, irados – Vamos, fale! Por que cabra do norte não presta?!

E ele respondeu, entre surpreso e irônico:

- Dizem que não dá leite...

 

                                                                Marcelo Gomes Melo

 

 

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                         A produção de heróis como meio de expiação

 

A criação de heróis é uma grande maldade com o eleito para carregar esse peso terrível de aglutinar todas as virtudes em um só, tornando-se quase um deus, alguém sem defeitos, infalível em todos os momentos, o exemplo para todos os mortais.

É possível que a produção de heróis aconteça para que o restante da humanidade possa jogar sobre eles todas as frustrações diárias, as incompetências naturais, as falhas e os pecados, aliviando as próprias mancadas com a desculpa de que apenas os heróis são perfeitos, e portanto são eles que não podem errar ou serão apedrejados sem piedade, pura maldade.

Quando julgam e condenam a quem eles mesmos elegeram como heróis, exercitam a hipocrisia humana em seu mais alto teor, pois nesse momento esquecem os próprios erros mais nojentos, as atitudes mais mesquinhas para execrar a quem foi escolhido para ser perfeito, coisa que não foi solicitada, sequer cogitada pela “vítima”, que acaba refém dos próprios conceitos éticos e respeitosos; um humano mais próximo do ideal de conduta que uma sociedade persegue, embora seja impossível, porque todos são falhos, uns mais, outros menos. A exposição das virtudes de um suposto herói é a intenção clara de encontrar alguém a quem crucificar para justificar e perdoar os próprios pecados. Heróis são criados por políticos e pela mídia, que faturarão enormemente nas duas hipóteses: quando exaltado como um ser superior e depreciado como um ídolo de barro, explorando qualquer falha e a elevando à máxima potência. Tudo por dinheiro. A fama e os lucros justificam qualquer coisa.

Hoje heróis são construídos e destruídos cada vez mais rápido; vivem as esferas do poder e a tristeza do ocaso, acabando de forma horrível e sendo esquecidos sem qualquer constrangimento.

Já dizia Raul Seixas, um sábio em suas viagens alucinógenas e alucinadas que ser comum é o ideal, permanecer invisível é o sinônimo de paz, e essa é a tranquilidade mais difícil de conseguir, tendo em vista que a juventude é instigada para buscar a fama, custe o que custar, por ser o meio mais simples de adquirir dinheiro e conforto com mais facilidade, o que é enganoso porque com dinheiro e fama o postulante precisa vender a alma, cercar-se de gente que vai manipular e usar até que nada reste, e no final ainda lucrarão com a morte e o post mortem. Lucro enquanto restar a mínima possibilidade.

Não há heróis! Os indivíduos devem ter consciência e assumir as falhas e erros que todos cometem, sem escudo, sem alguém para pagar por todos e aliviar as mentes pecadoras e hipócritas sempre prontas a sacrificar um herói para aplacar a ira divina com as sacanagens da maioria.

Sociedades são vítimas de um círculo vicioso, alcançam o apogeu e glória por um certo tempo e depois se autodestroem como em um filme de Tom Cruise; e assim segue a humanidade, imperfeita, se recusando a lidar com as próprias falhas, usando as mesmas receitas, obtendo os mesmos resultados decadentes, e só piora.

Mudar essa configuração é mudar a maneira de pensar de toda uma civilização. Parece possível?

 

                                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

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             A guerra dos corações dilacerados por amor!

 

Eu não posso cuidar do seu coração dilacerado de amor que você diz ser por mim! Não tenho como dobrar a carga que suporto carregar assim, e afirmo que é egoísmo de sua parte!

Sequer pensou que também possuo um coração e que sofro da mesma patologia que você, e por você? Não consigo afirmar que o meu coração está mais dilacerado do que o seu, porque confio plenamente que a dor de amor que sinto jamais será superada pela dor de qualquer ser vivo no universo, mas posso entender que amor impossível magoa e tortura, mesmo que em nosso caso seja recíproco, embora complicado pelo impedimento imposto a nós dois pelas nossas consciências, pelas pressões que infiltramos em nós mesmos.

Não existe amor impossível, garota! Existe amor improvável, amor não aconselhável, mas ainda assim são amores indiscutíveis. Assim é o nosso, e discutirmos sobre a dor que cada um sente por não estar junto de forma plena é pura falta de senso, porque o equilíbrio escoa pelo ralo e passamos a debater quem ama mais, e a culpar quem é vítima das dificuldades de repartir a cada segundo esse sentimento puro e letal. O sofrimento vem agregado a essa volúpia que buscamos saciar a cada instante?

Quando nos tocamos a instabilidade termina, nossos mundos se fundem, e não há mais ninguém que pertença a esse nosso novo planeta, que exploramos com cuidado, fartando nossos corpos e pensamentos com experiências maravilhosas, inigualáveis e inesquecíveis. Mesmo assim consideramos insuficientes e estamos aqui tentando convencer um ao outro sobre quem sofre mais, e para quem é mais difícil controlar as impossibilidades e as distâncias, abraçando todo o risco em cada situação que criamos para finalmente ficar juntos.

Eu sei, minha mulher, que cada momento que dividimos é inesquecível, e todas as vezes em que urge nos separarmos, a angústia é indescritível, a ponto de colocarmos para fora como acusação. É por isso que digo sem medo de errar: não posso cuidar do seu coração machucado quando o meu está em frangalhos! Nos limitemos a misturar os nossos prazeres e produzir um bálsamo que, embora passageiro, alivie os nossos corações indelevelmente apaixonados!

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                                                     A dança dos enamorados

 

Essa é a dança dos enamorados, na qual todos os envolvidos lançam mão das mais diversificadas armas da paixão, sensualizando da maneira mais eficiente dentro das próprias características com o intuito de encantar e seduzir a potencial parceria.

A dança dos enamorados envolve um certo ridículo para quem está de fora observando os movimentos muitas vezes desajeitados, mas prontos para participar, largando a vassoura imediatamente e se submetendo aos absurdos da conquista. Não há limites de idade, dinheiro, preparo intelectual... Limite de coisa nenhuma! Basta respirar o perfume do amor, se deixar inspirar, enlevar-se e, tresloucados transmitir vibrações de prazer que, devidamente captados serão a cola que une os corações e as mentes.

O ritmo da dança dos enamorados varia conforme as afinidades, é atemporal e funciona sempre. Está no ar inebriando, influenciando nas ações e reações, permanecendo pelo tempo que os iniciados permitam, espalhando sensações de alegria, felicidade e prazer. As doses cavalares causam atitudes devastadoras, perigosas, porque tudo em excesso é mortal, e dançar permanentemente pode fragilizar ao ponto de partir os dançarinos. Corações partidos são efeitos colaterais inevitáveis, e podem descambar para os fins mais desesperadores.

A recomendação aos dançarinos é para que curtam as loucuras, as delícias até lamber os dedos, porque o momento passado não retorna, então é melhor relembrar o que foi vivido a lamentar o que foi perdido por medo, covardia ou falta de sensibilidade para perceber o que pode ser inesquecível.

Os enamorados mais experientes procuram mudar os ritmos e o roteiro de suas danças anteriores que terminaram por cansaço, ou abruptamente, sem nenhum sinal de que aconteceria. Mudar os passos não garante maior eficiência, mas novas emoções com certeza, o que não significa delícias garantidas, e pode terminar em decepções e tristeza.

A fórmula de qualquer coisa no universo não garante apenas delícias; com a luz vem a escuridão, com a alegria caminha a tristeza, com o calor vem o frio enregelante. Manejar bem as emoções para adquirir mais uns do que outros cabe ao usuário, e o que vai definir as suas vitórias são as próprias escolhas em conjunto com o improvável, o maravilhoso e o inominável.

A dança dos enamorados continua, os dançarinos do amor ajustam os passos, movimentam os corpos, retiram o biscoito da sorte, que está lançada. O melhor sempre estará por vir!

 

                                                                    Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                                            A ocupação

 

A ocupação começou há anos, tanto que nem lembro ao certo como aconteceu, o que provocou e como se deu. Foi um redemoinho de emoções inexplicáveis de ações inconclusivas gerando frustrações absurdamente inquietantes.

Uma ocupação assim, silenciosa é ainda mais surpreendente, invasão alien dos filmes de ficção, porque invade sem estardalhaço, e quando se percebe já era, irmão. Perdeu, playboy!

Aí é uma sequência de olhares furtivos, de mão roçando-se descuidadas, troca de palavras provocativas, sorrisos nervosos... E uma vontade torturante crescendo, dominando, instigando e fazendo ofegar. Transformando quase toda a razão em instinto puro.

E quando se olha em torno tudo o que você vê faz referência ao desejo, à necessidade e ao prazer.

Nesse momento alucinante imagine que a corrente se quebre. A distância se torne dolorosa e tudo o que transcorria para uma memorável conclusão amorosa imensurável se modifique sem acordo, apenas a sequência natural das coisas em um mundo ferino, cruel, insensível.

Mesmo essa distância, entretanto, não apaga sentimentos nem desejos, apenas os conserva em fogo baixo, sem queimar, mas, mantendo brutalmente aquecido, provocando visões espantosas de amor pleno e satisfação gigantesca que faz deitar sobre nuvens e observar o universo do lado de fora.

Finalmente, inesperadamente, um reencontro. Tranquilo, feito com atitudes superficiais, a cordialidade escondendo a selvageria de se apertar, amassar e misturar totalmente, com um “dane-se o mundo” engatilhado para tudo o que não disser respeito aos dois.

Duas almas eletrificadas pelo desejo milenar, sorrindo quase friamente, usando palavras sem sabor, recriminando-se internamente porque não é o que queriam, é apenas o que o politicamente correto exige.

A ocupação, meus senhores, ocorreu há tempos! Não há mais o que conquistar, já está tudo dominado. Em uma hora ou outra essa bomba relógio vai explodir e o tesão se concretizará, pleno, arrogante, atropelando como um trator os anos passados de vontade contida.

Isso é o mais próximo da felicidade? Não, não o é. Haverá longas conversas tentando entender, entremeadas por momentos de carinho, por horas de prazer, por dúvidas incontáveis e até desentendimentos prováveis.

A busca da felicidade completa é eterna. É a felicidade em si, difícil descobrir algo assim. Tempero.

 

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

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                                            Os escolhidos éramos nós

 

A manifestação lasciva daquela mulher sensacional, que sussurrou docemente em meus ouvidos todas as iguarias que a mim aguardavam ao final do dia. As promessas elencadas invadiram o meu pensamento, dominaram todas as sensações e determinaram durante o restante do dia o rumo das minhas atitudes, o ritmo das batidas do meu coração.

Todas as imagens daquela mulher vestida lindamente, caminhando de forma sensual naturalmente, para mim eram um banquete inacabável que gerava superpoderes àqueles que a observavam mover-se com tanto carisma, praticamente flutuando entre os meros mortais, enfeitiçando com o seu perfume, hipnotizando ao molhar os lábios generosamente, distribuindo mistérios ao sabor dos ventos, embaralhando o discernimento de um homem completamente entregue à existência dela, desejando obter cada um dos prêmios descritos por ela tão casualmente, em tom cálido finalizando com um leve toque no ombro com aquelas mãos macias e carinhosas, extensão de um maravilho corpo gerenciando por uma mente nobre e brilhante, a perfeição em forma de espécime humano.

O arrepio que percorria o meu corpo era constante e em diferentes intensidades, a cada promessa relembrada que me levou às nuvens e transformou o meu dia em um doloroso arrastar de horas que jamais chegavam ao fim, para que eu pudesse correr em direção ao prazer que ela representava e já estava em plena ação a partir das palavras emitidas por ela.

Não havia mais possibilidade de concentração em qualquer coisa que não ela; era um dia perdido profissionalmente e um dia ganho de forma pessoal, inexoravelmente.

Aquela mulher declarara definitivamente que eu era dela e ela era minha! Pertencíamos um ao outro e confirmaríamos in loco em breve, embora em meu âmago parecesse séculos.

Aquela mulher, com a sua respiração morna e lábios de açúcar, sexy por destino universal expressara com extrema realidade cada detalhe pecaminoso e particular, reservado apenas aos escolhidos para degustar inteiramente, intensamente prazeres indizíveis, incontáveis e inesquecíveis. E os escolhidos somos nós.

 

                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

                     Entrevista com um condenado interestelar

 

- Eu mato porque está vivo, porque se estivesse morto apenas enterraria.

- Essa é a sua explicação para ceifar vidas?

- Esse é o mantra que, em caso de recepção positiva, se tornará uma verdade universal, justificando a eliminação dos contrários.

- Esse mantra foi criado por você mesmo?

- Não, eu tenho um treinamento especial para executar o que a minha organização determina como vital para a nossa ascensão ao poder. O mantra vem deles, eu não possuo esses talentos. O meu corpo e a minha mente pertencem ao partido.

- E a alma?

- Alma? Não cremos em alma, somos frutos da simples divisão de células. É irrevogável, inegável, impossível de conter.

- Não há crenças, justiça?

- A única crença é no todo comandado por uns poucos. Justiça é tudo aquilo que nos favorece.

- Em caso de prisão pela parte inimiga, quais os procedimentos?

- Negar. Infiltrar os nossos mantras. Negar mais. Acusar. Negar vitimizando. Tentar correr. Destruir... Por fim, como última possibilidade, se autodestruir. Antes que enviem outros para nos destruir.

- A eficácia desse método é garantida?

- Para quem comanda, sim. Para quem sofre a lavagem cerebral, tanto faz. Para quem tenta mudar de lado... Sofrimento eterno pelo que pode acontecer.

- A luta é válida?

- A luta é a única forma de prazer. A razão para existir. Quem não luta é inútil. Quem luta é dispensável, uma ferramenta para alcançar um fim.

- E o que se ganha com isso, algum tipo de glória?

- Não existe glória individual. Não existe glória para acessórios. O todo é a glória, exercida pelos poucos que comandam o todo.

- Amor?

- Ouro de tolos. A emoção mais útil é a raiva. Fomente o ódio por qualquer coisa, inclusive o que desconhece e se tornará uma arma mais eficaz. Amor é fraqueza para justificar a existência do ódio e sua utilização por parte dos inimigos.

- A causa vale o esforço.

- O esforço é o que faz merecer a causa. Sem esforço pela causa você está morto.

- Qual é a causa?

- Ser contrário a qualquer coisa. O favorecimento da causa se reflete nos benefícios dos poucos que atuam no comando.

- Como funciona esse comando?

- Como uma pirâmide. Na base os fanáticos esfomeados; na faixa acima, os controladores, vigias; logo depois os responsáveis pela mídia e garantia de fixação da mensagem, lavagem cerebral. Os líderes dos matadores; e na ponta da pirâmide os responsáveis pelo funcionamento.

- Como chegam ao comando?

- Há requisitos desconhecidos. Obscuros. Os conhecidos são: crueldade, frieza, determinação para a maldade, egocentrismo...

- Obrigado pela entrevista. Ah, uma última pergunta. Acredita em vida após a morte?

- Só se for no inferno. Com licença, a cadeira elétrica me aguarda.

 

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                             Os seres mais asquerosos do universo

 

A insensibilidade vem se intensificando através dos anos, comandando os valores de uma humanidade espezinhada, enganada e vencida pelos detentores da comunicação, que as convence facilmente a optar pela autofagia, corroendo a eles mesmos e balizando a vida nas atitudes mais vis, abandonando os ensinamentos seculares que enraizavam valores mestres que determinavam respeito, hierarquia e consciência de que os deveres alimentam os direitos, para equilibrar a existência.

O planeta vem demonstrando insatisfação pelo modo como tem sido destruído pelos seus habitantes mais cruéis, e se reconfigura ostensivamente varrendo da Terra esses seres que se reproduzem indiscriminadamente e acreditam poder suplantar e controlar a natureza, julgando a si próprios deuses capazes de inventar novos gêneros, leis diferentes, regras horripilantes capazes de modificar a humanidade como a conhecemos.

Ao mesmo tempo ignoram o repúdio do planeta, parecendo não perceber o caminho sem volta que significa destruição irreversível, que faz pensar se esse não é o destino universal repetido durante Eras, com os planetas renovando a si mesmos, organismos vivos e puros, eliminando os vírus que de quando em quando os debilita, voltando a ser habitáveis para novos seres que duram o equivalente à suas capacidades de respeitar as leis universais e criar regras para conter o próprio e inerente apetite por destruição.

A vida é inacabável, imortal. Os seres humanos são vírus mortais que contaminam o ambiente e destroem a eles próprios não antes de corromper e piorar a tudo com que convivem. Falhos por invenção, conseguem fazer aflorar apenas os seus piores instintos, o que os leva à destruição completa apesar de, durante o seu período na Terra encontrem fortes indícios da maldade intrínseca e da ausência de qualidades, suplantadas pela hipocrisia, pela mentira e arrogância.

Reles receptáculos para vida imortal, humanos são morte em potencial, inutilidades em meio a um paraíso repleto de vida e de seres aos quais julgam inferiores, mas que os observam perplexos, incapazes de compreender o talento indescritível para sempre piorar, descer, exercer o seu único direito que é colher a decrepitude como herança de seres mais asquerosos do universo.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                              O amor em uma lápide

 

Não é óbvio que o amor surge e move montanhas. Isso se chama fé. Não é claro que a atração cai como um relâmpago e, como amor resiste a todo tipo de explosão, ficando indestrutível. Isso é loucura.

Não é sensato que o amor vai delinear o mapa da vida, comandando todas as ações durante todo o tempo, sem outros parâmetros que definam os rumos a seguir. Isso é ingenuidade.

O amor é bálsamo e é meio de sobrevivência, desejado por todos, mas encontrado por poucos, a julgar as decepções causadas por ele, de acordo com o depoimento das vítimas. Esquecem o período de luz e alegria vividos durante e guardam a tristeza e a dor para sempre. Isso não é amor, é burrice.

Provavelmente o tempo bom que se considera amor, com diferentes durações, não faça jus ao amor de verdade, que nem é percebido por ser muito mais profundo.

Os que lidam subjetivamente, adjetivando qualquer tesão como amor, qualquer relacionamento passageiro como amor, e parecem ser a maioria, não estarão simplificando, abaixando o sarrafo, diminuindo as expectativas e tornando a maioria em cínicos profissionais e a outra parte em céticos contumazes?

Ninguém pensa objetivamente sobre o que seria amor, excetuando-se os cientistas, atentos a fatos e não a subjetividade. Por isso tais estudos sempre serão insuficientes e não combinam com o que o amor é.

Poetas e apaixonados criam definições maravilhosas, imortais, estimulantes e perfeitas; mas estão sob os auspícios da felicidade gigantesca ou das dores atreladas ao amor para produzir tais pérolas, então a validade fica questionável, embora combine com o que a imensa maioria dos loucos de amor sentem e apregoam indiscriminadamente, passando vexame sem se importar, perdendo o controle das emoções a ponto de viver o ridículo e afirmar ser culpa única e exclusiva do amor.

No fim de tudo, o amor é indefinido por natureza. Pode ser bom ou nocivo, libertador ou aprisionador perpétuo, lindo e terrível... Há que se reconhecer que a definição é impossível, serve apenas momentaneamente, de acordo com a sensação que embala os que vivem. Mais simples dizer que o amor transcende as reações, ultrapassa o momento, supera o desespero, vence as improbabilidades, doma a inconstância e permanece incólume, mesmo que não se imponha durante muitas situações.

Amor deve ser aquilo que permanece ao lado da esperança, o que continua tatuado em qualquer pessoa sem tirar dela o gosto da realidade, que nem sempre permite que ele floresça. Amor deve ser a moldura da vida, cercando a todos sem necessariamente ser alcançado.

Em uma lápide receberia a seguinte inscrição, porque não morre ou porque ressurge: “Não se sabe...”.

 

                                                                                                      Marcelo Gomes Melo

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                      O amor proibido jamais será suficiente

 

Todo mundo deseja um amor proibido para sofrer e ficar excitado, imaginar as mais quentes baladas, comer spaguetti frio no tapete da sala. Transar através do olhar, trocar insultos ao invés de beijar. Renegar os pecados ainda nem cometidos, tentar punir-se por pensar em coisas gostosas...

Amores proibidos platônicos inserem novos viveres, realizações impossíveis que, por serem impossíveis aproximam-se perigosamente do real. Todo mundo guarda um amor proibido para sair da rotina, sentir o coração acelerado e as pernas tremendo, trocando olhares de supermercado, sem razão de ser, quando se olha por olhar, mas por dentro...

Amores difíceis com canções insistentes tocando nos momentos mais inapropriados, situações embaraçosas sem que o resto do mundo o saiba, mas o medo de dar bandeira é enorme, mesmo que não haja a mínima chance, a não ser que os mesmos se denunciem. O amor de faz de conta jamais será suficiente, diz a canção, porque no fim tudo se torna real, e ao tornar-se real compromete todos os desejos, modifica todas as chances e o jogo prossegue, causando sorrisos e decepções, intrigando por ser eterno, resistindo aos séculos, provocando casais, espalhando memórias que durarão uma vida inteira mantendo acesa a lanterna da esperança de que algo finalmente se complete; mas aí deixará de ser proibido.

Todo mundo deseja um amor proibido para sofrer e ficar excitado, imaginar as mais quentes baladas, comer spaguetti frio no tapete da sala. Transar através do olhar, trocar insultos ao invés de beijar. Renegar os pecados ainda nem cometidos, tentar punir-se por pensar em coisas gostosas...

Amores proibidos platônicos inserem novos viveres, realizações impossíveis que, por serem impossíveis aproximam-se perigosamente do real. Todo mundo guarda um amor proibido para sair da rotina, sentir o coração acelerado e as pernas tremendo, trocando olhares de supermercado, sem razão de ser, quando se olha por olhar, mas por dentro...

Amores difíceis com canções insistentes tocando nos momentos mais inapropriados, situações embaraçosas sem que o resto do mundo o saiba, mas o medo de dar bandeira é enorme, mesmo que não haja a mínima chance, a não ser que os mesmos se denunciem. O amor de faz de conta jamais será suficiente, diz a canção, porque no fim tudo se torna real, e ao tornar-se real compromete todos os desejos, modifica todas as chances e o jogo prossegue, causando sorrisos e decepções, intrigando por ser eterno, resistindo aos séculos, provocando casais, espalhando memórias que durarão uma vida inteira mantendo acesa a lanterna da esperança de que algo finalmente se complete; mas aí deixará de ser proibido.

 

                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

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                             As mulheres que controlam o mundo

 

As mulheres são estranhas, dizem uma coisa e fazem outra. Tentam adivinhar o que pensamos e nos recriminam porque têm a certeza de que o que elas pensam que pensamos é errado.

Nos fazem uma pergunta e, antes que tenhamos a chance de responder, respondam por nós, e insatisfeitas com a resposta que deram, brigam!

Se retrucamos, ficam ainda mais ariscas, mas, quando calamos para evitar desgastes, a fúria triplica e então chovem imprecações, reclamações, choro e auto depreciação, até que nos sentimos culpados. Do quê? Nem sabemos! Elas manipulam o cérebro e a imaginação de um homem, que, quanto mais inteligente se submete.

Os que costumam resistir o fazem com virulência e perdem a razão, colocam-se no caminho da guilhotina com mais facilidade, e tentam não demonstrar o quanto estão destruídos por meios indignos, como a bebida, por exemplo, ou a violência. Esses são os ogros dominados pela falta de imaginação, terminam pateticamente arrasados pelos artifícios femininos.

As mulheres sempre controlaram o mundo e sempre o controlarão, de maneira direta ou indireta, com a multiplicidade dos seus pensamentos e ações, com as sutilezas que as tornam invencíveis em um mundo masculino.

Um mundo masculino que não sobreviveria sem a arte e a força da mulher. Um mundo de fantasias em que todos assumem e interpretam os seus papéis. Os homens fingem que dominam e as mulheres fingem que são dominadas. Presa e predador se confundem e se imiscuem, fazendo girar a grande roda da existência.

O equilíbrio, entretanto, dá-se pela competição entre as mulheres. Umas desafiam às outras e isso dá a chance de nós, homens, alcançarmos uma posição mais ou menos segura, escravos dissimulados, transformados em senhores de absolutamente nada.

O homem que é escolhido pelas mulheres certas tem a impressão de que escolheram e acham que decidem os rumos da vida sozinhos, portanto são fortes e importantes. Os que perdem a supervisão de suas mulheres desabam velozmente e são colocados à margem como canalhas desprezíveis, criadores das maquinações mais tolas e ridículas.

Hoje a sociedade procura expansão de gêneros, tentando compartimentalizar pessoas, ideias e ideais em nichos, com intenção de controlar a tudo e a todos mantendo-os em guerra permanente uns contra os outros. Não existe paz, e esse é o truque do século para mudar regulamentos importantes, enraizados, que propiciam a evolução constante. Mudando completamente as regras, transforma-se a sociedade, e o risco iminente de as mulheres perderem o controle por causa da falada diversidade fica cada vez mais perigoso.

Cabe às mulheres que controlam o mundo perceber que, nem elas, nem os homens terão controle ou harmonia, na próxima configuração de humanidade que se apresenta. Será a isso o que definem como final dos tempos?

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

                                                    Ignóbeis sensações

 

Eu me afundava em seus cabelos escuros e absorvia aquele perfume suave; permitia a mim mesmo inebriar o meu cérebro ao ponto de parecer patético como um passarinho alimentando-se de sobras, aos poucos, sem nenhuma outra intenção contumaz.

Quando me dava conta reclamava da ausência de retorno, ela era indiferente a arroubos sentimentais, vivia de diversão momentânea, corroendo sentimentos puros como se degusta amendoim em um parque, sem pensar muito nisso, descartando as cascas com o pensamento longe.

Ninguém se satisfaz. Cobram coisas um do outro impossíveis de obter. Ela pensa friamente, aceita mentiras de amor e ignora o troco, simplesmente vai embora para outras percepções, conhecimentos, um tipo de felicidade seca, que se parte no meio do prazer, deixando a nítida sensação de que não foi o suficiente culpando a vítima por não concluir os desejos individuais de quem não pretende retribuir.

Pensar nisso enquanto o espaço entre os corpos se encurta é simplesmente impossível; todos os que tentaram foram derrotados, saíram desapontados e se achando injustiçados.

Não percebem que ela, que controla os botões da situação sai tão ferida quanto, mas não consegue consertar porque se acha a única vítima, não notando o rastro de sangue que lhe segue pela estrada infindável.

Amor? Não há. Prazer? Talvez, caso consiga definir. Confiança? Nenhuma, a não ser na chegada mais cedo ao precipício, ou mais tarde, para prestar contas sabe-se lá a quem.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

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                                                      Incomunicável

 

Incomunicável. Fazendo tranças nos cabelos para não esquecer a quantidade de inimigos que deveriam ser abatidos por atos de traição e covardia. Afiando a navalha do vocabulário para destruí-los com argumentos invencíveis, insultos enigmáticos, deixando a sensação de inferioridade a quem supunha estar anos-luz do restante da humanidade, mas estavam apenas sendo arrogantes, ingênuos e intragáveis.

A cada gole de água pura um sorriso amargo fruto de pensamentos ruins contra os adversários do povo, os cínicos populistas dispostos a qualquer coisa para manter o status. A cada respiração profunda um pensamento impuro a ser realizado com aquela que provocou o tempo todo mesmo sabendo das consequências futuras, do perigo de brincar com quem não se conhece o suficiente para se ter o controle inútil em circunstâncias tão debilitadas que repartiria a dor em pedaços desiguais; alguém sempre sofre mais. Não corra, não morra.

Sob o sol, sob o céu, com os olhos fechados e a mente aberta para o desconhecido, despido das emoções fabricadas, submetido às emoções verdadeiras, um choque da existência material com a existência espiritual, corroborando uma reles subsistência emocional, colocando-se com um ser insignificante frente a um universo tão poderoso que permite que as coisas simples, portanto perfeitas sejam vistas como o são, sem causar transtornos filosóficos nem teorias insanas; isso fica para os detratores do óbvio, a quem se deve negar o benefício da dúvida para que se debatam como um peixe fora d’água, procurando um habitat há muito poluído e modificado, condenando-os ao esquecimento mais doloroso. Jamais existir por nenhum feito, sequer através de uma enorme burrada científico-filosófica sem valor algum, a não ser juntar quadrúpedes incapazes de qualquer raciocínio, límpido ou não.

Incomunicável. É o prêmio por conseguir afastar-se da mediocridade sem fazê-los perceber o motivo, sem ofendê-los com a realidade. Exaltando-os silenciosamente como o rei dos tolos enquanto existirem e insistirem.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                          A noite mais escura da vida

 

A noite está tão mais escura! O vento quente que se abate sobre mim não carrega, apenas cozinha, os meus pensamentos de tristeza mortal.

Todos os rios que correm através da cidade são como veias em meu corpo transportando sangue pisoteado e coagulado, levando-nos ao fim. Não há saída para os horrores que nos atormentam!

Soldado até o fim, aperto o punho da espada com ódio, mas, algo me impede de buscar por justiça rápida. Acreditar ou não é tarefa hercúlea quando se trata de paixões rebuscadas, talhadas em mármore frio que ofusca a visão com o advento inclemente do sol.

O meu corpo que jamais pertenceu senão à bela dos séculos agora treme e suplica por vingança soberba, hostil, inesgotável. Apenas a minha mente sóbria, ligeiramente empanada pela dor poderia brecar os movimentos rústicos, destruidores que saciariam o meu desejo por sangue.

Ah, se fosse possível descobrir a verdade além da realidade é sanar todos os tormentos com apenas um golpe! A força é suave e estrondosa, um terremoto seguido de ondas terríveis destruidoras, que arrasam impiedosamente por onde passam sem remorso, sem sentimento, apenas algo que deve acontecer.

O brilho dos meus marejados olhos não contém as piores sensações que tive comparadas aos momentos inebriantes e felizes que tenho vivido através dos tempos.

A noite está tão mais escura por sua causa! O frio que me acomete é tanto que magoa os ossos, porque você não vem! Você não virá e eu estarei até o final dos meus dias aqui, como um soldado sem batalha, a espada em repouso, a mão crispada na empunhadora sem expectativa de felicidade.

No fim o que sobrou para os valentes, como eu? A cama vazia, o templo vazio, a mente vazia... O crepúsculo anunciará boas novas? Ou os terrores causarão ainda mais desencantos?

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                          O preço para a imortalidade

 

Elisa, não se esqueça que as pessoas morrem de amor, ou por amor, mas o sofrimento jamais as mata, só torturam infinitamente.

Nunca há luz no fim do túnel porque no meio do caminho há um abismo que lhe engole e lhe faz sucumbir ante a isca mais fácil de usar: a luz.

Esse seu olhar de “porque você não se suicida para evitar que eu o mate e vá para a prisão” não me comove nem um pouco, eu defendo os meus argumentos com bases fortificadas e dou garantia do que afirmo, tendo em vista experiências pessoais assombrosas.

Também lhe digo, querida Elisa, que tais experiências não me eliminaram convívio humano apenas porque eram puro sofrer, dor e mágoas bem distribuídas pelo tempo e significado.

O sofrimento purifica a alma, dizem, mas as cicatrizes mascaram a ira com que se vive, contendo ao máximo a vingança, rangendo os dentes e esperando que o troco seja bem aplicado por parte de outras pessoas, justamente porque é impossível a alguém retaliar sem se transformar em um vilão no olhar do restante de almas hipócritas e julgadores, não importa a razão que se tenha.

Reitero, Elisa, minha santa, que o sofrer adora vir em doses constantes, mas não tão forte que lhe tirem os sentidos, ou não haveria razão para acontecer.

Por essas e outras razões venho através desta confirmar o meu fim próximo, o meu afastamento da horda de sofredores, porque em breve descerei a rampa dos condenados em direção ao hades, a caminhada final, e serei esquecido de pronto sem saber se esquecerei da mesma forma, ou continuarei a remoer um amor rejeitado para todo o sempre.

Essa é a minha declaração, Elisa, de óbito e de amor por você, o que confirma a minha teoria e me faz partir vencedor dessa vida incoerente. Morrer por amor é plenamente possível, até esperado. É esse o fim que todo amor tem. Mas o sofrimento, Elisa, ah o sofrimento! É o preço que se paga pela imortalidade!

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                                    A forca na varanda

 

Havia uma forca na varanda. Pelo menos era o que parecia daquela distância, ao anoitecer vista da casa do outro lado da rua. A iluminação era precária, só se via uma vela tremular através da janela, o resto era escuridão.

Aqueles metros de corda pendurados na varanda com o que parecia ser um laço na ponta chamou a atenção dos vizinhos da casa frontal, tendo em vista que o ermitão que lá morava mal era visto à luz do dia, carrancudo e arredio, claramente sem intenção de socializar com os vizinhos curiosos.

Eram casas construídas em suas fazendas ou sítios, longe umas das outras, o que facilitava a intenção de não interagir com ninguém do homem que lá morava. As crianças o tinham em conta como um velho rabugento que jamais devolvia as bolas intactas quando acidentalmente caíam dentro de sua propriedade. Voltavam murchas, esfaqueadas, sem uso para o esporte que praticavam.

O homem barbudo de cabelos longos e grisalhos trajava sempre camisa branca de mangas dobradas e suspensório em vez de cinto para segurar as calças no trabalho. E as botas de vaqueiro completavam o visual. Era algum tipo de psicopata, diziam as mulheres umas às outras, e evitavam falar com ele, convidá-lo para algum bazar beneficente na igreja.

Aos homens restava a teoria de que ele sofrera alguma desilusão amorosa e não queria mais contato com as mulheres em geral.

A forca só era vista à noite, quando a vela acesa na janela da cozinha tremulava açoitada pelo vento, causando um efeito aterrorizante.

Será que o homem iria se matar? Tinha mesmo cara de psicopata, diziam alguns, torcendo para que seja lá quem fosse não tivesse ouvido o copo cair estilhaçando-se no chão da cozinha.

Apostas passaram a ser feitas na casa da frente, em que as pessoas sentadas nos degraus bebendo cerveja propositalmente tentavam, invisíveis, descobrir qual o motivo da tal forca na varanda.

Usavam binóculos e filmavam com os seus celulares, procurando uma história excitante que culminasse em suicídio ou coisa que o valha.

De dia, ao transitarem disfarçadamente de um lado para outro na frente da casa, nada enxergavam que pudesse refutar ou concordar com as teses. Nada de corda pendurada durante o dia, nada de vela acesa, nada de viva alma naquela residência assustadora.

Um ritual satânico foi cogitado; uma brincadeira de mau gosto para zombar da curiosidade deles também foram citadas na lista de motivos para aquela cena que se repetia todas as noites.

Virou rotina e os vizinhos foram perdendo o interesse no jogo; já não se sentavam à noite para observar a vela tremulando nem a peça de corda que lembrava uma forca.

Eis que uma manhã dessas acordaram com inúmeros carros de polícia isolando a área em torno da casa e um corpo pendurado pelo pescoço balançando ao sabor do vento, pescoço quebrado, asfixiado, morto, suicidado finalmente.

Os vizinhos trocaram olhares e contaram à polícia tudo o que sabiam sobre a forca na varanda, mas não tinham uma palavra sequer de conhecimento sobre o homem que tirara a própria vida daquele jeito, um solitário a mais no mundo, sem amigos, sem família, sem ninguém.

Na noite seguinte não havia mais corda na varanda; muito menos vela tremulando naquela casa. Apenas escuridão total e completa.

Os vizinhos passaram a conversar e beber como antes, só que agora com a luz acesa, esquecidos rapidamente do que acontecera do outro lado da rua.

É, as pessoas perderam mesmo a capacidade de se emocionar...

 

                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

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                      Sob o signo dos ferimentos incuráveis

 

Um homem deve conviver com a sua planificação malfadada, com os seus enganos teimosos e falsa convicção que o leva às entranhas de suas falhas, para que sobreviva, saindo de um labirinto, como Teseu, só que criado pela sua própria alma, que o obriga às decisões mais polêmicas.

A juventude oferece energia para que se esmurre pontas de faca e, com orgulho siga-se ladeira abaixo sem perceber as bobagens que se comete em nome da falta de experiência e ambição desmedida.

Com o passar do tempo, o envelhecer oferece marcas indeléveis que servem para lembrar dos erros e não mais cometê-los, ou reaviva-los com a mínima possibilidade de superar e considerar-se um vencedor.

Vive-se uma época em que a juventude é exaltada como mais importante do que o conhecimento, a capacidade de regar para manter os frutos já conquistados como base para as escolhas futuras, as novas descobertas sem o uso de inteligência prévia para evitar problemas pode destruir mais do que colaborar com o que já foi conquistado.

O desprezo pela história vivida e eternizada insere no presente extrema dificuldade na convivência social em que os mais velhos são colocados à margem, como se a colaboração preciosa não fosse o bastante para que sejam considerados. Tentam conquistar tudo do zero sob uma perspectiva totalmente nova e desconhecida, com falhas inerentes que causarão caos e destruição, até que as ideias envelheçam e adquiram ajustes; mas então novos jovens arrogantes desprezarão as ideias maturadas e um novo ciclo se iniciará, obrigando a uma população inteira a viver sob o signo do engano e dos ferimentos incuráveis.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

 

        Quando a luta para não pensar racionalmente é motivada pela chance de brilhar

 

As cicatrizes que carrego hoje em dia parecem invisíveis para o resto do mundo, mas se fazem presentes violentamente, impiedosas, magoando na mudança de tempo e temperatura, me instigando a tomar atitudes pouco recomendáveis para alguém que aparenta tanta segurança e tranquilidade na arte de interagir socialmente.

Inspirar fundo revigorando o corpo com oxigênio limpo, permitindo aos perfumes naturais invadir a alma e conectar o pensamento a um grande vazio, geralmente associado à morte e ao esquecimento, mas realmente aconchegando a um limbo natural que enriquece e revigora para o retorno à rotina diária que, sem esses benefícios, murchariam e sumiriam do centro das atenções sociais que significam status e eficiência.

O truque é não se deixar cair na armadilha de tentar esconder as dores e vender uma falsa alegria plástica e inodora, que pode causar inveja momentânea, mas a longo prazo se mostra patético e constrangedor.

Valorizar as conquistas só é possível curando as feridas das batalhas, reconhecendo as dificuldades e honrando o adversário sem arrogância e antipatia.

As cicatrizes podem ser sentidas por quem as toca suavemente, sem medo ou asco, reconhecendo o heroísmo e verificando beleza na arte de carrega-las com dignidade.

A procura da perfeição estética é inútil, visto que a beleza é ímpar e de escolha individual, portanto a tentativa de criar e obrigar a aceitação de padrões gera idiotas. E a coisa piora quando esses escravos abrem a boca e justificam plenamente a possibilidade de não serem considerados seres pensantes.

 

                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                                         Receita para localizar aliens

 

Caminhe aleatoriamente pelas ruas lotadas das grandes cidades, observando disfarçadamente o comportamento, as reações e a estética dos transeuntes. Lembre-se de não chamar a atenção de forma alguma; não demonstre surpresa nem encare durante horas, ostensivamente, deixando claro haver percebido recortes surreais sob a aparência quase humana e o comportamento impactante. A seguir alguns exemplos mais comuns do que parecem que você jamais se deu conta.

Cerca de 1,60m, pele esverdeada, cabeça enorme, desproporcional ao corpo de ombros estreitos, sem pescoço, sobrancelhas hirsutas, coladas uma na outra; olhos esbugalhados, boca grande de lábios finos, joelhos grandes, canelas secas, pernas curtas. Braços enormes com as mãos tocando os tornozelos, pés chatos com dedos separados, voz esganiçada com sotaque forte, dialeto diferente e andar balanceado, firme como o de um pinguim. Pensou nisso? Ah, mas você descreveu um retirante nordestino da zona da mata sofrendo de hepatite. Ou um alien perfeitamente entrosado entre nós, ajudando a construir um país moderno de prédios altos e extravagantes?

Mulher de cabelos louros em formato de moita, provavelmente coloridos artificialmente, pele pálida disfarçada por camadas e camadas de maquiagem, lábios e bochechas ligeiramente distorcidos pela aplicação de Botox, olhos claros como o céu, frios como gelo em formato de borracha sendo esticada fortemente para os lados; alta e magérrima, com pés pequenos demais para a altura e saltos finos impossíveis de equilibrar um humano na vertical, muito menos andar, dobrando os joelhos e movendo o pescoço para a frente e para trás ao mesmo tempo, tal e qual um ganso caminhando, usam roupas coloridas que ajuda a camuflar no ambiente, tirando a atenção da aparência bizarra, hein, hein? Uma modelo antiga tentando se manter na moda ou um outro tipo de alienígena circulando livremente entre nós, com uma agenda definida da qual não fazemos ideia?

E aqueles seres enormes, loiros, com cabelos de plástico e bigode ralo, orelhas largas e moles, mãos enormes e frias, vestindo gola alta e caminhando com as mãos nos bolsos, pés enormes e finos de passadas largas, que parecem sempre estar olhando para todos os lados, desconfiados, levando embrulhos suspeitos ou falando ao celular enquanto fumam cigarros estranhos no meio dos viadutos. Não lhe chamam a atenção? Trata-se de mais um vendedor de automóveis inocente ou um conspiracionista intergaláctico no nosso meio, tramando a dominação final do planeta?

Já observou a si mesmo no espelho, antes ou após o banho? A pele borrachuda molhada, aparecendo impermeável, os dedos das mãos grossos, as palmas como pergaminhos antigos com uma mensagem ainda não decifrada que desvenda o seu propósito na Terra? Não?! Os sonhos estranhos dos quais lembra parcialmente e parecem tão reais, um dejavu permanente que te incomoda por pouco tempo antes que retome o ritmo e esqueça dos questionamentos?

Seria você um alienígena convencido através de lavagem cerebral ser um terráqueo comum reclamão, chorão e, irremediavelmente astuto para coisas bobas, mas raso intelectualmente para acreditar na falsa profundidade de filósofos ateus que gritam “meu Deus” sempre que perdem o ônibus ou o elevador?

Seremos todos aliens em um planeta Terra cuja real população, a original seja aquática simplesmente porque há mais água do que terra no planeta?

E se formos todos aliens buscando um sentido em ser terráqueo inutilmente, por um período de vida insuficiente para descobrirmos alguma pista correta?

Há que se ter muito tempo e falta do que fazer para perder momentos preciosos em tais teorias conspiratórias, embaraçosas e engraçadas. Ou não?

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

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                      As piores pessoas no comando do mundo

 

Todos desejam opinar, mesmo que desconheçam o teor do fato a ser opinado. Querem se inserir em um contexto o qual desconhecem, pré-julgam com enorme facilidade, e a desculpa não é a mesma em caso de erro, exagero e engano. A intensidade desabafa e a vida segue como se nada houvesse acontecido, as reputações abaladas e assassinadas sem volta, e a sanha de destruição odiosa cada vez mais veloz segue incólume, como se nada tivesse acontecido.

Opiniões baseadas no “ouvir falar”, conspirações que se espalham como fogo no matagal apenas por atingirem gente despreparada para entender o que está acontecendo, analisando friamente os fatos, oferecendo o benefício da dúvida para evitar linchamentos morais impiedosos que não terão mais volta.

A fama suposta que se obtém crucificado as pessoas apenas para fazer parte da maioria fica cada vez mais atraente para os seres invisíveis que não querem passar a vida inteira sem alguns segundos de fama, mesmo que isso custe decisões enganadas que causam muito mal e destroem, esmagam as vítimas sem nenhuma piedade.

O senso de justiça está morto e enterrado, as decisões são tomadas pela régua da maioria, dos que gritam mais alto e não demonstram o mínimo escrúpulo na arte de respeitar ao próximo. Hipócritas apregoam as próprias virtudes ignorando o dobro de defeitos que têm, incapazes de viver honestamente, sem inveja, sem julgar os outros pelas próprias atitudes.

Não há como fugir desses escravos mentais que torturam seus pares apenas para ter o que falar, e nada melhor do que subir usando as pessoas como degraus, sorridentes e indiferentes como se nada tivesse acontecido.

Quem ostentar mais, fazendo cara de humilde e voz sepulcral lendo pronunciamentos repetitivos, prolixos, imprecisos e mentirosos, largará na frente com maiores chances de superar os menos espertos.

E a maldade se espalha nesse tom, criando novas formas de matar, e insensibilidade para perceber que a maioria que mata não é sobrevivente, é um grupo de sacanas desavergonhados que comandam o mundo da pior maneira possível.

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                    O amor ciumento com o passar dos séculos

 

Cruel e maldoso, possessivo e belicoso. Sempre disposto a implicar e exigir, a pegar e demonstrar, por vias tortas, os sentimentos certos.

Mordaz e insensível, insensato e sensitivo, embaralhando as cartas marcadas como se dependessem da última vida, não aceitando argumentos, declinando desculpas, acusando bravamente, sofrendo e fazendo sofrer.

Um poder ilimitado de desconfiar, entender errado, bradar suas teses sem aceitar contra argumentos, loucura patética e insônia voraz. Ódio contumaz momentâneo, garrafas e garrafas de álcool esvaziadas, canções de teor duvidoso e lamentação vergonhosa.

Ameaças infundadas, dias escuros, dores de cabeça, juras de morte e fuga da maturidade. Admissão parcial de culpa, conversa atravancada de olhos baixos e acusações veladas que podem reacender repentinamente a fogueira das vaidades, a tentação de sobrepujar ao outro mesmo que isso vá causar tristezas pessoais intransferíveis, como tomar veneno e esperar que o outro morra.

Acabrunhar-se por dias, escorando-se nas amizades para desabafos homéricos em troca de tapinhas nas costas e um “vai ficar tudo bem” ensaiando e constrangedor.

Um arremedo de violência contra a outra pessoa, não concretizado, transferido imediatamente para si mesmo com promessas vazias de suicídio, envenenamento, residência incendiada... Ida para o inferno por escolha própria em busca do sofrimento eterno e da dor irreparável.

Tudo muda, entretanto, em piscar de olhos, quando uma frase combina subitamente, um pedido de desculpas febril é sussurrado, de ambas as partes, o choro se transforma em sorrisos e promessas de reconciliação eterna, que jamais será abalada por qualquer bobagem, o sol voltará a brilhar e o orgulho retornará aos corações e cabeças erguidas, de mãos dadas pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

Isso, meu caro, é o amor enciumado, a insegurança espalhada e disseminada relacionamento adentro, a necessidade perene de confirmação de fidelidade e amor recíproco.

Bem, isso antes da Era do feminicídio, do machocídio e outros neologismos bizarros com os quais a sociedade tem que aprender a lidar até que novas modas se insurjam no dia-a-dia a ponto de abalar as regras implícitas dos amores problemáticos.

Os séculos se atropelam enquanto as diferenças mudam e a batalha se acirra por ideais recém construídos por novos idiotas. Mais do mesmo, sobreviva a isso quem for mais apto.

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                   A permanência sob os temporais

 

Eu quero permanecer sob a chuva, o mundo está tremendo como os meus sonhos. Aturdidas, as pessoas procuram lugares em que se esconder para observar os raios e sentir os estrondos dos trovões impiedosos, atestando que há algo de beleza no que, ao mesmo tempo é assustador.

Eu vou permanecer sob a chuva densa que empana os olhos e massageia o lombo sem pesar, lavando a alma, esquecendo coisas, percebendo que a maior importância reside naquele exato instante e não no que compõe a vida, passado e futuro.

O momento que desnuda o ser, uma raridade em uma sociedade oposta; a verdade é que esses momentos acontecem diversas vezes, mas poucos têm a coragem ou o interesse em reconhecer, porque equivaleria a assumir uma enorme mudança, uma guinada total, sem concessões para o restante da existência.

Sob a chuva, o temporal, nada importa se você acreditar que o sol logo estará misturado, e em sequência assumirá o comando por um bom período. O sol é a realidade mais comum, não assusta as pessoas e costuma cobri-las com qualquer surpresa. Os temporais também acontecem para todos, mas não costumam ser abraçados por todos, encarados de frente e superados como é feito com o sol.

Eis que pretendo confrontar os temporais, tirar o melhor das minhas dúvidas, sobreviver à escuridão momentânea que pode assombrar por um período, mas jamais para sempre, e o resultado sempre dependerá da força interior, das escolhas pessoais, do imponderável que é estar sob a chuva, só, feliz, triste, igual.

 

                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                   A imensa vontade de destruição

 

Julgamentos são feitos o tempo todo, como se fosse direito adquirido decidir as mazelas alheias, sabendo ou não do teor verdadeiro pelos quais atravessam o dia-a-dia.

Cumpre lembrar que humanos são julgadores em potencial, e o fazem sem o menor pudor, desencadeando tragédias e reputações destruídas justamente pela velocidade com que impulsionam o desejo de reprovar e repreender a quem quer que seja, com informações superficiais e insuficientes, mesmo que tivessem o direito de fazê-lo, o que é impossível.

Decidir o rumo da vida dos que se expõem virou atração diária nos meios sociais, assassinatos de reputação acontecem sem nenhum cuidado, e se o erro for apontado, é feito em escala muito menor, permanecendo a marca no indivíduo mesmo que inocente do que foi acusado.

Ninguém se importa com ninguém, vivem em ataque e destilam hipocrisia em larga escala para satisfazerem o próprio ego. Há algo em comum nesse tipo de gente: todos querem ir para o céu. Escondem os seus defeitos a sete chaves e acreditam que são melhores e não devem ser julgados da mesma forma que julgam, porque o deles são apenas deslizes, e o dos outros pecados mortais.

O que era certo transforma-se em errado, e o que era errado ganha tolerância com os argumentos mais odiosos e desprezíveis que se pode imaginar.

Gente tomando atitudes com intenção de chocar a sociedade e conseguir dividendos com isso, status e inclusive seguidores fiéis dispostos a crer no absurdo e aceitar o bizarro, transformando a sociedade em um imenso círculo em que se bate palma para louco dançar.

O anormal vira norma, e o comum precisa ser exterminado. É a descida desgovernada em direção ao final dos tempos, com malucos sorrindo e dizendo asneiras tanto quanto se respira. Não existem regras de convivência, apenas uma imensa vontade de destruição.

 

                                                  Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                                Amor em tempos de corte no orçamento

 

Nada de motel. Nada de jantares em restaurantes caros. Nem baratos. Nada de jantares à luz de velas, nem de lanternas. Nada de lanches no McDonalds. Nada de presentes de aniversário, de dia dos namorados ou lembrancinhas de qualquer tipo. Esqueça.

Nada de viagens para perto, longe, de trem, ônibus, jegue ou a pé. Nem pense em bebidas chiques, comidas gourmet, sequer farinha de mandioca com mel de abelha.

Viveremos de amor! Surfando nas nuvens da fome, nadando nos oceanos de prazer da inanição, sambando nas churrascarias veganas, sonhando com as feijoadas do tesão e macarronada do casório perfeito!

A nossa vida em uma choupana que não abriga da chuva e não protege do frio, deitados sobre folhas de bananeira, bebendo água dessalinizada artesanalmente e comendo peixe sem tempero, banana verde e sopa de pé de pombo será abençoada por Deus e bonita por natureza, mas que beleza!

O nosso amor de cada dia abominará a rotina, pois a cada dia nos reservará surpresas inesgotáveis. Catar latinhas, cobre e papelão trocando olhares hipnotizantes de paixão, dividir a fila do SUS com sorrisos ternos, de mãos sujas dadas, fedendo a porco molhado, sem saber o que é um banho há meses...

Ausência de reclamações, lamentos, acusações ou atitudes mimadas explicitamente pela falta de forças e energia. O amor tão resistente quanto o vírus da gripe, capaz de atravessar barreiras e empalidecer a qualquer um.

Os olhos mortiços e nublados emprestam um artifício novo que possibilita enxergar uma beleza que só pode ser exterior. Uma vida de abstinência às armações midiáticas que lhe fazem consumir desesperadamente, sendo enganados a um ponto de não sobreviver sem os vícios dos produtos novos, dos lançamentos tecnológicos e novidades politicamente corretas que ajudam a disseminar a hipocrisia universal.

Quantos são os casais dispostos a um amor assim? Inviolável, irresistível, quase mortal? Quantos são os casais modestos o suficiente para abandonar os frutos dos amores artificiais e velozes de hoje em dia, que acontecem e acabam tão rápido quanto uma estrela cadente? Quantos viverão de amor e pelo amor? Há alguém?

Entendem agora o que querem dizer os poetas através dos tempos?

 

                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                                             A mulher que me amava

 

Ela não afastava os olhos dos meus quando, segurando as minhas mãos em concha cobriu os próprios seios, protegidos por um tecido macio que não disfarçavam o calor aconchegante nem os mamilos túrgidos que atacavam as minhas palmas e me tiravam do solo, sem peso, flutuando como na lua. Ela pretendia ler a minha alma através dos meus olhos escurecidos e brilhantes, febris.

Tudo o que conseguiu naquele momento foi ceder à tentação de baixar os olhos e presenciar o volume que denunciava a minha total fragilidade ante o seu perfume. Instintivamente me pus a roçar em suas coxas, entre elas...

Quando pressionou as minhas mãos, que segurava sobre os seios, me obrigou a apertá-la, as palmas deslizando; isso a fez suspirar me levando um passo à frente em direção ao seu corpo, que ficou entre mim e a parede. Forcei a coxa entre as dela. Os olhos grandes e escuros brilharam ainda mais, e os lábios se entreabriram com o maior dos convites da Terra.

Não havia outros sons além de respiração ansiosa, leves toques sobre roupas desnecessárias; toques suaves, mas firmes. Não havia hesitação, o que existia era esquecimento. Habitávamos outro planeta no qual não havia outros habitantes. Não saberíamos, depois, dizer como começou, nem por que começou; isso não importava, porque o tempo parara.

Os lábios se colaram, macios, famintos, e só então um pouco de umidade passou a fazer parte daquela equação. As línguas embaralhadas, idiomas criados para contar uma história, enquanto as minhas mãos rastreavam os seus seios e as maneiras para desembrulha-los para o meu prazer. O prazer dela era o meu prazer.

Eu rapidamente consegui livrá-la da parte de cima do vestido, que caiu aos nossos pés como um escravo rendendo-se aos nossos desejos.

Arranquei-lhe gemidos com meus lábios grossos, com a minha língua habilidosa e gentil, uma devoradora de delícias como as dela. As mãos reconheciam a maciez daquelas coxas, que ela tão lindamente entreabria para mim, automaticamente, respondendo aos pedidos silenciosos feito com os dedos que mergulhavam e se ensopavam, sentindo-a tremer. Sons enrouquecidos saíam das nossas gargantas.

Firme, impaciente, ela arrancou-me a camisa junto com os botões, jogando-a ao largo. Beijando o meu torso ocupou-se do cinto e do outro botão, em seguida do zíper. A trilha que a sua língua generosa fez circulando o meu umbigo e descendo me obrigou a fincar os pés com força, tensionando os músculos das coxas para não correr o risco de perder o equilíbrio assim, tão fácil.

Apoiei umas das mãos na parede e a outra em seus cabelos, tentando conter a gula que ela demonstrava a qualquer momento, mas parecia inofensivo segurar-lhe os cabelos. Inútil resistir.

As unhas percorriam-me as pernas. Ela me olhava provocante, mostrando o prazer que sentia, misturando-se ao prazer que eu jamais imaginei ser possível sentir. Não parou. Não parei. Movendo o quadril quis me aprofundar nela o quanto pudesse. Ao me afastar um segundo para retomar o fôlego, um arremedo de sorriso me acelerou o coração ainda mais.

Prestes a desabar senti as mãos macias dela me conduzirem ao chão sobre o seu corpo forte, me acolhendo com um longo suspiro, me apertando com força contra si, espremida pelo meu peso, que tentei amenizar firmando as mãos em torno dela, no chão, como se fizesse flexões. Caso um dia me perguntassem, flexões eu diria.

Os sons aumentaram, os gemidos, impossíveis de compreender, nos olhávamos em uma tácita combinação não assinada e explodimos juntos, prazeres indescritíveis.

Trocamos de lugar sem nos distanciarmos um milímetro, e sobre mim ela pôde apoiar-se em meu peito, os cabelos lhes caindo sobre o rosto, o sorriso incontrolável da felicidade.

Milhões de anos passariam sem que fôssemos capazes de esquecer, em qualquer tempo ou situação. Eu era o homem dela. Ela a mulher que me amava.

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

 

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                                             O mundo à sua disposição

 

O mundo está à sua disposição desde que você é concebido, do desenvolvimento até os estertores de sua vida, linear ou confusa; geralmente confusa.

Uma vida linear, clara e rotineira é o que todos costumam apregoar como ideal, embora não aconteça com nenhum filho de Deus, e se acontecesse seria bastante chata, previsível e contrária ao livre arbítrio. A vida não é linear, os altos e baixos acontecem sempre por uma razão, uma atitude tomada gera reações imediatas, e tais reações mudam o rumo individual e afetam a coletividade, direta ou indiretamente.

Um caos mais ou menos controlado, embora paradoxal faz sentido nos corações e mentes, fazendo girar a imensa roda do destino com tragédias e alegrias, descobertas e desastres, mantendo a razão de existir com inspirações e conspirações, milagres e mistérios, fatores inusitados que causam todos os tipos de análises e teorias que ocupam o cérebro de fanáticos e aproveitadores, céticos e crentes em qualquer coisa.

Utilizar essa imprevisibilidade em proveito próprio é o pulo do gato, o alcance do alvo e a facilitação do viver. Como é possível aproveitar o que é imprevisível, de qualquer forma que seja? Talvez deixar rolar sem muitas implicações, lidar com as complicações sem tanto desespero e tensão, amenizar o que é impossível resolver completamente e apegar-se aos momentos iluminados de festividade e tranquilidade.

Uns defendem ser vítimas da manipulação do universo, outros do hipnotismo por parte de um ser superior, outros escolhem se isentar citando uma descrença em tudo, inclusive na própria existência no mundo. Em todas essas hipóteses uma única coisa em comum: todos os argumentos servem para distrair a vida, seguir convivendo com incertezas e negar o enorme vazio que seria caso não houvessem truques de todos os tipos para justificar o planeta, o universo e os seus seres.

 

                                                                       Marcelo Gomes Melo

 

 

  A espada corta-lágrimas para equilibrar a vida e a morte

 

Ele possuía a espada corta-lágrimas. Uma lâmina tão afiada que decepava as lágrimas do inimigo antes mesmo de alcançar-lhe o pescoço, separando-o definitivamente do corpo.

Para merecer tal armamento era necessário ser, antes de obtê-la, um excepcional guerreiro, o mais temido e respeitado por todos, com grande habilidade para debelar rebeliões, destruir injustiças e cultivar uma conexão com o divino.

A honra do guerreiro e as atitudes por ele tomadas diariamente, o compromisso com a sociedade e o respeito às regras de convivências, explícitas ou subliminares eram ponto chave para a glória ímpar de poder empunhar a espada corta-lágrimas.

A ideia é fazer justiça de acordo com a visão de um dos lados, preferencialmente da maioria, porque isso seria uma bela amostra de democracia, mesmo em época rigorosa na qual mortes eram mais do que naturais, até justificadas, e resolviam problemas grandes ou pequenos. O mais poderoso sofria menos, e todos tinha noção disso, colocando-se em suas castas conforme o nascimento e esperando sobreviver o tempo que fosse possível.

Poucos tentavam subir na hierarquia, saindo de uma posição inferior para galgar degraus que lhes permitissem maiores vantagens, maior respeito, riqueza e consequentemente responsabilidade.

O portador da espada corta-lágrimas gozava de grande prestígio, mas isso custava dormir sempre atento, jamais dar as costas a ninguém, porque qualquer vacilo criaria em espaço para a derrocada, elegendo um novo herói. A vida do portador da espada estava sempre em risco, e o seu dom de julgar rapidamente significaria viver mais um dia. Também significava matar inocentes, ir além do necessário, ser impiedoso e considerar como ofensa a mínima situação.

A vida de herói não é fácil. A vida de um virtuoso é testada diariamente, e o seu julgamento final não tem garantias de ser bem sucedido, porque a humanidade é, por natureza injusta, as condições de vida são injustas, embora justiça seja um alvo perseguido a ferro e fogo por todos durante a existência. Muitas vezes definindo erroneamente o que é justiça. Para muita gente justiça é aquilo que lhes favorece. E nem percebem o egoísmo contido em tal definição.

A afiada espada corta-lágrimas é um instrumento controverso, caso haja uma reflexão a respeito. Mas refletir é improdutivo, nesse caso. A humanidade parece necessitar de pacificadores para equilibrar a balança da vida e da morte.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

 

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           A influência psicológica para o bem e para o mal

 

Saiu armado pela primeira vez na vida. Antes caminhava encurvado, cabeça baixa, olhos fixos no chão, as mãos nos bolsos, trôpego e hesitante. Também não ousava erguer a voz, gaguejava e nunca contra argumentava com ninguém a respeito de nada.

Esse cidadão invisível mal era notado quando chamava o garçom em um bar, um táxi, ou na fila do pão. Quando uma mulher se dirigia a ele jamais era por interesse na pessoa suada e trêmula, mas em alguma informação ou para usá-lo como empregado, fazendo favores que jamais recebiam agradecimento.

Então ganhou de um amigo a arma. Um 38 no cano curto que, segundo o parceiro iria mudar a sua vida. Incutiria confiança e aumentaria a autoestima, tornando-o um outro homem.

Agora, com a arma na cintura, estava com as sobrancelhas franzidas, o olhar aterrador e incisivo que atacava o mundo com agressividade e um andar firme, como se estivesse marchando. A voz engrossara e estava segura, fácil de ouvir, e as palavras proferidas estavam muito mais claras, o poder de convencer aumentara em mil por cento!

Imediatamente passou a abordar mulheres com gentileza e bom gosto. Conseguia convidá-las para um chá ou uma cerveja, e após o jantar tinha firmeza de propósito para terminar a noite em um motel ou até na casa da escolhida.

Passou a contestar educadamente as decisões do chefe, e demonstrar através de exemplos as soluções corretas, o caminho a seguir. Conseguiu aumento e promoção, a vida mudou rapidamente e para melhor.

Em contrapartida ele nunca mais largou o revólver. O carregava para todos os lugares, dormia com ele, tomava banho com ele. Cuidava da arma como se fosse um filho, limpava, beijava, ninava e conversava com ela. Planejava construir um altar para ela no quarto, e inserir uma foto do amigo que o presenteara com a coisa mais útil de sua vida. O produto que o transformara em homem de verdade.

Marcou palestras de autoajuda para homens como ele, defendendo a arma como a ferramenta mais poderosa de masculinização do ser humano, incluindo transsexuais. Bradava cheio de si, convencia através do exemplo e se orgulhava de libertar muitos coitados sub-humanos como ele. Cogitava abrir uma igreja para ampliar os benefícios pelo mundo.

Um dia, após o sexo com a mulher com quem se relacionava no momento, fumavam um cigarro tranquilamente, relaxados, quando ela, casualmente comentou:

 - Eu acho um charme esse seu revólver de brinquedo! Parece até verdadeiro, embora seja de plástico. Um homem gentil e pacífico como você fica uma gracinha carregando uma arma de plástico para lá e para cá. O meu sobrinho de sete anos tem uma igual.

Os olhos dele quase saíram das órbitas. Os cabelos se eriçaram e começo a tremer incontrolavelmente. A voz não saía. Fitava a ferramenta de cancelar cpf sem acreditar que não servia para nada! Vomitou barulhentamente sem ter nada para colocar para fora.

Assustada, a mulher ligou para a emergência e fugiu, com medo daquele farrapo humano totalmente diferente do cara que conhecera.

Quando a ambulância chegou, a porta do quarto estava trancada e ele não respondia. Ao derrubarem a porta encontraram-no em um canto encolhido, posição fetal, chupando o polegar. Nunca mais foi o mesmo novamente.

 

                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                               Virtudes naturais X Doutrinação artificial

 

A sensualidade é intrínseca à mulher, embora vivamos tempos em que artificializar a ponto de tornar bizarro o que era uma qualidade acontece rotineiramente.

A sanha de conquistar a atenção, e com ela a fama, e consequentemente dinheiro, leva ao excesso, que se transforma tranquilamente em vulgaridade. Hoje vale tudo para demonstrar beleza e liberalidade, enquanto ao mesmo tempo, paradoxalmente se luta por empoderamento, o que leva à indagação: é necessário liberdade para se submeter aos desejos machistas, modificando o corpo em nome de padrões de beleza que satisfaçam a população masculina que paga para obter tal satisfação?

O sensual flui discretamente, sem agressividade e sem a percepção por parte de quem exala essa atração inevitável. Há infindáveis maneiras de ser sensual, portanto, a receita ditada pela mídia equivale a do homem que exibe bens materiais como arma de conquista.

O mundo anda confuso, o que sempre foi natural quer ser substituído por criações artificiais, invenções genéticas que, polemicamente daria um controle quase que divino ao ser humano, levantando a questão preocupante se essa mudança contribui fortemente para o fim da humanidade como a conhecemos.

Socializar em tempos de redes virtuais ficou mais raro, e o comportamento de grupos interagindo ao vivo parece falso, com cada um tentando ostentar, ressaltar seus pontos fortes com o intento de ganhar status, e com ele conquistar benefícios, sejam quais forem.

É por isso que, através dos tempos as virtudes naturais apaixonam e são cantadas em prosa e verso, mantendo a originalidade das coisas e procurando defender o que é nato do que é de plástico, construído falsamente, mudando a percepção e os rumos da existência.

Apesar dessa luta do século natural versus artificial, a sensualidade feminina permanece nas mulheres reais, comuns, que encantam sem perceber porque não buscam modelos para copiar, e mantém a personalidade intacta, livre das doutrinações que investem profundamente para criar um só tipo de criatura, um padrão nada atraente a longo prazo.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

 

                                             Obsessão por higienizar

 

Assistindo àquela belíssima mulher sambando na pista de dança como se não houvesse amanhã, ele se sentiu hipnotizado, maravilhado com tamanha naturalidade; ela exalava alegria de viver.

Ele pensou que poderia tentar a sorte com ela, oferecer um chope com pedaços de frango assado e conversar mais de perto naquela mesa pouco iluminada que escolhera, um pouco afastada. Com uma das mãos acionou o recipiente de álcool gel e espalhou pelos braços, tencionando manter os vírus afastados.

Quando a sambista sorriu olhando em sua direção não pôde deixar de notar os belos dentes brancos. Duvidou que fosse para ele aquela benção divina, olhou para trás, mas não havia mais ninguém.

A sorte estava sorrindo para ele! Só precisava higienizá-la antes de qualquer contato; aquele suor fétido escorrendo pelo corpo lindo, o vestido colado, molhado, a deixava ainda mais sexy. O desodorante devia estar vencido a essa altura, pensou, cheirando álcool gel em gesto automático, franzindo o nariz com cara de nojo.

A mulher veio dançar perto da mesa dele, dando altos moles, rebolando para ele, provocando-lhe uma excitação profunda.

Ah, se ela tomasse um banho! Imaginou-se de macacão plástico, luvas de borracha e escafandro protetor, no chuveiro com ela nua, esfregando cândida e detergente em seu corpo, livrando-a dos germes e deixando-a limpinha, pronta para ele.

Quando a mulher dançou a dois metros dele, sensualmente, não conseguiu deixar de se encolher, não conteve o nojo do vento que soprava em sua direção, levando a onda de mau cheiro de precheca mal lavada  com sovaco podre que provocava ânsias de vômito e tirou as naftalinas dos bolsos para inalar, desesperado.

Ela virou de frente chacoalhando os ombros e sorrindo, quase debruçando-se sobre ele. Não resistiu. Em pé cruzou o olhar com ela, percebendo o quão sensual era a garota, e estava totalmente entregue. Aquele chope iria rolar, com certeza. Pele de frango frito também, e no fim da noite, com o nariz entupido de naftalina poderiam pegar um táxi até um motel com chuveiro potente e diversos produtos de limpeza. A partir daí a madrugada seria perfeita!

Ela deu dois passos em direção a ele e então aconteceu. Foi mais forte do que ele. Com um salto afastou-se dela, e com outro alcançou a porta de saída. Correu alucinado pelo corredor até que se viu na rua. Só então conseguiu soltar a respiração que mantivera presa e puxou fundo o ar, preenchendo os pulmões com o que acreditava ser ar puro fora daquele ambiente fechado, claustrofóbico do bar.

Então olhou de lado e percebeu o lixão acumulado justamente ali onde estava. Empalideceu mortalmente ao enxergar restos de animais mortos, sobras de comida estragada... Arroxeou e caiu estatelado em frente ao sambão, ao lado do lixão. A emenda saíra pior do que o soneto.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

 

                                  A plena comunhão com o eterno

 

Com as botinas esgarçadas, o suor no rosto pelo esforço da escalada congelando sobre a face, escondo os cabelos revoltos sob o vento inclemente com uma touca que me aqueça as orelhas e acomodo o corpo ao lado da mochila sobre uma rocha para apreciar a cidade que se espalha sob as nuvens de norte a sul, leste a oeste.

Um longo trago de vinho para brindar o feito de chegar, por entre as florestas, ao topo da montanha, e agora me sinto mais perto de Deus. O céu aqui é mais azul e o ar é bem mais puro.

A escalada é um tipo de purificação natural ante as belezas que a floresta proporciona; maravilhas visuais e espirituais que enlevam a alma e liberam os músculos para exercícios comuns, sem a percepção ou obrigação sujeita à moda. O perfume do ambiente embriagando os pensamentos, clareando o cérebro e expurgando os problemas completamente, compartimentalizando-os para que as soluções, quando encontradas, os eliminem sem muito desgaste.

Aqui do alto, com as botinas desgastadas e o coração em farrapos sendo reconstituído, começo a enxergar com clareza todas as possibilidades que estavam acorrentadas sob o rótulo “impossível” no ambiente de estresse arraigado.

Longe de tudo, perto da emancipação espiritual, percebo que a maturidade não deve atuar vinte e quatro horas, deixando espaço para atitudes juvenis, perigosas, insensatas, mas altamente salutares surjam e acelerem o coração, mexa com todos os sentidos e acrescentem tempero à existência.

Em comunhão plena com a eternidade, a solidão parece tão pequena, inerte diante das células do meu corpo que pressentem cada centelha da natureza, recebem nutrição potente, reposição de energias para um retorno revigorado à terra do caos.

Um homem de fé, munido de vinho e amor, filosofando ao entardecer sobre a própria existência consiste em algo anormal nesses tempos de desconfiança e ódio.

Eu vou catar gravetos para uma pequena fogueira. Uma noite sob as estrelas servirá como fechamento perfeito para um dia de vida excepcional.

 

                                                    Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                                           A cura através da fé sóbria

 

Sou vítima das minhas ações, e me regozijo de cada uma delas, erradas ou certas, pois elas me fazem ser quem eu sou, e realmente isso só importa a mim mesmo, quando vou prestar contas a quem me orienta.

O que me torna senhor dos meus atos não é a coragem inata a seres como eu, mas a consciência de que os erros existem para que sejam cometidos, assimilados e corrigidos, enquanto os acertos mal são notados pelos outros, e perder tempo lamentando elogios que não virão, reconhecimento inexistente e buscar inimigos, ou o pior dos amigos, que é a incapacidade ou falta de humildade para concentrar-se nas coisas que enriquecerão filosófica e moralmente. Isso vale para todos nós.

O melhor da vida são os momentos em que atitudes alheias são reverenciadas; é assim que cultivamos o amor e a alegria para nós mesmos, muito mais do que as pessoas que estão sendo reconhecidas.

Os destinos seguem os seus caminhos, quietos, impassíveis, indiferentes, realizando os seus deveres imparcialmente. É muito difícil poder modifica-los; redirecioná-los, no entanto, facilitando a existência é plenamente justificável.

Para isso basta adentrar o labirinto escuro das emoções e lidar com elas sem amargor, suportando as dores, saboreando os prazeres, curando as feridas com o advento da fé, sóbria e iluminada!

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                                      Reconstitua-me!

 

Embriagado por uma cachaça chamada mulher, que me derrubou por dias e dias, sempre procuro recuperar as energias para gastar com ela e suas maquinações estonteantes que me levam ao paraíso que só os bêbados e os apaixonados alcançam; vivo entre o prazer e o mistério. Ou o mistério faz parte do prazer? Ou eu não sou capaz, pela embriaguez, de determinar se o mistério é mesmo mistério ou o contrário? É tudo tão escancarado e claro, que me acomete de delírios.

Talvez esteja se perguntando por que ainda não falei da dor. Simples: a dor é colocada em segundo plano para os momentos de sobriedade, momentos de ausência dela, a mulher.

A dor fica nos bastidores, nos momentos em que eu, entorpecido, sorvo cada gotícula do bálsamo que ela me oferece, afirmando ser provocado por mim; toques dos quais não me lembro. Lambidas das quais guardo apenas os diversos sabores.

Ela, a cachaça que me inebria, vicia e ao mesmo tempo alivia parece ser um passe para uma vida fora da realidade, até que se acabe, e a garrafa vazia seja atirada ao mar com uma mensagem desesperada da minha parte. Reconstitua-me!

 

                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                             Ausentando-se do mundo dos vivos

 

O quarto movimento do homem é o mais decisivo em sua jornada, que pode ser interrompida por más decisões ou prolongada por atitudes que o beneficie, e a outrem, durante a provação constante que é viver como mais um dos habitantes do planeta. Considerando-se o mais racional, o único racional, o mais inteligente e capaz, ocupante do topo da cadeia alimentar, portanto sem predadores, e elegendo a si mesmo uma espécie de semideus, com permissão para alterar o curso da natureza e, aos poucos destruir a existência de diversas formas viventes que habitavam o local bem antes mesmo de sua existência.

O primeiro movimento é nascer, puro, como afirma Rousseau, sem defeitos ou conhecimento das artimanhas usadas rotineiramente para sobreviver em sociedade como um predador voraz e feroz, ultrapassando o obstáculo inicial.

Durante esse período o ambiente no qual lhe coube nascer influenciará permanentemente na base do seu caráter, bélico ou conciliador, astuto ou néscio, moralista ou devasso, a responsabilidade dos pais é altamente requerida, e é nesse instante que ele absorve características primordiais que o acompanharão para sempre.

O segundo movimento é crescer. Saudável física e mentalmente, livre de preconceitos e influências externas prejudiciais. É o começo da aprendizagem de separar o joio do trigo.

Acontece que durante tal fase é impossível evitar influências, principalmente midiáticas, dizendo como criar, como agir, como cuidar, como punir ou premiar... Trata-se de uma substituição visceral e os meios de comunicação tomam o lugar dos pais e da família no ato de orientar, e nem sempre o fazem corretamente, destruindo um caráter violentamente.

O movimento número três diz respeito ao desenvolvimento do indivíduo em sociedade. O que ele pretende realizar, o respeito com o qual deve tratar os seus pares, o interesse que demonstra em evoluir e a maneira como pretende fazê-lo, pisoteando os concorrentes ou agindo com justiça e lealdade... O seu posicionamento diante da vida, as crenças que deveriam acalentar o seu coração e orientar a condução de sua existência com qualidade, respeito ao próximo e liberdade para lidar com os problemas com consciência e afabilidade, crescendo sem desconsiderar ou prejudicar a ninguém por isso.

Esse período tem sido cada vez mais difícil com a perda do senso hierárquico, do respeito às instituições, da manutenção das tradições e imortalização da história, da transição das ideias produtivas e criações que beneficiam à humanidade igualmente.

Gerações são manipuladas e dominadas ao ponto de parecerem zumbis; opiniões são rechaçadas com ódio pela incapacidade de dialogar em nome do bem comum, e não determinadas classes e castas.

Não é possível afirmar que isso seja inevitável, parte do que foi previamente traçado e impossível modificar, culminando com o quanto movimento, o último deles aparentemente.

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