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Construtores de Almas

                                      Discere, contribute,docere non: saluto sine donis!

 

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                                                         Sobre  o autor :                      

Professor e escritor de romances, textos teatrais, canções e promotor de silêncios profissional, atuando na área há séculos e aprendendo cada vez mais, pois as gerações invariavelmente se destacam por suas imperfeições, mas, nas entrelinhas há flores, que desabrocham, perfumam e morrem com a mesma velocidade com que a luz das estrelas chegam até aqui.

                     A máquina removedora de vidas antigas

 

A ela foi dito que, com as novas descobertas e inovações tecnológicas, bastava apertar aquele botão à sua frente para zerar a vida como ela a conhecia e havia vivido até ali, recomeçando do nada uma outra, sem os erros cometidos, profissionais, financeiros e amorosos, esquecendo as decepções, as perdas e fracassos para produzir algo novo, com o prévio conhecimento adquirido por uma pessoa que alcançara o estágio de meia idade, e com ela uma série de conquistas pessoais e coletivas dignas de orgulho. Não as teria novamente ao reconfigurar a vida, dar um boot no sistema e assumir o arbítrio de conhecer as vitórias para aprimorá-las como quisesse, multiplicando-as ao ponto de dobrar, triplicar o seu status.

É claro que, sabendo dos erros que cometeu, dos arrependimentos que colecionou e das falhas que a prejudicaram e a outrem, poderia consertar sem remorso imediatamente. Tudo aquilo apertando apenas o bendito botão à sua frente!

Foi aí que se pôs a pensar nas maravilhas que produziria para si e para o seu círculo de amizades, colaboradores profissionais e relacionamentos amorosos. Iria consertar as mancadas que decepcionaram os pais, que feriram os amigos e terminaram abruptamente com os amores. Seria a primeira moradora de um paraíso particular sem enganos ou perdas. A felicidade batendo à sua porta!

O que estava esperando para acionar tal maravilha magnífica removedora de vidas experientes, substituindo-as por outras perfeitas e longevas?

O seu coração acelerou até parecer uma enorme máquina da qual dependiam todos os sistemas a ela conectados, caso explodisse as chances atuais e futuras seriam perdidas para sempre.

Algumas considerações deveriam ser feitas, entretanto: zerar uma vida e recomeçar não garantiriam as mesmas pessoas em sua vida. Não atestariam que as mudanças não influenciariam novos acontecimentos os quais modificariam tudo o que ela tinha conquistado e que formava o ser humano que ela era naquele momento. Todas as cicatrizes que personalizavam o seu lugar no mundo como ser humano único, individual e diferente de todos os outros seriam eliminadas para sempre!

Isso significava dizer que ela, conforme selo original abençoado por Deus e bonito por natureza sumiriam do mapa. Todas as experiências se tornariam salobras e inodoras! Valeria a pena transformar-se em um arremedo de ser vivo, desprovido das marcas que a faziam ser quem era para viver uma vida artificial, sem surpresas e sem nenhum risco, que é o que assumimos durante o nascimento e a morte para garantir a nossa centelha de existência?

Ela raciocinou sobre os prós e os contras, observando o botão por um longo período sem se mover. Até que tomou a decisão. Determinada atirou o botão pela janela, lavou as mãos e as secou no avental. Sorriu pensativa, mas satisfeita com a escolha de viver com imperfeições e riscos, contando com a família e amigos, além da valiosa ajuda divina para traçar o seu rumo no mundo, da forma como tiver que ser. Firmemente ergueu o queixo e caminhou com os olhos brilhando rumo ao restante de sua vida, real e abençoada.

 

                                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

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                                                       Intervalo de luta

 

Soa o gongo. Fim de assalto. Banquinho, balde, garrafa com água...

- Aê, brother, está indo bem, está indo bem! Bora!

- É isso aí, campeão, bebe água aqui.

- Conserta o olho dele, Tonhão! Coloca pra dentro e grampeia. Respira, parça, respira.

- Tenho que vedar esse talho na testa, treinador, está muito fundo, sangrando, o árbitro pode parar a luta.

- Enche essa porra de vaselina, Tonhão! A luta não pode parar, senão ele perde metade da grana da bolsa. Tudo joia, campeão? Ele grunhiu, Tonhão, está vivo, tudo certo.

- Tenho que colar a zoreia, treinador.

- O que, Tonhão?!

- A zoreia dele está caindo, tenho que colar, Ele levou muita porrada no escutador de rádio.

- Cola com fita crepe. Presta atenção, parça: bate na linha de cintura, que o adversário está acabado. Viu os olhos esbugalhados, a língua pra fora? Está cansado, o sacana. Chuta na perna e na cabeça, arranca um tampão daquela cabeçona.

- Treinador, o nariz está quebrado.

- Conserta, Tonhão, ele tem que respirar, faltam dois assaltos! Respira pela boca, campeão, pensa no dinheiro!

No corner adversário:

- Bom, campeão, foi bem, foi bem! Senta a pancada, mano, chuta a cabeça, a orelha dele está caindo!

- Toma água aqui! Falta pouco, está ganhando a luta, pensa na família, nas crianças, temos que vencer essa. Treinador, um olho está fechado por causa das joelhadas em sequência que ele recebeu. Acho que quebrou uma costela.

- Normal, normal, guerreiro, mete gelo, Nino, ele tem que enxerga com um olho só; pelo menos uma sombra... Está chorando por que, guerreiro?

- Minha família, treinador. Minha mulher fugiu com o carteiro e levou os meus dois filhos...

- Quem falou em família aqui, você, Nino?! Deixa de ser burro!

- Desculpa, treinador, estava tentando animar... bebe água, guerreiro, bebe água.

- Mais uma razão para vencer a luta, rapaz! Vai ter que pagar pensão. Além do mais...

- O que treinador?

- O seu adversário é carteiro. Ele luta pelo sindicato.

Ouve-se um grunhido de ódio e o som aterrador de luvas se chocando um pouco antes de tocar o gongo para o reinício da luta.

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

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                        Indivíduo nas alturas distante de Deus

 

Da sacada do apartamento no trigésimo andar ele vê as nuvens, porque é do seu sentimento procurar sempre o alto, não importa onde esteja.

Em seguida volta o olhar, relutante, para enfrentar os gigantes de cimento e aço erguidos pelas mãos humanas para ocultar o sol, proteger do vento e da chuva e demonstrar o poder que, simbólico, espalha-se pelos cérebros menos favorecidos e os controla indiscriminadamente.

Ele enxerga as sombras aterradoras e as luzes artificiais que enganam, constroem um novo local de sobrevivência que é um corpo estranho fincado no coração do planeta, um quartel de onde desenvolvem todo o tipo de experiência usando outros seres, outros bens naturais e outros semelhantes.

Do trigésimo andar, agora com o auxílio de potentes óculos ele enxerga os seus semelhantes, ínfimos, caminhando como formigas por entre os edifícios, desviando de outros micro organismos idênticos, com pressa, focados cada um em seus problemas, prontos para realizar os objetivos dos que possuem os prédios e a vida dos que os constroem arriscando-se por quase nada, manipulados que são durante toda uma existência sem se darem conta disso um minuto sequer.

Os que se dão conta não suportam, são vítimas ainda maiores porque se matam, se excluem da pantomima armada pelos comandantes que produzem o caos para manter sob as rédeas os não suficientemente ambiciosos, e os premiam pela docilidade com o mínimo, algo parecido com a felicidade, relegada a uma cerveja gelada e um bater de bumbos no meio da cacofonia desorganizada que desabilita cérebros e domina através de cobranças e prêmios pequenos.

Ele observa lá de cima os seus semelhantes adestrados, defendendo ideais obscuros que não são verdadeiros, rebelando-se contra um monstro criado pelos monstros que os induzem e utilizam como boi de piranha.

Inscritos nesse contexto, a vida segue, os seres minúsculos são esmagados, os sobreviventes lamentam, curam as escoriações e adiam a morte para outro dia, pois precisam brigar mais um pouco contra as dificuldades que lhe são impostas além do que merecem ou acreditem.

Voltando o olhar além das nuvens, agora ele aprecia o vazio, e desejando ou não o pensamento lhe cruza a mente conturbada. Ele finalmente percebe o quanto ainda, mesmo daquela altura, ainda está longe de Deus.

 

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

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As ferramentas de autodestruição apresentadas como poder evolutivo

 

Outros mundos, outras perspectivas, outras vidas diferentemente vividas, outras sanhas, ambições belicosas, novidades inconstantes, influenciadas pelo poder de atração de outros planetas. A partir das luzes, da ventania, do calor e das novas maneiras de poesia, a vibração move as montanhas invisíveis no pensamento retrógrado, desde que tal pensamento possa ser definido objetivamente. Talvez não seja possível com intensidade porque o que é novo rapidamente envelhece, e as novas ideias chegam como um rolo compressor, não importando que sejam mais fracas do que as anteriores.

O ser humano é um processo de corrosão natural, e a sua evolução é enganosa, a cada geração ficam mais fracos e sensíveis, causando na espécie maiores dificuldades de sobrevivência através da sua própria maior qualidade, a de adaptar-se às mudanças bruscas para resistir.

Enquanto cria novas tecnologias para avançar sobre a natureza, obtendo a falsa sensação de que está no comando, a humanidade enfraquece a si mesma física e mentalmente através das invenções que cultiva e espalha indiscriminadamente. Nada que aparentemente facilite a existência hoje em dia, torna o ser humano mais forte e focado com a comunhão milenar com a natureza. Estariam trabalhando contra os princípios de sua existência?

As sensações podem ser fabricadas e usadas contra todos os deficientes de estima própria, controlando-os e instigando neles atitudes cada vez mais absurdas e letais. A busca por novos planetas, por ferramentas artificiais, alternativas para a sobrevivência. Ou mais locais para destruir, modificando a matriz humana ao ponto de torna-lo irreconhecível?

Tudo é duvidoso, ninguém confia sequer na própria sombra, não há quem mantenha a simples palavra, a não ser que se resigne a morrer à margem da mediocridade geral.

Acabando por perceber o vazio à sua volta, só resta questionar se no vasto universo há espécies com tanto poder autodestrutivo, capaz de tentar eliminar aos seus pares e detonar o habitat com tamanha convicção, sorrindo como um alucinado no processo?

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

 

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                              As línguas que flertam com o eterno

 

A língua dela tão diferente da minha, ainda assim competia, macia, não media o que dizia ou repetia o que ouvia. O misturar das línguas sadias com suas gírias, e o modo peculiar de expressar o que se queria, desejos, pedidos, exigências, urgências...

A língua minha faminta como a dela, se encontravam em situações nas quais ficavam tímidas, não diziam, nem pediam, não ousavam até que se tocavam. Era especial como só os polos diferentes o são, e se atraem, ensinam maneiras sensíveis, nada sensatas, aprendem instintivamente, uma vez mais e novamente, contando segredos, indo ao final dos encantos, dividindo paladares, tocando com fúria de tempestades passageiras, degustando através de palavras maneiras, substantivos, adjetivos, conectados por artigos e conjunções milenares.

Essas línguas santificadas exploram lugares, multiplicam sabores, enriquecem o corpo, a alma, o intelecto, expandem os conhecimentos, instigam desafios...

Quero continuar a tocar a minha língua na dela, a liquidificar os nossos anseios sem discriminação, quando alcança fácil o coração e nos faz querer mais.

Não há globalização mais gloriosa do que aquela que goza, que entra em erupção facilmente, ladeando o perigo, cheia de convicção, esticando os corpos no limite da tensão, como cordas de violão que desenvolvem um cantar suave, sereno, que aumenta a pressão e se torna mais e mais urgente, pesado, insistente, levado, incoerente, molhado, indecente, aumentando vocabulários, rompendo limites, saciando os desejos além-mar como se houvesse apenas uma longa aldeia e nossa casa à beira do rio fosse a cama mais macia, que um dia seria a bateria que recarregaria os nossos sonhos.

Poliglotas do amar, exploramos através do falar, do pensar, do querer e ganhar todas as vontades que através das línguas se tornam verdades, e nós dois, viajantes da vida, sempre dispostos a alcançar novos níveis, jamais recusamos a chance divina de gostar, de aprender, dividir e depois descansar com um sorriso nas nuvens e uma carícia no pensamento, até o momento de recomeçar o intercâmbio ilimitado de quem flerta diariamente com o novo, o prazeroso, o eterno.

 

                                                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                   A vida secreta dos seres noturnos

 

As noites em claro que costumo passar há anos, me ensinam comportamentos novos, diferentes dos das pessoas diurnas, aquelas sempre dispostas a sorrir para esconder os seus terrores, enganando antes de tudo a si mesmas, vendendo atitudes anormais como se fossem padrão, defendendo pontos de vista os quais não necessariamente acreditam só para obterem a sensação de que participam da panela maior em que todos concordam com o óbvio e se martirizam escondido em nome de um status quo sem muita importância em um mundo que atravessa um período de transição gigantesco.

À noite a percepção fica mais aguçada sob o signo do silêncio, e os enganos mais vívidos, o cinismo é aceito e a ironia é uma arma pacífica que causa estragos e determina rumos diferentes dos escolhidos pelos acomodados, os que preferem fazer parte da grande máquina que devora pessoas e as hipnotiza de forma a tomarem decisões abruptas e desesperadoras, que os prejudicará a longo prazo, mas oferece uma falsa sensação de segurança, embora estejam sendo manipuladas constantemente.

Os seres noturnos contestam a tudo; a eles mesmos e aos que os cerca; sofrem por isso, radicalizam a existência e nem sempre sobrevivem à verdade nua e crua, virando estatística fria, sem que ninguém saiba o porquê de flertarem com o abismo obsessivamente até que sejam derrotados.

Não escapam impunemente porque conhecem mais o que se esconde por trás dos corações humanos, a necessidade que os obriga a trair os pactos de honra e ainda dormir o sono dos justos. Não há justiça! Há portos nem sempre seguros que desafiam o tempo todo àqueles que escolhem viajar, conhecer e silenciar, surpresos e ao mesmo tempo inquietos, rebelando-se contra a imensa maioria de ovelhas que caminham para o abate todos os dias, aparentemente felizes com a ignorância com a qual são brindadas, e que é bondosa porque não os permite perceber a realidade de suas vidas vazias, com falsas perspectivas, nulas, repetitivas.

Nesse ponto se igualam. O destino é o mesmo, mas os que vivem à noite sofrem mais por saberem mais, privados da bondade que é viver no escuro sem enxergar a escuridão que os cerca, a ladeira que os guia a um final indeterminado e incerto. Bois a caminho do matadouro.

Os noturnos acabam da mesma forma, não há vantagem nenhuma em perceber a matrix, além de causar um fim mais sangrento e assustador para cada um dos despertos.

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                                   O que só as deusas demonstram

 

Jezebel, nas manhãs de domingo em meu chalé nas montanhas, hesito em me erguer dessa cama quente na qual realizamos todos os nossos planos pecaminosos, gostosos e revigorantes para, abalroado pelo frio cortante descer o caminho de terra entre a mata para marcar presença na missa, como um rude cavalheiro de fé!

Com o cheiro cativante do seu corpo em meu corpo, relembro os seus movimentos desinibidos recentes, inebriando o meu cérebro simplório, me pedindo coisas que eu jamais imaginaria, mas realizava feliz com o prazer alcançado, alucinação momentânea que ao amanhecer deixaria em meu pensamento de fé uma leve vergonha, um embaraço juvenil, um medo de punição pelos desvarios noturnos com direito a tudo, sem nenhuma proibição.

Da cozinha, o cheiro forte de café recém passado, as torradas com manteiga e ovos com bacon fazem remoer o meu estômago, faminto em recuperar as forças gastas em uma batalha sensual inacabada. O meu cérebro, Jezebel, matreiro, insistia em lembrar que você estava lá, guloseima das guloseimas, trajando a minha camiseta apenas, fazendo comida para me incentivar a passar o domingo na cama, esquecendo os deveres religiosos de há tempos, destemperando a minha confiança, acusando a minha eterna fraqueza humana sem perdão. Arderia eu, Jezebel, no fogo dos infernos além das chamas de suas coxas quando a minha hora chegasse, em nome dos prazeres carnais oferecidos por você com tão grande talento?

Eu não sei, então apelo à vã filosofia no momento em que nu, me enrolo no cobertor e caminho descalço até você para recomeçar o domingo de nós dois, abandonando qualquer remorso com uma peça eficiente do pensamento humano: uma coisa de cada vez, amanhã é outro dia e terei todas as chances de reparar os meus supostos pecados até o próximo final de semana, quando nos reencontraremos como sempre, eu desconfiado, você com a expressão tranquila e despreocupada que só as deusas demonstram.

 

                                                                                                  Marcelo Gomes Melo

 

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            A decadência do amor romântico para os homens dinossauros

 

A última cartada foi a das flores, rosas vermelhas simbolizando o amor lascivo, o tesão destemperado, o desejo imparável que descia a colina como um trem desgovernado querendo se alastrar como borboletas coloridas sobre os campos e os rios, entre as árvores das montanhas, perfumando com cheiro de terra molhada, criando o clima através das metáforas para uma noite de amor inesquecível, seguida de outras e outras romanticamente, ao som de canções românticas que embalariam o relacionamento enquanto durasse.

Ele era um homem antigo. Não fazia ideia do quão pareceria desrespeitoso entregar flores a uma garota moderna, chegando arrumadinho, perfumado e com gel nos cabelos para impressionar ainda mais!

Mantivera o traquejo dos velhos tempos, e agora se tornaria vítima do próprio romantismo. Ela não aceitaria as flores e o acusaria de machismo contumaz por querer compra-la com rosas vermelhas, símbolo do domínio masculino através dos tempos; recusaria o jantar à luz de velas porque não era um mero objeto a ser conquistado com alimentos e bebidas, que em breve seria requisitada a pagar com uma noite de paixão em que ele ainda se ofereceria para pagar as despesas, incluindo o motel.

Ele ficaria assustado com a ferocidade demonstrada por ela, ameaçando processá-lo por assédio sexual e conduta repressora, considerando-a uma mera fêmea sem o poder de tomar as próprias decisões, humilhando-a com excesso de cuidados torpes que serviriam apenas a um intuito, que era esbaldar-se em seu corpo em busca de prazer unilateral, sem se importar com os desejos e objetivos de uma mulher empoderada que sabe exatamente o que quer.

Nada de presentes fúteis como correntes de ouro, pulseiras coloridas ou anéis de compromisso, falsos na intenção até onde podiam ser, mentirosos porque representavam apenas um investimento imediato na sede de possuir o seu corpo esquecendo a sua alma cruelmente, os seus anseios políticos e sociais, a sua ascensão à glória feminina moderna que era ocupar cargos de alto escalão, viver estressada com a rotina diária que não incluíam mais deveres de casa, cozinha, lavar roupa, passar roupa, enfim, ser a rainha do lar.

Não importava se as intenções do pré-histórico fosse pedi-la formalmente em casamento, prometer uma casinha branca com jardim e uma cerca de madeira aconchegante; que desejasse ter filhos e ensiná-los a amar e conviver socialmente, sendo preparados para virarem adultos coerentes, louváveis, honrosos.

É, ele era abobado e sairia dali descrente da vida, descobrindo o quanto era medieval e ultrapassado, um homem repulsivo que nenhuma mulher aprovaria hoje em dia, com os seus defeitos de parecer homem, falar como homem e amar como homem. Era mais um dinossauro abatido na grande roda da vida, no novo ambiente de caça que opunha gêneros diferentes em nome de uma redenção desconhecida. Recolher-se à caverna mais próxima para morrer em torno de uma fogueira parecia ser a única opção.

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

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                              Frio, solidão, escravidão, escuridão

 

Vai ficar tudo bem onde o vendo faz a curva e você vai poder se estirar na relva molhada do amanhecer, recebendo de braços abertos o sol nosso de cada dia.

Os cristais de geada desenhando os seus fartos cabelos não chegam a incomodar, pois o seu estado de êxtase ante um viver desprovido de ambições contorna todos os obstáculos e lhe impinge uma enorme vontade de sorrir, os olhos fechados, selecionando as imagens maravilhosas em sua mente devidamente faxinada, sem os tapetes que escondiam a escória das atitudes ruins que aprendeu e utilizou durante o decorrer de sua existência.

Você acreditou na falácia de que a exposição total lhe garantiria fama inconteste, e vendeu inclusive as escolhas que não queria fazer; transformou-se em uma caricatura de si mesmo, gargalhando alto e seco, sem transmitir nenhuma sensação; exercitou a falsidade das frases feitas e mentiu descaradamente realizando ações em troca de reconhecimento. Participou da guerra dos hipócritas em busca de status e poder, procurando prêmios que não satisfaziam, apenas destruíam a vida dos que entravam em sua mira malévola.

O ar puro que lhe invade os pulmões quase lhe sufocam e arrancam de você o ódio disfarçado com o qual tocava a vida, o lucro esperado, a comemoração lasciva, o vazio interior no final de tudo, concluindo em angústia o jogo que você criou e agora, após muita destruição, percebeu ser inútil, voraz e usado por displicentes sem caráter, com pouca consideração pela vida e desconhecimento total da razão de existir em um ambiente tão rico, predador dos seus próprios pares, desconsiderando o que é mais sagrado por ignorância e maldade.

Lá onde o vento faz a curva, estirado na grama molhada não tem coragem de fitar o céu azul, com medo de que ele desabe sobre você, vingando as atitudes cruéis implantadas com uma naturalidade assustadora.

Magoar é serventia da casa. Os sapatos fora dos pés são sinônimo de liberdade, embora os dedos das mãos se crispem involuntariamente, e um esgar de dor entorte os seus lábios incapazes de pedir perdão, simplesmente por desconhecer o sentido da palavra.

As sensações que lhe bombardeiam são múltiplas, e todas são novidades para a sua escala inferior de conhecimento de mundo. Esses sentimentos bons lhe agridem e torturam, você não está acostumado com eles! Desesperado tenta respirar ofegante, nos estertores de sua vida, quando conhece e entende finalmente sobre algo que deveria ter norteado a sua existência. Tarde demais. O céu desaba sobre você. Os últimos segundos de clareza antes do fim lhe prometem apenas frio, solidão, escravidão, escuridão.

 

                                                                                               Marcelo Gomes Melo

 

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                                                “Titês”: a saga do óbvio

 

Seria um novo e pitoresco idioma surgindo no espectro radical de uma sociedade decadente e entontecida, criado por algum indivíduo marcado pelo “mídia trainning”, desconhecedor do idioma culto do país, incluindo o linguajar informal, emulado por um lobby irônico de grande parte da imprensa,  que passou a acreditar em si mesmo como um novo tipo de gênio universal, enxergando em si uma aura tão superior que produziu todo um artifício mirabolante para se comunicar com um povo que julga inferior intelectualmente, repetindo incansavelmente ser o mais humilde de todos os tempos, o mais honesto e bondoso, referindo-se a ele próprio na terceira pessoa, e no chamado plural majestático!

Com uma voz gutural, sonolenta, insossa, modorrenta, passou a misturar arcaísmos ( palavras que caíram em desuso que a maioria da população desconhece) em sentido impossível de compreender, com jargões conhecidos apenas pelos profissionais da área e neologismos ( fruto do curtíssimo conhecimento do vocabulário extenso da língua portuguesa) impôs esse novo idioma considerando usar um tom professoral, por engano, porque parece mais um padre assustador ou um pastor assombrado, e infiltrou nos cérebros infimamente cultos a pergunta que jamais se cala: o analfabetismo funcional produzirá uma maneira inferior e confusa de comunicação entre os povos?

“Analisando a guerberogática supurítica erveloleviska do último terço, ti sabes que eu enquanto ser humano homem, humanoide, humanitário humanista da humanidade humanística e humanobiótica, sou mim mesmo o mais humildóide ser dentro da parametridade sinquica rotundélica fálica, que sendo o cidadão que sou, cidadanístico pai, irmão, filho, tio, marido, tio, amigo, companheiro, profissional da maior e melhor profissionança títica e tática, não quero dizer a tu que, e ainda mais menos que não, porque talvez não seja o que nunca foi sido, sem deixar de ser o que, vamos, mesmo que ti digas que não, eu digo que mais ou menos, mas não vou repetir, repito, não vou repetir outra vez de novo sobre o que é digno da dignização da dignidade que só mim tenho, olhando do ponto de vista visto que só mim tenho, de indivíduo individual mas não individualista que valoriza o de-sem-pe-nho mais do que o simples desempenho desempenhado em si mesmo.

Hoje foi maravilhoso ver o arco-íris em preto e branco cruzando o alto do chão verde enquanto, vou dizer, foi, mas não foi se ti pensardes de verdade no que se achou do achismo achado pelos que perderam antes de ter certeza, porque a certeza é certa e a dívida é duvidosa dentro dos princípios principiantes que regem a minha conduta conduzida apenas e tão somente na grandiloquência grandiloquente que a viagem viajante faz viajar rumo à vitória vitoriosa, porque a derrota é a vitória de quem perde, e a vitória é a derrota que não veio e precisamos com a honra honrosa e a humildade mais humilde aceitar que eu sou quem sou, porque se eu não fosse mim, ninguém seria também. E tenho dito!

 

                                                                                                   Marcelo Gomes Melo

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                            Façamos a evolução, senhores!

 

Vamos liderar a evolução, homens de luta! Não hesitemos em distorcer normas e burlar regras, desconsiderar a ética em nome dos prêmios que poderemos ganhar, no presente e no futuro, cidadãos conscientes da necessidade de exercermos o poder nesse círculo privilegiado de semideuses inatacáveis!

Nós precisamos esgotar todos os recursos naturais em nome da evolução, tramando pela diminuição dos seres viventes do planeta com toda a frieza necessária aos mandatários superlativos da humanidade, habitantes do topo da cadeia alimentar.

Levantem-se, companheiros de fé e de ação! Reconheçamos que somos o lobo do lobo do homem e não pensemos duas vezes em devorar nossos semelhantes abaixo de nós com firmeza de propósito em nome da evolução. Dominar o universo em todos os aspectos, corroer os pilares da razão com voracidade, substituindo por mantras produzidos sob a égide do caos, controlado por nós, donos das rédeas do tempo, insaciáveis guerreiros comandantes da reconfiguração planetária, da condução da maioria das cobaias para o recanto apropriado às suas insignificâncias, submetidas ao destino implacável com o qual nasceram.

Pela limpeza do habitat que incitamos ser sujos e destruídos, agora convenceremos à maioria inerte através do hipnotismo e da cantilena rasteira suficiente para obriga-los a caminhar como gado, zumbis errantes prontos a crer em qualquer palavra e a aceitar a qualquer comando sem raciocinar, porque a incapacidade de pensar os faz inferiores, inabilitados a participar da evolução iluminada, a não ser como lenha para ajudar a queimar a honra, transformar a razão em cinzas e empilhar a civilização em declínio em um abismo irrevogável, criando uma nova sociedade sob o signo do imponderável, da irracionalidade e suscetibilidade superficiais, tornando um “todo” em centenas de “minorias” que batalhem entre si, e que percam sempre, subjugados pelos nossos desejos; nós, os donos da Nova Era; nós, os cirurgiões da modernidade, os líderes supremos e eternos, dirigentes do planeta no qual vivemos e de todo o espaço que nos cerquem sob, sobre a Terra e em torno dela.

Façamos a evolução, senhores! Irretocavelmente sejamos cruéis e mortais, porque não há revolução sem sangue... Desde que se trate de sangue alheio.

 

                                                                                                          Marcelo Gomes Melo

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                Aos que nunca foram abençoados com o amor

 

A quem nunca foi abençoado com o amor, só posso chamar de cego! Alguém por quem os anjos não sentem perdão, não detectam fé, não utilizam a visão periférica, direta ou indireta ou sobrenatural e não pode ser considerado por isso.

 Surdos institucionais indispostos a ouvir o chamado, aos gritos, ou sussurrados de um tíquete para o paraíso. Não pode haver benevolência com esses seres desconsiderados, que vagam pelo mundo totens em um trem descarrilado com velocidade assustadora e letal

A essas pessoas patéticas só resta o desprezo só resta o desprezo e a impaciência complacente, a acusação muda através de um olhar impiedoso por não terem conseguido perceber qualquer centelha de paixão, amor, carinho verdadeiro que os mantenha afastados da rota de colisão com o sofrimento e a dor por toda a eternidade.

Sem a liberdade se deixam enganar pelos flashes notívagos, instigados por motivação etílica e diversas outras maneiras de inebriar o cérebro levando o corpo a se dilacerar completamente. As emoções enganam e carregam ao cemitério dos espíritos sem comiseração que assombram almas perdidas, que se enganam tomando atitudes erradas, confundindo sacrifício com amor, pena com sobriedade, permanecendo insaciados e insaciáveis enquanto se negarem a enxergar o que lhes pertence por direito.

Que os anjos encarregados por liderar essas vítimas insanas do desconhecimento demonstrem alguma piedade, em algum momento, e permitam que os seus segredos se esvaiam pelo ralo, permanecendo desconhecidos por todos os que poderiam julgar e condenar sem nenhum resquício de bondade no coração.

Não desistam, cães miseráveis sem as bênçãos de amor! Continuem a perseguir o autoconhecimento, sejam solidários consigo próprios, não esmoreçam!

O amor está roçando em você, corpo mortal e cruel, basta encontrar o nível correto de sensibilidade para merecer recebe-lo e, através dele, e só dele, encontrar a paz!

 

                                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                            A namorada do criminoso

 

A namorada do criminoso é bela como um entardecer na praia, com seus modos jeitosos e olhares convincentes. Os seus passos tão leves a levam à caverna em que o criminoso se esconde, e então ela derrama sobre ele as bênçãos de uma mulher iluminada.

A garota do criminoso fala como uma escolhida, de voz aveludada, com o olhar baixo o suficiente para denotar submissão, mas o queixo erguido o suficiente para demonstrar superioridade nata, não forçada. Ela costuma passar incólume por entre os ratos que habitam a caverna do criminoso, dividem com ele o lar e a escuridão. Ela jamais reclama, parece não os ver por lá, roendo restos das refeições que entrega religiosamente ao namorado diariamente.

Disso o criminoso não pode ser acusado; não dividir suas rações com os companheiros ratos e demais seres rastejantes que parecem não assustar a princesa flutuante que é sua musa. Ela tem o dom de envolver a carapaça dura e fria do criminoso com suavidade e amor, e controlar com a respiração os instintos mais mortais da criatura.

A mulher do criminoso não o teme. Não teme, também, os algozes que o perseguem, nem os juízes que o julgam, ou os curiosos que o acusam; ignora aos covardes que o incriminam ao mesmo tempo em que o temem. Ou o incriminam porque temem.

A namorada do criminoso sorri bondosamente a seu tempo, distribuindo pílulas de amor como milho aos pombos da praça, nocivos pela inutilidade da existência atual, embora extremamente ativos na antiguidade, mensageiros de boas novas e segredos tétricos.

Ela parece pairar acima de todos os outros seres, e o fato de namorar o criminoso aumenta ainda mais o respeito com que lhe tratam a escória, e também a elite. Só há elogios para suas atitudes e paixão platônica para sua pessoa, já que ninguém ousaria tirá-la do criminoso; não por temê-lo, mas por saber que o amor dela era intransponível, intransferível e eterno. Ninguém jamais poderia competir com o criminoso, cujas boas referências desconheciam, muito menos a capacidade dele de amar, mas por ela ser a perfeição sobre duas belas pernas, exalando perfume francês e ajudando a todos, crentes ou descrentes sem discriminação. Aliás, como poderia? Era a namorada do criminoso!

A namorada do criminoso desfrutava de um status absurdamente elevado, sem almejar nada daquilo em momento algum; ou exatamente por não almejar tanta influência. Namorá-la tornava o criminoso, aos olhos dos outros, alguém com um resquício de alma, digno de habitar as profundezas sem ser definitivamente eliminado da vida em sociedade.

O criminoso deveria agradecer a cada momento pela existência de tão bela criatura que o amava incondicionalmente e acalmava a fera contundente e aterrorizante que ele era desde que nascera; deveria saber que ela era o único anteparo entre ele e o inferno em chamas, e sua luz para o caminho inacabável e escuro da redenção.

Todos amavam a mulher do criminoso. As mais jovens sonhavam imitá-la na postura, na beleza e na bondade, embora não quisessem nenhum criminoso como marido; as mais velhas adoravam a sua devoção humilde, a sua disposição com o namorado, a sua atuação como pacificadora implorando perdão a Deus pelos crimes do desastre que era o seu homem.

Os homens jovens a olhavam com ardor apaixonado, sem ousar dirigir-lhe a palavra, mas todos a homenageavam em seus quartos, à noite, com uma mistura de medo e prazer. Medo e vergonha de que suas mães descobrissem, e pavor indescritível de que o criminoso soubesse! Os mais velhos a cumprimentavam com seus olhares lascivos e sorrisos falsos, escondendo atrás do respeito excessivo seus desejos mais nojentos.

Era unanimidade, a namorada do criminoso. Principalmente quando chegava ao Banco após a visita ao seu homem e abria a sacola cheia de dinheiro, depositando 80% em sua conta secreta e o restante na conta conjunta com o seu namorado. Os gerentes sorriam, babavam e tremiam, hipnotizados por tanta beleza e tanto dinheiro vivo! Os banqueiros tiravam os chapéus e ofereciam café e licor, quem sabe um jantar ao anoitecer, mas ela recusava docemente e se recolhia, tranquila, para preparar-se em seus aposentos para uma nova caminhada ao amanhecer em direção à caverna.

Todos ouviam as notas divinas do piano, tarde da noite, vindas do quarto da figura atraente e superior, e imaginavam com inveja, comovidos, como alguém poderia ser assim abençoada com tantos predicados. Após a peça bem tocada ao piano, a namorada do criminoso recolhia os anéis de ouro que jaziam sobre o instrumento e os recolocava em seus dedos finos e elegantes. Então retirava o peignoir e dormia o sono dos justos em sua alcova macia e gigantesca, sem pensar na caverna em que o criminoso, de olhos arregalados, abraçava o próprio corpo para diminuir o frio e tentava sobreviver uma noite mais.

 

                                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

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                                        A humanidade em desencanto

 

O ritmo acelerado das nossas vidas empobrece as percepções que deveriam enriquecer individualmente, e que são importantes para o crescimento como ser humano.

Hoje as pessoas envelhecem mais rápido, sem tempo para absorver a experiência de vida que possibilitaria colaborar com as novas gerações de forma natural e eficiente.

A superficialidade tomou conta dos povos, que parecem se preocupar com as coisas fúteis e dispensáveis da vida, e deixam os verdadeiros valores esmaecendo nas prateleiras mofadas da existência.

Uma população inteira sem força de caráter, valorizando absurdos, vivendo de atividades toscas, nocivas, criando uma possibilidade doentia de se sentirem ofendidos por qualquer coisa, enfraquecidos e adoecidos em grupo. Humanidade em desencanto, inimigos do próprio habitat, facilmente dominados e controlados por seres sem escrúpulos, descendo a ladeira em bloco a caminho do inferno.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                                                  À procura de mim

 

Estou sempre me procurando para argumentar comigo mesmo, mas nunca me encontro. Estou sempre em rampa oposta, um subindo, outro descendo, na contramão de mim, razão e sentimentos separados.

O engraçado é que ambos, separadamente, por coincidência ou intenção, me levam ao mesmo pântano escuro, sombrio, lotado de armadilhas, areia movediça, plantas carnívoras, terreno acidentado plantado com bombas e tentáculos mortais. Seria essa a definição de destino?

No limiar da entrada acontece a divergência. A razão me empurra para um lado e os sentimentos para outro, oposto nos mínimos detalhes.

O caminho ofertado pela razão parece mais equilibrado, com uma limpeza indescritível para um pântano, mas igualmente perigoso, de maneira que a lógica poderia me salvar dos meus arroubos de rebeldia e atitudes pueris.

A direção que os sentimentos me apontam são turnos, sensíveis, incrivelmente belos para um local tão assustador. Atraem com um sorriso dúbio, que planta a incerteza em meu ser, mesmo insinuando as delícias infindáveis que atingem o meu corpo frágil e repleto de desejos.

Não consigo conversar comigo mesmo, mas algo me diz que ambos os caminhos darão no mesmo lugar. Basta que eu consiga escapar sem arranhões profundos, ferimentos que me destruam antes que alcance o equilíbrio e a junção entre corpo e alma, razão e sentimento. Seria essa a definição de paraíso?

Não me alcanço e afundo em meus terrores a cada noite, na geladeira da razão, congelando até o amanhecer, confuso com a necessidade de obter alguma coisa que me complete, ou mergulhado no caldeirão dos prazeres a ponto de sufocar querendo um pouco de controle para dominar a mim mesmo e alcançar a tão sonhada perfeição.

Seria isso possível de alguma forma? Ou a procura inacabável é o verdadeiro elo do ser humano com Deus, nadando por águas turvas e descansando nas nuvens, a seu tempo.

Por um ínfimo segundo nossos olhares se cruzam, e, oh, Deus sabe o quanto é lindo viver assim!

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                                 A  rainha tem um bebê!

 

Ela tem um bebê. Um garoto lindo e forte, faminto e curioso, alguém que veio com os seus olhos negros como o oceano à noite para iluminar a vida, anunciando, a partir daquele momento uma vida mais feliz, tranquila e repleta de esperança!

Um bebê de mares tormentosos cercando um ambiente maravilhoso, mas cheio de dificuldades intrínsecas, superadas com tanta simplicidade que enternece a alma de todos os que se dão conta de que o mundo é lindo, uma parte dos seus habitantes é o que atrapalha.

Ela tem um bebê! É uma fada que sabe cuidar com tanto carinho que emociona. O sorriso dela abarca o universo e abençoa o neném, que se sente aconchegado em nuvens de algodão doce; a voz morna de mamãe que encanta e completa o mundo fortalece a criança que devolverá em paixão todo o esforço voluntário para torna-lo feliz e amado incondicionalmente.

Esse bebê lindo sorri para a mamãe, lhe acalma os terrores, faz correr por suas veias novos desejos de se transformar em alguém melhor, saudável, reconhecer o quanto sempre foi amada e que o amor costuma exercer o poder de fazer brilhar, fortalecer e ensinar novos caminhos, antes não percebidos ou não reconhecidos.

Ela tem um bebê! Amor trocado sem dúvidas, canções que embalam o sono reparador, a arte de flutuar pelos locais sem se deixar abalar, mundo próprio que enleva e tudo vira sonho. Ela é linda e tem um bebê! Ambos, em sua caminhada espalharão flores e perfume inebriando aos que a amam incondicionalmente.

Bençãos ao príncipe que, nos braços de sua rainha passeia impoluto pelo Arco do Triunfo, o amor em forma de gente!

 

                                                                                   Marcelo Gomes Melo

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                                          “Cabra do norte não presta”

 

O pau cantando no boteco do Corrupião e o cara continuava sentado em seu lugarzinho, bebendo a sua cervejinha como se nada estivesse acontecendo.

De um lado, munidos de faca e garrafas quebradas, aos gritos e ameaças, um grupo defendia o repúdio à discriminação racial, social e regional provocada por uma fala descuidada e ofensiva de um cínico qualquer. Os adversários, com copos vazios e cadeiras empunhadas faziam a resistência, prontos para a briga feroz, argumentando que a frase dita não agredia nem discriminava a ninguém, portanto, lutariam, chegariam às vias de fato contra acusações exageradas e levadas a sério por conta de excesso de sensibilidade, prejudicando a liberdade de expressão.

Era a demonstração cabal de que o mundo polarizado atingia os lugares mais recônditos, e os seres humanos estavam cada vez mais intolerantes, tornando a vida em sociedade um perigo permanente. Qualquer coisa pode ofender. Seria o fim das piadas, dos apelidos, do tratamento amistoso que caracteriza o brasileiro comum?

Agora as relações humanas estavam esfriando e a dificuldade em fazer amizades, ampliar os círculos de companheirismo, facilitados com o advento das redes sociais agora era um tiro pela culatra, com as posições políticas e opiniões pessoais colocando lenha na fogueira, polarizando a vida e derrubando os posts de flores e frases de autoajuda, hipocritamente alternados com as brigas violentas, ameaças e assassinato de reputações.

O Corrupião, dono do bar, desesperadamente tentava separar a briga e evitar mais prejuízos, arriscando o pescoço para atuar como barreira entre os grupos inflamados. Ele tentava ser eloquente e convencer a todos com o seu linguajar informal permeado de palavras de baixo calão, mas parecia complicado, no momento.

No auge do terror, alguém se lembrou do cara calmamente sentado em um canto com o seu copo de cerveja e bradou em tom de acusação que ele era o responsável pelo início do ódio mortal! Todos pararam com os insultos e se viraram em direção a ele. Corrupião o interpelou bruscamente:

- Você começou os insultos e está aí tranquilo. Não tem vergonha na cara?! Foi você quem afirmou em alto e bom som que “cabra do norte não presta”!

- Sim! O que tem a dizer sobre isso? – perguntaram membros dos dois grupos, irados – Vamos, fale! Por que cabra do norte não presta?!

E ele respondeu, entre surpreso e irônico:

- Dizem que não dá leite...

 

                                                                Marcelo Gomes Melo

 

 

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                         A produção de heróis como meio de expiação

 

A criação de heróis é uma grande maldade com o eleito para carregar esse peso terrível de aglutinar todas as virtudes em um só, tornando-se quase um deus, alguém sem defeitos, infalível em todos os momentos, o exemplo para todos os mortais.

É possível que a produção de heróis aconteça para que o restante da humanidade possa jogar sobre eles todas as frustrações diárias, as incompetências naturais, as falhas e os pecados, aliviando as próprias mancadas com a desculpa de que apenas os heróis são perfeitos, e portanto são eles que não podem errar ou serão apedrejados sem piedade, pura maldade.

Quando julgam e condenam a quem eles mesmos elegeram como heróis, exercitam a hipocrisia humana em seu mais alto teor, pois nesse momento esquecem os próprios erros mais nojentos, as atitudes mais mesquinhas para execrar a quem foi escolhido para ser perfeito, coisa que não foi solicitada, sequer cogitada pela “vítima”, que acaba refém dos próprios conceitos éticos e respeitosos; um humano mais próximo do ideal de conduta que uma sociedade persegue, embora seja impossível, porque todos são falhos, uns mais, outros menos. A exposição das virtudes de um suposto herói é a intenção clara de encontrar alguém a quem crucificar para justificar e perdoar os próprios pecados. Heróis são criados por políticos e pela mídia, que faturarão enormemente nas duas hipóteses: quando exaltado como um ser superior e depreciado como um ídolo de barro, explorando qualquer falha e a elevando à máxima potência. Tudo por dinheiro. A fama e os lucros justificam qualquer coisa.

Hoje heróis são construídos e destruídos cada vez mais rápido; vivem as esferas do poder e a tristeza do ocaso, acabando de forma horrível e sendo esquecidos sem qualquer constrangimento.

Já dizia Raul Seixas, um sábio em suas viagens alucinógenas e alucinadas que ser comum é o ideal, permanecer invisível é o sinônimo de paz, e essa é a tranquilidade mais difícil de conseguir, tendo em vista que a juventude é instigada para buscar a fama, custe o que custar, por ser o meio mais simples de adquirir dinheiro e conforto com mais facilidade, o que é enganoso porque com dinheiro e fama o postulante precisa vender a alma, cercar-se de gente que vai manipular e usar até que nada reste, e no final ainda lucrarão com a morte e o post mortem. Lucro enquanto restar a mínima possibilidade.

Não há heróis! Os indivíduos devem ter consciência e assumir as falhas e erros que todos cometem, sem escudo, sem alguém para pagar por todos e aliviar as mentes pecadoras e hipócritas sempre prontas a sacrificar um herói para aplacar a ira divina com as sacanagens da maioria.

Sociedades são vítimas de um círculo vicioso, alcançam o apogeu e glória por um certo tempo e depois se autodestroem como em um filme de Tom Cruise; e assim segue a humanidade, imperfeita, se recusando a lidar com as próprias falhas, usando as mesmas receitas, obtendo os mesmos resultados decadentes, e só piora.

Mudar essa configuração é mudar a maneira de pensar de toda uma civilização. Parece possível?

 

                                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

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             A guerra dos corações dilacerados por amor!

 

Eu não posso cuidar do seu coração dilacerado de amor que você diz ser por mim! Não tenho como dobrar a carga que suporto carregar assim, e afirmo que é egoísmo de sua parte!

Sequer pensou que também possuo um coração e que sofro da mesma patologia que você, e por você? Não consigo afirmar que o meu coração está mais dilacerado do que o seu, porque confio plenamente que a dor de amor que sinto jamais será superada pela dor de qualquer ser vivo no universo, mas posso entender que amor impossível magoa e tortura, mesmo que em nosso caso seja recíproco, embora complicado pelo impedimento imposto a nós dois pelas nossas consciências, pelas pressões que infiltramos em nós mesmos.

Não existe amor impossível, garota! Existe amor improvável, amor não aconselhável, mas ainda assim são amores indiscutíveis. Assim é o nosso, e discutirmos sobre a dor que cada um sente por não estar junto de forma plena é pura falta de senso, porque o equilíbrio escoa pelo ralo e passamos a debater quem ama mais, e a culpar quem é vítima das dificuldades de repartir a cada segundo esse sentimento puro e letal. O sofrimento vem agregado a essa volúpia que buscamos saciar a cada instante?

Quando nos tocamos a instabilidade termina, nossos mundos se fundem, e não há mais ninguém que pertença a esse nosso novo planeta, que exploramos com cuidado, fartando nossos corpos e pensamentos com experiências maravilhosas, inigualáveis e inesquecíveis. Mesmo assim consideramos insuficientes e estamos aqui tentando convencer um ao outro sobre quem sofre mais, e para quem é mais difícil controlar as impossibilidades e as distâncias, abraçando todo o risco em cada situação que criamos para finalmente ficar juntos.

Eu sei, minha mulher, que cada momento que dividimos é inesquecível, e todas as vezes em que urge nos separarmos, a angústia é indescritível, a ponto de colocarmos para fora como acusação. É por isso que digo sem medo de errar: não posso cuidar do seu coração machucado quando o meu está em frangalhos! Nos limitemos a misturar os nossos prazeres e produzir um bálsamo que, embora passageiro, alivie os nossos corações indelevelmente apaixonados!

                                                                                            Marcelo Gomes Melo

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                                                     A dança dos enamorados

 

Essa é a dança dos enamorados, na qual todos os envolvidos lançam mão das mais diversificadas armas da paixão, sensualizando da maneira mais eficiente dentro das próprias características com o intuito de encantar e seduzir a potencial parceria.

A dança dos enamorados envolve um certo ridículo para quem está de fora observando os movimentos muitas vezes desajeitados, mas prontos para participar, largando a vassoura imediatamente e se submetendo aos absurdos da conquista. Não há limites de idade, dinheiro, preparo intelectual... Limite de coisa nenhuma! Basta respirar o perfume do amor, se deixar inspirar, enlevar-se e, tresloucados transmitir vibrações de prazer que, devidamente captados serão a cola que une os corações e as mentes.

O ritmo da dança dos enamorados varia conforme as afinidades, é atemporal e funciona sempre. Está no ar inebriando, influenciando nas ações e reações, permanecendo pelo tempo que os iniciados permitam, espalhando sensações de alegria, felicidade e prazer. As doses cavalares causam atitudes devastadoras, perigosas, porque tudo em excesso é mortal, e dançar permanentemente pode fragilizar ao ponto de partir os dançarinos. Corações partidos são efeitos colaterais inevitáveis, e podem descambar para os fins mais desesperadores.

A recomendação aos dançarinos é para que curtam as loucuras, as delícias até lamber os dedos, porque o momento passado não retorna, então é melhor relembrar o que foi vivido a lamentar o que foi perdido por medo, covardia ou falta de sensibilidade para perceber o que pode ser inesquecível.

Os enamorados mais experientes procuram mudar os ritmos e o roteiro de suas danças anteriores que terminaram por cansaço, ou abruptamente, sem nenhum sinal de que aconteceria. Mudar os passos não garante maior eficiência, mas novas emoções com certeza, o que não significa delícias garantidas, e pode terminar em decepções e tristeza.

A fórmula de qualquer coisa no universo não garante apenas delícias; com a luz vem a escuridão, com a alegria caminha a tristeza, com o calor vem o frio enregelante. Manejar bem as emoções para adquirir mais uns do que outros cabe ao usuário, e o que vai definir as suas vitórias são as próprias escolhas em conjunto com o improvável, o maravilhoso e o inominável.

A dança dos enamorados continua, os dançarinos do amor ajustam os passos, movimentam os corpos, retiram o biscoito da sorte, que está lançada. O melhor sempre estará por vir!

 

                                                                    Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                                            A ocupação

 

A ocupação começou há anos, tanto que nem lembro ao certo como aconteceu, o que provocou e como se deu. Foi um redemoinho de emoções inexplicáveis de ações inconclusivas gerando frustrações absurdamente inquietantes.

Uma ocupação assim, silenciosa é ainda mais surpreendente, invasão alien dos filmes de ficção, porque invade sem estardalhaço, e quando se percebe já era, irmão. Perdeu, playboy!

Aí é uma sequência de olhares furtivos, de mão roçando-se descuidadas, troca de palavras provocativas, sorrisos nervosos... E uma vontade torturante crescendo, dominando, instigando e fazendo ofegar. Transformando quase toda a razão em instinto puro.

E quando se olha em torno tudo o que você vê faz referência ao desejo, à necessidade e ao prazer.

Nesse momento alucinante imagine que a corrente se quebre. A distância se torne dolorosa e tudo o que transcorria para uma memorável conclusão amorosa imensurável se modifique sem acordo, apenas a sequência natural das coisas em um mundo ferino, cruel, insensível.

Mesmo essa distância, entretanto, não apaga sentimentos nem desejos, apenas os conserva em fogo baixo, sem queimar, mas, mantendo brutalmente aquecido, provocando visões espantosas de amor pleno e satisfação gigantesca que faz deitar sobre nuvens e observar o universo do lado de fora.

Finalmente, inesperadamente, um reencontro. Tranquilo, feito com atitudes superficiais, a cordialidade escondendo a selvageria de se apertar, amassar e misturar totalmente, com um “dane-se o mundo” engatilhado para tudo o que não disser respeito aos dois.

Duas almas eletrificadas pelo desejo milenar, sorrindo quase friamente, usando palavras sem sabor, recriminando-se internamente porque não é o que queriam, é apenas o que o politicamente correto exige.

A ocupação, meus senhores, ocorreu há tempos! Não há mais o que conquistar, já está tudo dominado. Em uma hora ou outra essa bomba relógio vai explodir e o tesão se concretizará, pleno, arrogante, atropelando como um trator os anos passados de vontade contida.

Isso é o mais próximo da felicidade? Não, não o é. Haverá longas conversas tentando entender, entremeadas por momentos de carinho, por horas de prazer, por dúvidas incontáveis e até desentendimentos prováveis.

A busca da felicidade completa é eterna. É a felicidade em si, difícil descobrir algo assim. Tempero.

 

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

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                                            Os escolhidos éramos nós

 

A manifestação lasciva daquela mulher sensacional, que sussurrou docemente em meus ouvidos todas as iguarias que a mim aguardavam ao final do dia. As promessas elencadas invadiram o meu pensamento, dominaram todas as sensações e determinaram durante o restante do dia o rumo das minhas atitudes, o ritmo das batidas do meu coração.

Todas as imagens daquela mulher vestida lindamente, caminhando de forma sensual naturalmente, para mim eram um banquete inacabável que gerava superpoderes àqueles que a observavam mover-se com tanto carisma, praticamente flutuando entre os meros mortais, enfeitiçando com o seu perfume, hipnotizando ao molhar os lábios generosamente, distribuindo mistérios ao sabor dos ventos, embaralhando o discernimento de um homem completamente entregue à existência dela, desejando obter cada um dos prêmios descritos por ela tão casualmente, em tom cálido finalizando com um leve toque no ombro com aquelas mãos macias e carinhosas, extensão de um maravilho corpo gerenciando por uma mente nobre e brilhante, a perfeição em forma de espécime humano.

O arrepio que percorria o meu corpo era constante e em diferentes intensidades, a cada promessa relembrada que me levou às nuvens e transformou o meu dia em um doloroso arrastar de horas que jamais chegavam ao fim, para que eu pudesse correr em direção ao prazer que ela representava e já estava em plena ação a partir das palavras emitidas por ela.

Não havia mais possibilidade de concentração em qualquer coisa que não ela; era um dia perdido profissionalmente e um dia ganho de forma pessoal, inexoravelmente.

Aquela mulher declarara definitivamente que eu era dela e ela era minha! Pertencíamos um ao outro e confirmaríamos in loco em breve, embora em meu âmago parecesse séculos.

Aquela mulher, com a sua respiração morna e lábios de açúcar, sexy por destino universal expressara com extrema realidade cada detalhe pecaminoso e particular, reservado apenas aos escolhidos para degustar inteiramente, intensamente prazeres indizíveis, incontáveis e inesquecíveis. E os escolhidos somos nós.

 

                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

                     Entrevista com um condenado interestelar

 

- Eu mato porque está vivo, porque se estivesse morto apenas enterraria.

- Essa é a sua explicação para ceifar vidas?

- Esse é o mantra que, em caso de recepção positiva, se tornará uma verdade universal, justificando a eliminação dos contrários.

- Esse mantra foi criado por você mesmo?

- Não, eu tenho um treinamento especial para executar o que a minha organização determina como vital para a nossa ascensão ao poder. O mantra vem deles, eu não possuo esses talentos. O meu corpo e a minha mente pertencem ao partido.

- E a alma?

- Alma? Não cremos em alma, somos frutos da simples divisão de células. É irrevogável, inegável, impossível de conter.

- Não há crenças, justiça?

- A única crença é no todo comandado por uns poucos. Justiça é tudo aquilo que nos favorece.

- Em caso de prisão pela parte inimiga, quais os procedimentos?

- Negar. Infiltrar os nossos mantras. Negar mais. Acusar. Negar vitimizando. Tentar correr. Destruir... Por fim, como última possibilidade, se autodestruir. Antes que enviem outros para nos destruir.

- A eficácia desse método é garantida?

- Para quem comanda, sim. Para quem sofre a lavagem cerebral, tanto faz. Para quem tenta mudar de lado... Sofrimento eterno pelo que pode acontecer.

- A luta é válida?

- A luta é a única forma de prazer. A razão para existir. Quem não luta é inútil. Quem luta é dispensável, uma ferramenta para alcançar um fim.

- E o que se ganha com isso, algum tipo de glória?

- Não existe glória individual. Não existe glória para acessórios. O todo é a glória, exercida pelos poucos que comandam o todo.

- Amor?

- Ouro de tolos. A emoção mais útil é a raiva. Fomente o ódio por qualquer coisa, inclusive o que desconhece e se tornará uma arma mais eficaz. Amor é fraqueza para justificar a existência do ódio e sua utilização por parte dos inimigos.

- A causa vale o esforço.

- O esforço é o que faz merecer a causa. Sem esforço pela causa você está morto.

- Qual é a causa?

- Ser contrário a qualquer coisa. O favorecimento da causa se reflete nos benefícios dos poucos que atuam no comando.

- Como funciona esse comando?

- Como uma pirâmide. Na base os fanáticos esfomeados; na faixa acima, os controladores, vigias; logo depois os responsáveis pela mídia e garantia de fixação da mensagem, lavagem cerebral. Os líderes dos matadores; e na ponta da pirâmide os responsáveis pelo funcionamento.

- Como chegam ao comando?

- Há requisitos desconhecidos. Obscuros. Os conhecidos são: crueldade, frieza, determinação para a maldade, egocentrismo...

- Obrigado pela entrevista. Ah, uma última pergunta. Acredita em vida após a morte?

- Só se for no inferno. Com licença, a cadeira elétrica me aguarda.

 

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                             Os seres mais asquerosos do universo

 

A insensibilidade vem se intensificando através dos anos, comandando os valores de uma humanidade espezinhada, enganada e vencida pelos detentores da comunicação, que as convence facilmente a optar pela autofagia, corroendo a eles mesmos e balizando a vida nas atitudes mais vis, abandonando os ensinamentos seculares que enraizavam valores mestres que determinavam respeito, hierarquia e consciência de que os deveres alimentam os direitos, para equilibrar a existência.

O planeta vem demonstrando insatisfação pelo modo como tem sido destruído pelos seus habitantes mais cruéis, e se reconfigura ostensivamente varrendo da Terra esses seres que se reproduzem indiscriminadamente e acreditam poder suplantar e controlar a natureza, julgando a si próprios deuses capazes de inventar novos gêneros, leis diferentes, regras horripilantes capazes de modificar a humanidade como a conhecemos.

Ao mesmo tempo ignoram o repúdio do planeta, parecendo não perceber o caminho sem volta que significa destruição irreversível, que faz pensar se esse não é o destino universal repetido durante Eras, com os planetas renovando a si mesmos, organismos vivos e puros, eliminando os vírus que de quando em quando os debilita, voltando a ser habitáveis para novos seres que duram o equivalente à suas capacidades de respeitar as leis universais e criar regras para conter o próprio e inerente apetite por destruição.

A vida é inacabável, imortal. Os seres humanos são vírus mortais que contaminam o ambiente e destroem a eles próprios não antes de corromper e piorar a tudo com que convivem. Falhos por invenção, conseguem fazer aflorar apenas os seus piores instintos, o que os leva à destruição completa apesar de, durante o seu período na Terra encontrem fortes indícios da maldade intrínseca e da ausência de qualidades, suplantadas pela hipocrisia, pela mentira e arrogância.

Reles receptáculos para vida imortal, humanos são morte em potencial, inutilidades em meio a um paraíso repleto de vida e de seres aos quais julgam inferiores, mas que os observam perplexos, incapazes de compreender o talento indescritível para sempre piorar, descer, exercer o seu único direito que é colher a decrepitude como herança de seres mais asquerosos do universo.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                              O amor em uma lápide

 

Não é óbvio que o amor surge e move montanhas. Isso se chama fé. Não é claro que a atração cai como um relâmpago e, como amor resiste a todo tipo de explosão, ficando indestrutível. Isso é loucura.

Não é sensato que o amor vai delinear o mapa da vida, comandando todas as ações durante todo o tempo, sem outros parâmetros que definam os rumos a seguir. Isso é ingenuidade.

O amor é bálsamo e é meio de sobrevivência, desejado por todos, mas encontrado por poucos, a julgar as decepções causadas por ele, de acordo com o depoimento das vítimas. Esquecem o período de luz e alegria vividos durante e guardam a tristeza e a dor para sempre. Isso não é amor, é burrice.

Provavelmente o tempo bom que se considera amor, com diferentes durações, não faça jus ao amor de verdade, que nem é percebido por ser muito mais profundo.

Os que lidam subjetivamente, adjetivando qualquer tesão como amor, qualquer relacionamento passageiro como amor, e parecem ser a maioria, não estarão simplificando, abaixando o sarrafo, diminuindo as expectativas e tornando a maioria em cínicos profissionais e a outra parte em céticos contumazes?

Ninguém pensa objetivamente sobre o que seria amor, excetuando-se os cientistas, atentos a fatos e não a subjetividade. Por isso tais estudos sempre serão insuficientes e não combinam com o que o amor é.

Poetas e apaixonados criam definições maravilhosas, imortais, estimulantes e perfeitas; mas estão sob os auspícios da felicidade gigantesca ou das dores atreladas ao amor para produzir tais pérolas, então a validade fica questionável, embora combine com o que a imensa maioria dos loucos de amor sentem e apregoam indiscriminadamente, passando vexame sem se importar, perdendo o controle das emoções a ponto de viver o ridículo e afirmar ser culpa única e exclusiva do amor.

No fim de tudo, o amor é indefinido por natureza. Pode ser bom ou nocivo, libertador ou aprisionador perpétuo, lindo e terrível... Há que se reconhecer que a definição é impossível, serve apenas momentaneamente, de acordo com a sensação que embala os que vivem. Mais simples dizer que o amor transcende as reações, ultrapassa o momento, supera o desespero, vence as improbabilidades, doma a inconstância e permanece incólume, mesmo que não se imponha durante muitas situações.

Amor deve ser aquilo que permanece ao lado da esperança, o que continua tatuado em qualquer pessoa sem tirar dela o gosto da realidade, que nem sempre permite que ele floresça. Amor deve ser a moldura da vida, cercando a todos sem necessariamente ser alcançado.

Em uma lápide receberia a seguinte inscrição, porque não morre ou porque ressurge: “Não se sabe...”.

 

                                                                                                      Marcelo Gomes Melo

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                      O amor proibido jamais será suficiente

 

Todo mundo deseja um amor proibido para sofrer e ficar excitado, imaginar as mais quentes baladas, comer spaguetti frio no tapete da sala. Transar através do olhar, trocar insultos ao invés de beijar. Renegar os pecados ainda nem cometidos, tentar punir-se por pensar em coisas gostosas...

Amores proibidos platônicos inserem novos viveres, realizações impossíveis que, por serem impossíveis aproximam-se perigosamente do real. Todo mundo guarda um amor proibido para sair da rotina, sentir o coração acelerado e as pernas tremendo, trocando olhares de supermercado, sem razão de ser, quando se olha por olhar, mas por dentro...

Amores difíceis com canções insistentes tocando nos momentos mais inapropriados, situações embaraçosas sem que o resto do mundo o saiba, mas o medo de dar bandeira é enorme, mesmo que não haja a mínima chance, a não ser que os mesmos se denunciem. O amor de faz de conta jamais será suficiente, diz a canção, porque no fim tudo se torna real, e ao tornar-se real compromete todos os desejos, modifica todas as chances e o jogo prossegue, causando sorrisos e decepções, intrigando por ser eterno, resistindo aos séculos, provocando casais, espalhando memórias que durarão uma vida inteira mantendo acesa a lanterna da esperança de que algo finalmente se complete; mas aí deixará de ser proibido.

Todo mundo deseja um amor proibido para sofrer e ficar excitado, imaginar as mais quentes baladas, comer spaguetti frio no tapete da sala. Transar através do olhar, trocar insultos ao invés de beijar. Renegar os pecados ainda nem cometidos, tentar punir-se por pensar em coisas gostosas...

Amores proibidos platônicos inserem novos viveres, realizações impossíveis que, por serem impossíveis aproximam-se perigosamente do real. Todo mundo guarda um amor proibido para sair da rotina, sentir o coração acelerado e as pernas tremendo, trocando olhares de supermercado, sem razão de ser, quando se olha por olhar, mas por dentro...

Amores difíceis com canções insistentes tocando nos momentos mais inapropriados, situações embaraçosas sem que o resto do mundo o saiba, mas o medo de dar bandeira é enorme, mesmo que não haja a mínima chance, a não ser que os mesmos se denunciem. O amor de faz de conta jamais será suficiente, diz a canção, porque no fim tudo se torna real, e ao tornar-se real compromete todos os desejos, modifica todas as chances e o jogo prossegue, causando sorrisos e decepções, intrigando por ser eterno, resistindo aos séculos, provocando casais, espalhando memórias que durarão uma vida inteira mantendo acesa a lanterna da esperança de que algo finalmente se complete; mas aí deixará de ser proibido.

 

                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

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                             As mulheres que controlam o mundo

 

As mulheres são estranhas, dizem uma coisa e fazem outra. Tentam adivinhar o que pensamos e nos recriminam porque têm a certeza de que o que elas pensam que pensamos é errado.

Nos fazem uma pergunta e, antes que tenhamos a chance de responder, respondam por nós, e insatisfeitas com a resposta que deram, brigam!

Se retrucamos, ficam ainda mais ariscas, mas, quando calamos para evitar desgastes, a fúria triplica e então chovem imprecações, reclamações, choro e auto depreciação, até que nos sentimos culpados. Do quê? Nem sabemos! Elas manipulam o cérebro e a imaginação de um homem, que, quanto mais inteligente se submete.

Os que costumam resistir o fazem com virulência e perdem a razão, colocam-se no caminho da guilhotina com mais facilidade, e tentam não demonstrar o quanto estão destruídos por meios indignos, como a bebida, por exemplo, ou a violência. Esses são os ogros dominados pela falta de imaginação, terminam pateticamente arrasados pelos artifícios femininos.

As mulheres sempre controlaram o mundo e sempre o controlarão, de maneira direta ou indireta, com a multiplicidade dos seus pensamentos e ações, com as sutilezas que as tornam invencíveis em um mundo masculino.

Um mundo masculino que não sobreviveria sem a arte e a força da mulher. Um mundo de fantasias em que todos assumem e interpretam os seus papéis. Os homens fingem que dominam e as mulheres fingem que são dominadas. Presa e predador se confundem e se imiscuem, fazendo girar a grande roda da existência.

O equilíbrio, entretanto, dá-se pela competição entre as mulheres. Umas desafiam às outras e isso dá a chance de nós, homens, alcançarmos uma posição mais ou menos segura, escravos dissimulados, transformados em senhores de absolutamente nada.

O homem que é escolhido pelas mulheres certas tem a impressão de que escolheram e acham que decidem os rumos da vida sozinhos, portanto são fortes e importantes. Os que perdem a supervisão de suas mulheres desabam velozmente e são colocados à margem como canalhas desprezíveis, criadores das maquinações mais tolas e ridículas.

Hoje a sociedade procura expansão de gêneros, tentando compartimentalizar pessoas, ideias e ideais em nichos, com intenção de controlar a tudo e a todos mantendo-os em guerra permanente uns contra os outros. Não existe paz, e esse é o truque do século para mudar regulamentos importantes, enraizados, que propiciam a evolução constante. Mudando completamente as regras, transforma-se a sociedade, e o risco iminente de as mulheres perderem o controle por causa da falada diversidade fica cada vez mais perigoso.

Cabe às mulheres que controlam o mundo perceber que, nem elas, nem os homens terão controle ou harmonia, na próxima configuração de humanidade que se apresenta. Será a isso o que definem como final dos tempos?

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

                                                    Ignóbeis sensações

 

Eu me afundava em seus cabelos escuros e absorvia aquele perfume suave; permitia a mim mesmo inebriar o meu cérebro ao ponto de parecer patético como um passarinho alimentando-se de sobras, aos poucos, sem nenhuma outra intenção contumaz.

Quando me dava conta reclamava da ausência de retorno, ela era indiferente a arroubos sentimentais, vivia de diversão momentânea, corroendo sentimentos puros como se degusta amendoim em um parque, sem pensar muito nisso, descartando as cascas com o pensamento longe.

Ninguém se satisfaz. Cobram coisas um do outro impossíveis de obter. Ela pensa friamente, aceita mentiras de amor e ignora o troco, simplesmente vai embora para outras percepções, conhecimentos, um tipo de felicidade seca, que se parte no meio do prazer, deixando a nítida sensação de que não foi o suficiente culpando a vítima por não concluir os desejos individuais de quem não pretende retribuir.

Pensar nisso enquanto o espaço entre os corpos se encurta é simplesmente impossível; todos os que tentaram foram derrotados, saíram desapontados e se achando injustiçados.

Não percebem que ela, que controla os botões da situação sai tão ferida quanto, mas não consegue consertar porque se acha a única vítima, não notando o rastro de sangue que lhe segue pela estrada infindável.

Amor? Não há. Prazer? Talvez, caso consiga definir. Confiança? Nenhuma, a não ser na chegada mais cedo ao precipício, ou mais tarde, para prestar contas sabe-se lá a quem.

 

                                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

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                                                      Incomunicável

 

Incomunicável. Fazendo tranças nos cabelos para não esquecer a quantidade de inimigos que deveriam ser abatidos por atos de traição e covardia. Afiando a navalha do vocabulário para destruí-los com argumentos invencíveis, insultos enigmáticos, deixando a sensação de inferioridade a quem supunha estar anos-luz do restante da humanidade, mas estavam apenas sendo arrogantes, ingênuos e intragáveis.

A cada gole de água pura um sorriso amargo fruto de pensamentos ruins contra os adversários do povo, os cínicos populistas dispostos a qualquer coisa para manter o status. A cada respiração profunda um pensamento impuro a ser realizado com aquela que provocou o tempo todo mesmo sabendo das consequências futuras, do perigo de brincar com quem não se conhece o suficiente para se ter o controle inútil em circunstâncias tão debilitadas que repartiria a dor em pedaços desiguais; alguém sempre sofre mais. Não corra, não morra.

Sob o sol, sob o céu, com os olhos fechados e a mente aberta para o desconhecido, despido das emoções fabricadas, submetido às emoções verdadeiras, um choque da existência material com a existência espiritual, corroborando uma reles subsistência emocional, colocando-se com um ser insignificante frente a um universo tão poderoso que permite que as coisas simples, portanto perfeitas sejam vistas como o são, sem causar transtornos filosóficos nem teorias insanas; isso fica para os detratores do óbvio, a quem se deve negar o benefício da dúvida para que se debatam como um peixe fora d’água, procurando um habitat há muito poluído e modificado, condenando-os ao esquecimento mais doloroso. Jamais existir por nenhum feito, sequer através de uma enorme burrada científico-filosófica sem valor algum, a não ser juntar quadrúpedes incapazes de qualquer raciocínio, límpido ou não.

Incomunicável. É o prêmio por conseguir afastar-se da mediocridade sem fazê-los perceber o motivo, sem ofendê-los com a realidade. Exaltando-os silenciosamente como o rei dos tolos enquanto existirem e insistirem.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                          A noite mais escura da vida

 

A noite está tão mais escura! O vento quente que se abate sobre mim não carrega, apenas cozinha, os meus pensamentos de tristeza mortal.

Todos os rios que correm através da cidade são como veias em meu corpo transportando sangue pisoteado e coagulado, levando-nos ao fim. Não há saída para os horrores que nos atormentam!

Soldado até o fim, aperto o punho da espada com ódio, mas, algo me impede de buscar por justiça rápida. Acreditar ou não é tarefa hercúlea quando se trata de paixões rebuscadas, talhadas em mármore frio que ofusca a visão com o advento inclemente do sol.

O meu corpo que jamais pertenceu senão à bela dos séculos agora treme e suplica por vingança soberba, hostil, inesgotável. Apenas a minha mente sóbria, ligeiramente empanada pela dor poderia brecar os movimentos rústicos, destruidores que saciariam o meu desejo por sangue.

Ah, se fosse possível descobrir a verdade além da realidade é sanar todos os tormentos com apenas um golpe! A força é suave e estrondosa, um terremoto seguido de ondas terríveis destruidoras, que arrasam impiedosamente por onde passam sem remorso, sem sentimento, apenas algo que deve acontecer.

O brilho dos meus marejados olhos não contém as piores sensações que tive comparadas aos momentos inebriantes e felizes que tenho vivido através dos tempos.

A noite está tão mais escura por sua causa! O frio que me acomete é tanto que magoa os ossos, porque você não vem! Você não virá e eu estarei até o final dos meus dias aqui, como um soldado sem batalha, a espada em repouso, a mão crispada na empunhadora sem expectativa de felicidade.

No fim o que sobrou para os valentes, como eu? A cama vazia, o templo vazio, a mente vazia... O crepúsculo anunciará boas novas? Ou os terrores causarão ainda mais desencantos?

 

                                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                          O preço para a imortalidade

 

Elisa, não se esqueça que as pessoas morrem de amor, ou por amor, mas o sofrimento jamais as mata, só torturam infinitamente.

Nunca há luz no fim do túnel porque no meio do caminho há um abismo que lhe engole e lhe faz sucumbir ante a isca mais fácil de usar: a luz.

Esse seu olhar de “porque você não se suicida para evitar que eu o mate e vá para a prisão” não me comove nem um pouco, eu defendo os meus argumentos com bases fortificadas e dou garantia do que afirmo, tendo em vista experiências pessoais assombrosas.

Também lhe digo, querida Elisa, que tais experiências não me eliminaram convívio humano apenas porque eram puro sofrer, dor e mágoas bem distribuídas pelo tempo e significado.

O sofrimento purifica a alma, dizem, mas as cicatrizes mascaram a ira com que se vive, contendo ao máximo a vingança, rangendo os dentes e esperando que o troco seja bem aplicado por parte de outras pessoas, justamente porque é impossível a alguém retaliar sem se transformar em um vilão no olhar do restante de almas hipócritas e julgadores, não importa a razão que se tenha.

Reitero, Elisa, minha santa, que o sofrer adora vir em doses constantes, mas não tão forte que lhe tirem os sentidos, ou não haveria razão para acontecer.

Por essas e outras razões venho através desta confirmar o meu fim próximo, o meu afastamento da horda de sofredores, porque em breve descerei a rampa dos condenados em direção ao hades, a caminhada final, e serei esquecido de pronto sem saber se esquecerei da mesma forma, ou continuarei a remoer um amor rejeitado para todo o sempre.

Essa é a minha declaração, Elisa, de óbito e de amor por você, o que confirma a minha teoria e me faz partir vencedor dessa vida incoerente. Morrer por amor é plenamente possível, até esperado. É esse o fim que todo amor tem. Mas o sofrimento, Elisa, ah o sofrimento! É o preço que se paga pela imortalidade!

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                                    A forca na varanda

 

Havia uma forca na varanda. Pelo menos era o que parecia daquela distância, ao anoitecer vista da casa do outro lado da rua. A iluminação era precária, só se via uma vela tremular através da janela, o resto era escuridão.

Aqueles metros de corda pendurados na varanda com o que parecia ser um laço na ponta chamou a atenção dos vizinhos da casa frontal, tendo em vista que o ermitão que lá morava mal era visto à luz do dia, carrancudo e arredio, claramente sem intenção de socializar com os vizinhos curiosos.

Eram casas construídas em suas fazendas ou sítios, longe umas das outras, o que facilitava a intenção de não interagir com ninguém do homem que lá morava. As crianças o tinham em conta como um velho rabugento que jamais devolvia as bolas intactas quando acidentalmente caíam dentro de sua propriedade. Voltavam murchas, esfaqueadas, sem uso para o esporte que praticavam.

O homem barbudo de cabelos longos e grisalhos trajava sempre camisa branca de mangas dobradas e suspensório em vez de cinto para segurar as calças no trabalho. E as botas de vaqueiro completavam o visual. Era algum tipo de psicopata, diziam as mulheres umas às outras, e evitavam falar com ele, convidá-lo para algum bazar beneficente na igreja.

Aos homens restava a teoria de que ele sofrera alguma desilusão amorosa e não queria mais contato com as mulheres em geral.

A forca só era vista à noite, quando a vela acesa na janela da cozinha tremulava açoitada pelo vento, causando um efeito aterrorizante.

Será que o homem iria se matar? Tinha mesmo cara de psicopata, diziam alguns, torcendo para que seja lá quem fosse não tivesse ouvido o copo cair estilhaçando-se no chão da cozinha.

Apostas passaram a ser feitas na casa da frente, em que as pessoas sentadas nos degraus bebendo cerveja propositalmente tentavam, invisíveis, descobrir qual o motivo da tal forca na varanda.

Usavam binóculos e filmavam com os seus celulares, procurando uma história excitante que culminasse em suicídio ou coisa que o valha.

De dia, ao transitarem disfarçadamente de um lado para outro na frente da casa, nada enxergavam que pudesse refutar ou concordar com as teses. Nada de corda pendurada durante o dia, nada de vela acesa, nada de viva alma naquela residência assustadora.

Um ritual satânico foi cogitado; uma brincadeira de mau gosto para zombar da curiosidade deles também foram citadas na lista de motivos para aquela cena que se repetia todas as noites.

Virou rotina e os vizinhos foram perdendo o interesse no jogo; já não se sentavam à noite para observar a vela tremulando nem a peça de corda que lembrava uma forca.

Eis que uma manhã dessas acordaram com inúmeros carros de polícia isolando a área em torno da casa e um corpo pendurado pelo pescoço balançando ao sabor do vento, pescoço quebrado, asfixiado, morto, suicidado finalmente.

Os vizinhos trocaram olhares e contaram à polícia tudo o que sabiam sobre a forca na varanda, mas não tinham uma palavra sequer de conhecimento sobre o homem que tirara a própria vida daquele jeito, um solitário a mais no mundo, sem amigos, sem família, sem ninguém.

Na noite seguinte não havia mais corda na varanda; muito menos vela tremulando naquela casa. Apenas escuridão total e completa.

Os vizinhos passaram a conversar e beber como antes, só que agora com a luz acesa, esquecidos rapidamente do que acontecera do outro lado da rua.

É, as pessoas perderam mesmo a capacidade de se emocionar...

 

                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

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                      Sob o signo dos ferimentos incuráveis

 

Um homem deve conviver com a sua planificação malfadada, com os seus enganos teimosos e falsa convicção que o leva às entranhas de suas falhas, para que sobreviva, saindo de um labirinto, como Teseu, só que criado pela sua própria alma, que o obriga às decisões mais polêmicas.

A juventude oferece energia para que se esmurre pontas de faca e, com orgulho siga-se ladeira abaixo sem perceber as bobagens que se comete em nome da falta de experiência e ambição desmedida.

Com o passar do tempo, o envelhecer oferece marcas indeléveis que servem para lembrar dos erros e não mais cometê-los, ou reaviva-los com a mínima possibilidade de superar e considerar-se um vencedor.

Vive-se uma época em que a juventude é exaltada como mais importante do que o conhecimento, a capacidade de regar para manter os frutos já conquistados como base para as escolhas futuras, as novas descobertas sem o uso de inteligência prévia para evitar problemas pode destruir mais do que colaborar com o que já foi conquistado.

O desprezo pela história vivida e eternizada insere no presente extrema dificuldade na convivência social em que os mais velhos são colocados à margem, como se a colaboração preciosa não fosse o bastante para que sejam considerados. Tentam conquistar tudo do zero sob uma perspectiva totalmente nova e desconhecida, com falhas inerentes que causarão caos e destruição, até que as ideias envelheçam e adquiram ajustes; mas então novos jovens arrogantes desprezarão as ideias maturadas e um novo ciclo se iniciará, obrigando a uma população inteira a viver sob o signo do engano e dos ferimentos incuráveis.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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        Quando a luta para não pensar racionalmente é motivada pela chance de brilhar

 

As cicatrizes que carrego hoje em dia parecem invisíveis para o resto do mundo, mas se fazem presentes violentamente, impiedosas, magoando na mudança de tempo e temperatura, me instigando a tomar atitudes pouco recomendáveis para alguém que aparenta tanta segurança e tranquilidade na arte de interagir socialmente.

Inspirar fundo revigorando o corpo com oxigênio limpo, permitindo aos perfumes naturais invadir a alma e conectar o pensamento a um grande vazio, geralmente associado à morte e ao esquecimento, mas realmente aconchegando a um limbo natural que enriquece e revigora para o retorno à rotina diária que, sem esses benefícios, murchariam e sumiriam do centro das atenções sociais que significam status e eficiência.

O truque é não se deixar cair na armadilha de tentar esconder as dores e vender uma falsa alegria plástica e inodora, que pode causar inveja momentânea, mas a longo prazo se mostra patético e constrangedor.

Valorizar as conquistas só é possível curando as feridas das batalhas, reconhecendo as dificuldades e honrando o adversário sem arrogância e antipatia.

As cicatrizes podem ser sentidas por quem as toca suavemente, sem medo ou asco, reconhecendo o heroísmo e verificando beleza na arte de carrega-las com dignidade.

A procura da perfeição estética é inútil, visto que a beleza é ímpar e de escolha individual, portanto a tentativa de criar e obrigar a aceitação de padrões gera idiotas. E a coisa piora quando esses escravos abrem a boca e justificam plenamente a possibilidade de não serem considerados seres pensantes.

 

                                                                             Marcelo Gomes Melo

 

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                                         Receita para localizar aliens

 

Caminhe aleatoriamente pelas ruas lotadas das grandes cidades, observando disfarçadamente o comportamento, as reações e a estética dos transeuntes. Lembre-se de não chamar a atenção de forma alguma; não demonstre surpresa nem encare durante horas, ostensivamente, deixando claro haver percebido recortes surreais sob a aparência quase humana e o comportamento impactante. A seguir alguns exemplos mais comuns do que parecem que você jamais se deu conta.

Cerca de 1,60m, pele esverdeada, cabeça enorme, desproporcional ao corpo de ombros estreitos, sem pescoço, sobrancelhas hirsutas, coladas uma na outra; olhos esbugalhados, boca grande de lábios finos, joelhos grandes, canelas secas, pernas curtas. Braços enormes com as mãos tocando os tornozelos, pés chatos com dedos separados, voz esganiçada com sotaque forte, dialeto diferente e andar balanceado, firme como o de um pinguim. Pensou nisso? Ah, mas você descreveu um retirante nordestino da zona da mata sofrendo de hepatite. Ou um alien perfeitamente entrosado entre nós, ajudando a construir um país moderno de prédios altos e extravagantes?

Mulher de cabelos louros em formato de moita, provavelmente coloridos artificialmente, pele pálida disfarçada por camadas e camadas de maquiagem, lábios e bochechas ligeiramente distorcidos pela aplicação de Botox, olhos claros como o céu, frios como gelo em formato de borracha sendo esticada fortemente para os lados; alta e magérrima, com pés pequenos demais para a altura e saltos finos impossíveis de equilibrar um humano na vertical, muito menos andar, dobrando os joelhos e movendo o pescoço para a frente e para trás ao mesmo tempo, tal e qual um ganso caminhando, usam roupas coloridas que ajuda a camuflar no ambiente, tirando a atenção da aparência bizarra, hein, hein? Uma modelo antiga tentando se manter na moda ou um outro tipo de alienígena circulando livremente entre nós, com uma agenda definida da qual não fazemos ideia?

E aqueles seres enormes, loiros, com cabelos de plástico e bigode ralo, orelhas largas e moles, mãos enormes e frias, vestindo gola alta e caminhando com as mãos nos bolsos, pés enormes e finos de passadas largas, que parecem sempre estar olhando para todos os lados, desconfiados, levando embrulhos suspeitos ou falando ao celular enquanto fumam cigarros estranhos no meio dos viadutos. Não lhe chamam a atenção? Trata-se de mais um vendedor de automóveis inocente ou um conspiracionista intergaláctico no nosso meio, tramando a dominação final do planeta?

Já observou a si mesmo no espelho, antes ou após o banho? A pele borrachuda molhada, aparecendo impermeável, os dedos das mãos grossos, as palmas como pergaminhos antigos com uma mensagem ainda não decifrada que desvenda o seu propósito na Terra? Não?! Os sonhos estranhos dos quais lembra parcialmente e parecem tão reais, um dejavu permanente que te incomoda por pouco tempo antes que retome o ritmo e esqueça dos questionamentos?

Seria você um alienígena convencido através de lavagem cerebral ser um terráqueo comum reclamão, chorão e, irremediavelmente astuto para coisas bobas, mas raso intelectualmente para acreditar na falsa profundidade de filósofos ateus que gritam “meu Deus” sempre que perdem o ônibus ou o elevador?

Seremos todos aliens em um planeta Terra cuja real população, a original seja aquática simplesmente porque há mais água do que terra no planeta?

E se formos todos aliens buscando um sentido em ser terráqueo inutilmente, por um período de vida insuficiente para descobrirmos alguma pista correta?

Há que se ter muito tempo e falta do que fazer para perder momentos preciosos em tais teorias conspiratórias, embaraçosas e engraçadas. Ou não?

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

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                      As piores pessoas no comando do mundo

 

Todos desejam opinar, mesmo que desconheçam o teor do fato a ser opinado. Querem se inserir em um contexto o qual desconhecem, pré-julgam com enorme facilidade, e a desculpa não é a mesma em caso de erro, exagero e engano. A intensidade desabafa e a vida segue como se nada houvesse acontecido, as reputações abaladas e assassinadas sem volta, e a sanha de destruição odiosa cada vez mais veloz segue incólume, como se nada tivesse acontecido.

Opiniões baseadas no “ouvir falar”, conspirações que se espalham como fogo no matagal apenas por atingirem gente despreparada para entender o que está acontecendo, analisando friamente os fatos, oferecendo o benefício da dúvida para evitar linchamentos morais impiedosos que não terão mais volta.

A fama suposta que se obtém crucificado as pessoas apenas para fazer parte da maioria fica cada vez mais atraente para os seres invisíveis que não querem passar a vida inteira sem alguns segundos de fama, mesmo que isso custe decisões enganadas que causam muito mal e destroem, esmagam as vítimas sem nenhuma piedade.

O senso de justiça está morto e enterrado, as decisões são tomadas pela régua da maioria, dos que gritam mais alto e não demonstram o mínimo escrúpulo na arte de respeitar ao próximo. Hipócritas apregoam as próprias virtudes ignorando o dobro de defeitos que têm, incapazes de viver honestamente, sem inveja, sem julgar os outros pelas próprias atitudes.

Não há como fugir desses escravos mentais que torturam seus pares apenas para ter o que falar, e nada melhor do que subir usando as pessoas como degraus, sorridentes e indiferentes como se nada tivesse acontecido.

Quem ostentar mais, fazendo cara de humilde e voz sepulcral lendo pronunciamentos repetitivos, prolixos, imprecisos e mentirosos, largará na frente com maiores chances de superar os menos espertos.

E a maldade se espalha nesse tom, criando novas formas de matar, e insensibilidade para perceber que a maioria que mata não é sobrevivente, é um grupo de sacanas desavergonhados que comandam o mundo da pior maneira possível.

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                    O amor ciumento com o passar dos séculos

 

Cruel e maldoso, possessivo e belicoso. Sempre disposto a implicar e exigir, a pegar e demonstrar, por vias tortas, os sentimentos certos.

Mordaz e insensível, insensato e sensitivo, embaralhando as cartas marcadas como se dependessem da última vida, não aceitando argumentos, declinando desculpas, acusando bravamente, sofrendo e fazendo sofrer.

Um poder ilimitado de desconfiar, entender errado, bradar suas teses sem aceitar contra argumentos, loucura patética e insônia voraz. Ódio contumaz momentâneo, garrafas e garrafas de álcool esvaziadas, canções de teor duvidoso e lamentação vergonhosa.

Ameaças infundadas, dias escuros, dores de cabeça, juras de morte e fuga da maturidade. Admissão parcial de culpa, conversa atravancada de olhos baixos e acusações veladas que podem reacender repentinamente a fogueira das vaidades, a tentação de sobrepujar ao outro mesmo que isso vá causar tristezas pessoais intransferíveis, como tomar veneno e esperar que o outro morra.

Acabrunhar-se por dias, escorando-se nas amizades para desabafos homéricos em troca de tapinhas nas costas e um “vai ficar tudo bem” ensaiando e constrangedor.

Um arremedo de violência contra a outra pessoa, não concretizado, transferido imediatamente para si mesmo com promessas vazias de suicídio, envenenamento, residência incendiada... Ida para o inferno por escolha própria em busca do sofrimento eterno e da dor irreparável.

Tudo muda, entretanto, em piscar de olhos, quando uma frase combina subitamente, um pedido de desculpas febril é sussurrado, de ambas as partes, o choro se transforma em sorrisos e promessas de reconciliação eterna, que jamais será abalada por qualquer bobagem, o sol voltará a brilhar e o orgulho retornará aos corações e cabeças erguidas, de mãos dadas pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

Isso, meu caro, é o amor enciumado, a insegurança espalhada e disseminada relacionamento adentro, a necessidade perene de confirmação de fidelidade e amor recíproco.

Bem, isso antes da Era do feminicídio, do machocídio e outros neologismos bizarros com os quais a sociedade tem que aprender a lidar até que novas modas se insurjam no dia-a-dia a ponto de abalar as regras implícitas dos amores problemáticos.

Os séculos se atropelam enquanto as diferenças mudam e a batalha se acirra por ideais recém construídos por novos idiotas. Mais do mesmo, sobreviva a isso quem for mais apto.

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

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                                   A permanência sob os temporais

 

Eu quero permanecer sob a chuva, o mundo está tremendo como os meus sonhos. Aturdidas, as pessoas procuram lugares em que se esconder para observar os raios e sentir os estrondos dos trovões impiedosos, atestando que há algo de beleza no que, ao mesmo tempo é assustador.

Eu vou permanecer sob a chuva densa que empana os olhos e massageia o lombo sem pesar, lavando a alma, esquecendo coisas, percebendo que a maior importância reside naquele exato instante e não no que compõe a vida, passado e futuro.

O momento que desnuda o ser, uma raridade em uma sociedade oposta; a verdade é que esses momentos acontecem diversas vezes, mas poucos têm a coragem ou o interesse em reconhecer, porque equivaleria a assumir uma enorme mudança, uma guinada total, sem concessões para o restante da existência.

Sob a chuva, o temporal, nada importa se você acreditar que o sol logo estará misturado, e em sequência assumirá o comando por um bom período. O sol é a realidade mais comum, não assusta as pessoas e costuma cobri-las com qualquer surpresa. Os temporais também acontecem para todos, mas não costumam ser abraçados por todos, encarados de frente e superados como é feito com o sol.

Eis que pretendo confrontar os temporais, tirar o melhor das minhas dúvidas, sobreviver à escuridão momentânea que pode assombrar por um período, mas jamais para sempre, e o resultado sempre dependerá da força interior, das escolhas pessoais, do imponderável que é estar sob a chuva, só, feliz, triste, igual.

 

                                                                                Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                   A imensa vontade de destruição

 

Julgamentos são feitos o tempo todo, como se fosse direito adquirido decidir as mazelas alheias, sabendo ou não do teor verdadeiro pelos quais atravessam o dia-a-dia.

Cumpre lembrar que humanos são julgadores em potencial, e o fazem sem o menor pudor, desencadeando tragédias e reputações destruídas justamente pela velocidade com que impulsionam o desejo de reprovar e repreender a quem quer que seja, com informações superficiais e insuficientes, mesmo que tivessem o direito de fazê-lo, o que é impossível.

Decidir o rumo da vida dos que se expõem virou atração diária nos meios sociais, assassinatos de reputação acontecem sem nenhum cuidado, e se o erro for apontado, é feito em escala muito menor, permanecendo a marca no indivíduo mesmo que inocente do que foi acusado.

Ninguém se importa com ninguém, vivem em ataque e destilam hipocrisia em larga escala para satisfazerem o próprio ego. Há algo em comum nesse tipo de gente: todos querem ir para o céu. Escondem os seus defeitos a sete chaves e acreditam que são melhores e não devem ser julgados da mesma forma que julgam, porque o deles são apenas deslizes, e o dos outros pecados mortais.

O que era certo transforma-se em errado, e o que era errado ganha tolerância com os argumentos mais odiosos e desprezíveis que se pode imaginar.

Gente tomando atitudes com intenção de chocar a sociedade e conseguir dividendos com isso, status e inclusive seguidores fiéis dispostos a crer no absurdo e aceitar o bizarro, transformando a sociedade em um imenso círculo em que se bate palma para louco dançar.

O anormal vira norma, e o comum precisa ser exterminado. É a descida desgovernada em direção ao final dos tempos, com malucos sorrindo e dizendo asneiras tanto quanto se respira. Não existem regras de convivência, apenas uma imensa vontade de destruição.

 

                                                  Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                                Amor em tempos de corte no orçamento

 

Nada de motel. Nada de jantares em restaurantes caros. Nem baratos. Nada de jantares à luz de velas, nem de lanternas. Nada de lanches no McDonalds. Nada de presentes de aniversário, de dia dos namorados ou lembrancinhas de qualquer tipo. Esqueça.

Nada de viagens para perto, longe, de trem, ônibus, jegue ou a pé. Nem pense em bebidas chiques, comidas gourmet, sequer farinha de mandioca com mel de abelha.

Viveremos de amor! Surfando nas nuvens da fome, nadando nos oceanos de prazer da inanição, sambando nas churrascarias veganas, sonhando com as feijoadas do tesão e macarronada do casório perfeito!

A nossa vida em uma choupana que não abriga da chuva e não protege do frio, deitados sobre folhas de bananeira, bebendo água dessalinizada artesanalmente e comendo peixe sem tempero, banana verde e sopa de pé de pombo será abençoada por Deus e bonita por natureza, mas que beleza!

O nosso amor de cada dia abominará a rotina, pois a cada dia nos reservará surpresas inesgotáveis. Catar latinhas, cobre e papelão trocando olhares hipnotizantes de paixão, dividir a fila do SUS com sorrisos ternos, de mãos sujas dadas, fedendo a porco molhado, sem saber o que é um banho há meses...

Ausência de reclamações, lamentos, acusações ou atitudes mimadas explicitamente pela falta de forças e energia. O amor tão resistente quanto o vírus da gripe, capaz de atravessar barreiras e empalidecer a qualquer um.

Os olhos mortiços e nublados emprestam um artifício novo que possibilita enxergar uma beleza que só pode ser exterior. Uma vida de abstinência às armações midiáticas que lhe fazem consumir desesperadamente, sendo enganados a um ponto de não sobreviver sem os vícios dos produtos novos, dos lançamentos tecnológicos e novidades politicamente corretas que ajudam a disseminar a hipocrisia universal.

Quantos são os casais dispostos a um amor assim? Inviolável, irresistível, quase mortal? Quantos são os casais modestos o suficiente para abandonar os frutos dos amores artificiais e velozes de hoje em dia, que acontecem e acabam tão rápido quanto uma estrela cadente? Quantos viverão de amor e pelo amor? Há alguém?

Entendem agora o que querem dizer os poetas através dos tempos?

 

                                                                          Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                                             A mulher que me amava

 

Ela não afastava os olhos dos meus quando, segurando as minhas mãos em concha cobriu os próprios seios, protegidos por um tecido macio que não disfarçavam o calor aconchegante nem os mamilos túrgidos que atacavam as minhas palmas e me tiravam do solo, sem peso, flutuando como na lua. Ela pretendia ler a minha alma através dos meus olhos escurecidos e brilhantes, febris.

Tudo o que conseguiu naquele momento foi ceder à tentação de baixar os olhos e presenciar o volume que denunciava a minha total fragilidade ante o seu perfume. Instintivamente me pus a roçar em suas coxas, entre elas...

Quando pressionou as minhas mãos, que segurava sobre os seios, me obrigou a apertá-la, as palmas deslizando; isso a fez suspirar me levando um passo à frente em direção ao seu corpo, que ficou entre mim e a parede. Forcei a coxa entre as dela. Os olhos grandes e escuros brilharam ainda mais, e os lábios se entreabriram com o maior dos convites da Terra.

Não havia outros sons além de respiração ansiosa, leves toques sobre roupas desnecessárias; toques suaves, mas firmes. Não havia hesitação, o que existia era esquecimento. Habitávamos outro planeta no qual não havia outros habitantes. Não saberíamos, depois, dizer como começou, nem por que começou; isso não importava, porque o tempo parara.

Os lábios se colaram, macios, famintos, e só então um pouco de umidade passou a fazer parte daquela equação. As línguas embaralhadas, idiomas criados para contar uma história, enquanto as minhas mãos rastreavam os seus seios e as maneiras para desembrulha-los para o meu prazer. O prazer dela era o meu prazer.

Eu rapidamente consegui livrá-la da parte de cima do vestido, que caiu aos nossos pés como um escravo rendendo-se aos nossos desejos.

Arranquei-lhe gemidos com meus lábios grossos, com a minha língua habilidosa e gentil, uma devoradora de delícias como as dela. As mãos reconheciam a maciez daquelas coxas, que ela tão lindamente entreabria para mim, automaticamente, respondendo aos pedidos silenciosos feito com os dedos que mergulhavam e se ensopavam, sentindo-a tremer. Sons enrouquecidos saíam das nossas gargantas.

Firme, impaciente, ela arrancou-me a camisa junto com os botões, jogando-a ao largo. Beijando o meu torso ocupou-se do cinto e do outro botão, em seguida do zíper. A trilha que a sua língua generosa fez circulando o meu umbigo e descendo me obrigou a fincar os pés com força, tensionando os músculos das coxas para não correr o risco de perder o equilíbrio assim, tão fácil.

Apoiei umas das mãos na parede e a outra em seus cabelos, tentando conter a gula que ela demonstrava a qualquer momento, mas parecia inofensivo segurar-lhe os cabelos. Inútil resistir.

As unhas percorriam-me as pernas. Ela me olhava provocante, mostrando o prazer que sentia, misturando-se ao prazer que eu jamais imaginei ser possível sentir. Não parou. Não parei. Movendo o quadril quis me aprofundar nela o quanto pudesse. Ao me afastar um segundo para retomar o fôlego, um arremedo de sorriso me acelerou o coração ainda mais.

Prestes a desabar senti as mãos macias dela me conduzirem ao chão sobre o seu corpo forte, me acolhendo com um longo suspiro, me apertando com força contra si, espremida pelo meu peso, que tentei amenizar firmando as mãos em torno dela, no chão, como se fizesse flexões. Caso um dia me perguntassem, flexões eu diria.

Os sons aumentaram, os gemidos, impossíveis de compreender, nos olhávamos em uma tácita combinação não assinada e explodimos juntos, prazeres indescritíveis.

Trocamos de lugar sem nos distanciarmos um milímetro, e sobre mim ela pôde apoiar-se em meu peito, os cabelos lhes caindo sobre o rosto, o sorriso incontrolável da felicidade.

Milhões de anos passariam sem que fôssemos capazes de esquecer, em qualquer tempo ou situação. Eu era o homem dela. Ela a mulher que me amava.

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

 

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                                             O mundo à sua disposição

 

O mundo está à sua disposição desde que você é concebido, do desenvolvimento até os estertores de sua vida, linear ou confusa; geralmente confusa.

Uma vida linear, clara e rotineira é o que todos costumam apregoar como ideal, embora não aconteça com nenhum filho de Deus, e se acontecesse seria bastante chata, previsível e contrária ao livre arbítrio. A vida não é linear, os altos e baixos acontecem sempre por uma razão, uma atitude tomada gera reações imediatas, e tais reações mudam o rumo individual e afetam a coletividade, direta ou indiretamente.

Um caos mais ou menos controlado, embora paradoxal faz sentido nos corações e mentes, fazendo girar a imensa roda do destino com tragédias e alegrias, descobertas e desastres, mantendo a razão de existir com inspirações e conspirações, milagres e mistérios, fatores inusitados que causam todos os tipos de análises e teorias que ocupam o cérebro de fanáticos e aproveitadores, céticos e crentes em qualquer coisa.

Utilizar essa imprevisibilidade em proveito próprio é o pulo do gato, o alcance do alvo e a facilitação do viver. Como é possível aproveitar o que é imprevisível, de qualquer forma que seja? Talvez deixar rolar sem muitas implicações, lidar com as complicações sem tanto desespero e tensão, amenizar o que é impossível resolver completamente e apegar-se aos momentos iluminados de festividade e tranquilidade.

Uns defendem ser vítimas da manipulação do universo, outros do hipnotismo por parte de um ser superior, outros escolhem se isentar citando uma descrença em tudo, inclusive na própria existência no mundo. Em todas essas hipóteses uma única coisa em comum: todos os argumentos servem para distrair a vida, seguir convivendo com incertezas e negar o enorme vazio que seria caso não houvessem truques de todos os tipos para justificar o planeta, o universo e os seus seres.

 

                                                                       Marcelo Gomes Melo

 

 

  A espada corta-lágrimas para equilibrar a vida e a morte

 

Ele possuía a espada corta-lágrimas. Uma lâmina tão afiada que decepava as lágrimas do inimigo antes mesmo de alcançar-lhe o pescoço, separando-o definitivamente do corpo.

Para merecer tal armamento era necessário ser, antes de obtê-la, um excepcional guerreiro, o mais temido e respeitado por todos, com grande habilidade para debelar rebeliões, destruir injustiças e cultivar uma conexão com o divino.

A honra do guerreiro e as atitudes por ele tomadas diariamente, o compromisso com a sociedade e o respeito às regras de convivências, explícitas ou subliminares eram ponto chave para a glória ímpar de poder empunhar a espada corta-lágrimas.

A ideia é fazer justiça de acordo com a visão de um dos lados, preferencialmente da maioria, porque isso seria uma bela amostra de democracia, mesmo em época rigorosa na qual mortes eram mais do que naturais, até justificadas, e resolviam problemas grandes ou pequenos. O mais poderoso sofria menos, e todos tinha noção disso, colocando-se em suas castas conforme o nascimento e esperando sobreviver o tempo que fosse possível.

Poucos tentavam subir na hierarquia, saindo de uma posição inferior para galgar degraus que lhes permitissem maiores vantagens, maior respeito, riqueza e consequentemente responsabilidade.

O portador da espada corta-lágrimas gozava de grande prestígio, mas isso custava dormir sempre atento, jamais dar as costas a ninguém, porque qualquer vacilo criaria em espaço para a derrocada, elegendo um novo herói. A vida do portador da espada estava sempre em risco, e o seu dom de julgar rapidamente significaria viver mais um dia. Também significava matar inocentes, ir além do necessário, ser impiedoso e considerar como ofensa a mínima situação.

A vida de herói não é fácil. A vida de um virtuoso é testada diariamente, e o seu julgamento final não tem garantias de ser bem sucedido, porque a humanidade é, por natureza injusta, as condições de vida são injustas, embora justiça seja um alvo perseguido a ferro e fogo por todos durante a existência. Muitas vezes definindo erroneamente o que é justiça. Para muita gente justiça é aquilo que lhes favorece. E nem percebem o egoísmo contido em tal definição.

A afiada espada corta-lágrimas é um instrumento controverso, caso haja uma reflexão a respeito. Mas refletir é improdutivo, nesse caso. A humanidade parece necessitar de pacificadores para equilibrar a balança da vida e da morte.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

 

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           A influência psicológica para o bem e para o mal

 

Saiu armado pela primeira vez na vida. Antes caminhava encurvado, cabeça baixa, olhos fixos no chão, as mãos nos bolsos, trôpego e hesitante. Também não ousava erguer a voz, gaguejava e nunca contra argumentava com ninguém a respeito de nada.

Esse cidadão invisível mal era notado quando chamava o garçom em um bar, um táxi, ou na fila do pão. Quando uma mulher se dirigia a ele jamais era por interesse na pessoa suada e trêmula, mas em alguma informação ou para usá-lo como empregado, fazendo favores que jamais recebiam agradecimento.

Então ganhou de um amigo a arma. Um 38 no cano curto que, segundo o parceiro iria mudar a sua vida. Incutiria confiança e aumentaria a autoestima, tornando-o um outro homem.

Agora, com a arma na cintura, estava com as sobrancelhas franzidas, o olhar aterrador e incisivo que atacava o mundo com agressividade e um andar firme, como se estivesse marchando. A voz engrossara e estava segura, fácil de ouvir, e as palavras proferidas estavam muito mais claras, o poder de convencer aumentara em mil por cento!

Imediatamente passou a abordar mulheres com gentileza e bom gosto. Conseguia convidá-las para um chá ou uma cerveja, e após o jantar tinha firmeza de propósito para terminar a noite em um motel ou até na casa da escolhida.

Passou a contestar educadamente as decisões do chefe, e demonstrar através de exemplos as soluções corretas, o caminho a seguir. Conseguiu aumento e promoção, a vida mudou rapidamente e para melhor.

Em contrapartida ele nunca mais largou o revólver. O carregava para todos os lugares, dormia com ele, tomava banho com ele. Cuidava da arma como se fosse um filho, limpava, beijava, ninava e conversava com ela. Planejava construir um altar para ela no quarto, e inserir uma foto do amigo que o presenteara com a coisa mais útil de sua vida. O produto que o transformara em homem de verdade.

Marcou palestras de autoajuda para homens como ele, defendendo a arma como a ferramenta mais poderosa de masculinização do ser humano, incluindo transsexuais. Bradava cheio de si, convencia através do exemplo e se orgulhava de libertar muitos coitados sub-humanos como ele. Cogitava abrir uma igreja para ampliar os benefícios pelo mundo.

Um dia, após o sexo com a mulher com quem se relacionava no momento, fumavam um cigarro tranquilamente, relaxados, quando ela, casualmente comentou:

 - Eu acho um charme esse seu revólver de brinquedo! Parece até verdadeiro, embora seja de plástico. Um homem gentil e pacífico como você fica uma gracinha carregando uma arma de plástico para lá e para cá. O meu sobrinho de sete anos tem uma igual.

Os olhos dele quase saíram das órbitas. Os cabelos se eriçaram e começo a tremer incontrolavelmente. A voz não saía. Fitava a ferramenta de cancelar cpf sem acreditar que não servia para nada! Vomitou barulhentamente sem ter nada para colocar para fora.

Assustada, a mulher ligou para a emergência e fugiu, com medo daquele farrapo humano totalmente diferente do cara que conhecera.

Quando a ambulância chegou, a porta do quarto estava trancada e ele não respondia. Ao derrubarem a porta encontraram-no em um canto encolhido, posição fetal, chupando o polegar. Nunca mais foi o mesmo novamente.

 

                                                                           Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                             Obsessão por higienizar

 

Assistindo àquela belíssima mulher sambando na pista de dança como se não houvesse amanhã, ele se sentiu hipnotizado, maravilhado com tamanha naturalidade; ela exalava alegria de viver.

Ele pensou que poderia tentar a sorte com ela, oferecer um chope com pedaços de frango assado e conversar mais de perto naquela mesa pouco iluminada que escolhera, um pouco afastada. Com uma das mãos acionou o recipiente de álcool gel e espalhou pelos braços, tencionando manter os vírus afastados.

Quando a sambista sorriu olhando em sua direção não pôde deixar de notar os belos dentes brancos. Duvidou que fosse para ele aquela benção divina, olhou para trás, mas não havia mais ninguém.

A sorte estava sorrindo para ele! Só precisava higienizá-la antes de qualquer contato; aquele suor fétido escorrendo pelo corpo lindo, o vestido colado, molhado, a deixava ainda mais sexy. O desodorante devia estar vencido a essa altura, pensou, cheirando álcool gel em gesto automático, franzindo o nariz com cara de nojo.

A mulher veio dançar perto da mesa dele, dando altos moles, rebolando para ele, provocando-lhe uma excitação profunda.

Ah, se ela tomasse um banho! Imaginou-se de macacão plástico, luvas de borracha e escafandro protetor, no chuveiro com ela nua, esfregando cândida e detergente em seu corpo, livrando-a dos germes e deixando-a limpinha, pronta para ele.

Quando a mulher dançou a dois metros dele, sensualmente, não conseguiu deixar de se encolher, não conteve o nojo do vento que soprava em sua direção, levando a onda de mau cheiro de precheca mal lavada  com sovaco podre que provocava ânsias de vômito e tirou as naftalinas dos bolsos para inalar, desesperado.

Ela virou de frente chacoalhando os ombros e sorrindo, quase debruçando-se sobre ele. Não resistiu. Em pé cruzou o olhar com ela, percebendo o quão sensual era a garota, e estava totalmente entregue. Aquele chope iria rolar, com certeza. Pele de frango frito também, e no fim da noite, com o nariz entupido de naftalina poderiam pegar um táxi até um motel com chuveiro potente e diversos produtos de limpeza. A partir daí a madrugada seria perfeita!

Ela deu dois passos em direção a ele e então aconteceu. Foi mais forte do que ele. Com um salto afastou-se dela, e com outro alcançou a porta de saída. Correu alucinado pelo corredor até que se viu na rua. Só então conseguiu soltar a respiração que mantivera presa e puxou fundo o ar, preenchendo os pulmões com o que acreditava ser ar puro fora daquele ambiente fechado, claustrofóbico do bar.

Então olhou de lado e percebeu o lixão acumulado justamente ali onde estava. Empalideceu mortalmente ao enxergar restos de animais mortos, sobras de comida estragada... Arroxeou e caiu estatelado em frente ao sambão, ao lado do lixão. A emenda saíra pior do que o soneto.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

 

                               Virtudes naturais X Doutrinação artificial

 

A sensualidade é intrínseca à mulher, embora vivamos tempos em que artificializar a ponto de tornar bizarro o que era uma qualidade acontece rotineiramente.

A sanha de conquistar a atenção, e com ela a fama, e consequentemente dinheiro, leva ao excesso, que se transforma tranquilamente em vulgaridade. Hoje vale tudo para demonstrar beleza e liberalidade, enquanto ao mesmo tempo, paradoxalmente se luta por empoderamento, o que leva à indagação: é necessário liberdade para se submeter aos desejos machistas, modificando o corpo em nome de padrões de beleza que satisfaçam a população masculina que paga para obter tal satisfação?

O sensual flui discretamente, sem agressividade e sem a percepção por parte de quem exala essa atração inevitável. Há infindáveis maneiras de ser sensual, portanto, a receita ditada pela mídia equivale a do homem que exibe bens materiais como arma de conquista.

O mundo anda confuso, o que sempre foi natural quer ser substituído por criações artificiais, invenções genéticas que, polemicamente daria um controle quase que divino ao ser humano, levantando a questão preocupante se essa mudança contribui fortemente para o fim da humanidade como a conhecemos.

Socializar em tempos de redes virtuais ficou mais raro, e o comportamento de grupos interagindo ao vivo parece falso, com cada um tentando ostentar, ressaltar seus pontos fortes com o intento de ganhar status, e com ele conquistar benefícios, sejam quais forem.

É por isso que, através dos tempos as virtudes naturais apaixonam e são cantadas em prosa e verso, mantendo a originalidade das coisas e procurando defender o que é nato do que é de plástico, construído falsamente, mudando a percepção e os rumos da existência.

Apesar dessa luta do século natural versus artificial, a sensualidade feminina permanece nas mulheres reais, comuns, que encantam sem perceber porque não buscam modelos para copiar, e mantém a personalidade intacta, livre das doutrinações que investem profundamente para criar um só tipo de criatura, um padrão nada atraente a longo prazo.

 

                                                                        Marcelo Gomes Melo

 

 

 

                                  A plena comunhão com o eterno

 

Com as botinas esgarçadas, o suor no rosto pelo esforço da escalada congelando sobre a face, escondo os cabelos revoltos sob o vento inclemente com uma touca que me aqueça as orelhas e acomodo o corpo ao lado da mochila sobre uma rocha para apreciar a cidade que se espalha sob as nuvens de norte a sul, leste a oeste.

Um longo trago de vinho para brindar o feito de chegar, por entre as florestas, ao topo da montanha, e agora me sinto mais perto de Deus. O céu aqui é mais azul e o ar é bem mais puro.

A escalada é um tipo de purificação natural ante as belezas que a floresta proporciona; maravilhas visuais e espirituais que enlevam a alma e liberam os músculos para exercícios comuns, sem a percepção ou obrigação sujeita à moda. O perfume do ambiente embriagando os pensamentos, clareando o cérebro e expurgando os problemas completamente, compartimentalizando-os para que as soluções, quando encontradas, os eliminem sem muito desgaste.

Aqui do alto, com as botinas desgastadas e o coração em farrapos sendo reconstituído, começo a enxergar com clareza todas as possibilidades que estavam acorrentadas sob o rótulo “impossível” no ambiente de estresse arraigado.

Longe de tudo, perto da emancipação espiritual, percebo que a maturidade não deve atuar vinte e quatro horas, deixando espaço para atitudes juvenis, perigosas, insensatas, mas altamente salutares surjam e acelerem o coração, mexa com todos os sentidos e acrescentem tempero à existência.

Em comunhão plena com a eternidade, a solidão parece tão pequena, inerte diante das células do meu corpo que pressentem cada centelha da natureza, recebem nutrição potente, reposição de energias para um retorno revigorado à terra do caos.

Um homem de fé, munido de vinho e amor, filosofando ao entardecer sobre a própria existência consiste em algo anormal nesses tempos de desconfiança e ódio.

Eu vou catar gravetos para uma pequena fogueira. Uma noite sob as estrelas servirá como fechamento perfeito para um dia de vida excepcional.

 

                                                    Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                                           A cura através da fé sóbria

 

Sou vítima das minhas ações, e me regozijo de cada uma delas, erradas ou certas, pois elas me fazem ser quem eu sou, e realmente isso só importa a mim mesmo, quando vou prestar contas a quem me orienta.

O que me torna senhor dos meus atos não é a coragem inata a seres como eu, mas a consciência de que os erros existem para que sejam cometidos, assimilados e corrigidos, enquanto os acertos mal são notados pelos outros, e perder tempo lamentando elogios que não virão, reconhecimento inexistente e buscar inimigos, ou o pior dos amigos, que é a incapacidade ou falta de humildade para concentrar-se nas coisas que enriquecerão filosófica e moralmente. Isso vale para todos nós.

O melhor da vida são os momentos em que atitudes alheias são reverenciadas; é assim que cultivamos o amor e a alegria para nós mesmos, muito mais do que as pessoas que estão sendo reconhecidas.

Os destinos seguem os seus caminhos, quietos, impassíveis, indiferentes, realizando os seus deveres imparcialmente. É muito difícil poder modifica-los; redirecioná-los, no entanto, facilitando a existência é plenamente justificável.

Para isso basta adentrar o labirinto escuro das emoções e lidar com elas sem amargor, suportando as dores, saboreando os prazeres, curando as feridas com o advento da fé, sóbria e iluminada!

 

                                                                         Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                                      Reconstitua-me!

 

Embriagado por uma cachaça chamada mulher, que me derrubou por dias e dias, sempre procuro recuperar as energias para gastar com ela e suas maquinações estonteantes que me levam ao paraíso que só os bêbados e os apaixonados alcançam; vivo entre o prazer e o mistério. Ou o mistério faz parte do prazer? Ou eu não sou capaz, pela embriaguez, de determinar se o mistério é mesmo mistério ou o contrário? É tudo tão escancarado e claro, que me acomete de delírios.

Talvez esteja se perguntando por que ainda não falei da dor. Simples: a dor é colocada em segundo plano para os momentos de sobriedade, momentos de ausência dela, a mulher.

A dor fica nos bastidores, nos momentos em que eu, entorpecido, sorvo cada gotícula do bálsamo que ela me oferece, afirmando ser provocado por mim; toques dos quais não me lembro. Lambidas das quais guardo apenas os diversos sabores.

Ela, a cachaça que me inebria, vicia e ao mesmo tempo alivia parece ser um passe para uma vida fora da realidade, até que se acabe, e a garrafa vazia seja atirada ao mar com uma mensagem desesperada da minha parte. Reconstitua-me!

 

                                                                                 Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                             Ausentando-se do mundo dos vivos

 

O quarto movimento do homem é o mais decisivo em sua jornada, que pode ser interrompida por más decisões ou prolongada por atitudes que o beneficie, e a outrem, durante a provação constante que é viver como mais um dos habitantes do planeta. Considerando-se o mais racional, o único racional, o mais inteligente e capaz, ocupante do topo da cadeia alimentar, portanto sem predadores, e elegendo a si mesmo uma espécie de semideus, com permissão para alterar o curso da natureza e, aos poucos destruir a existência de diversas formas viventes que habitavam o local bem antes mesmo de sua existência.

O primeiro movimento é nascer, puro, como afirma Rousseau, sem defeitos ou conhecimento das artimanhas usadas rotineiramente para sobreviver em sociedade como um predador voraz e feroz, ultrapassando o obstáculo inicial.

Durante esse período o ambiente no qual lhe coube nascer influenciará permanentemente na base do seu caráter, bélico ou conciliador, astuto ou néscio, moralista ou devasso, a responsabilidade dos pais é altamente requerida, e é nesse instante que ele absorve características primordiais que o acompanharão para sempre.

O segundo movimento é crescer. Saudável física e mentalmente, livre de preconceitos e influências externas prejudiciais. É o começo da aprendizagem de separar o joio do trigo.

Acontece que durante tal fase é impossível evitar influências, principalmente midiáticas, dizendo como criar, como agir, como cuidar, como punir ou premiar... Trata-se de uma substituição visceral e os meios de comunicação tomam o lugar dos pais e da família no ato de orientar, e nem sempre o fazem corretamente, destruindo um caráter violentamente.

O movimento número três diz respeito ao desenvolvimento do indivíduo em sociedade. O que ele pretende realizar, o respeito com o qual deve tratar os seus pares, o interesse que demonstra em evoluir e a maneira como pretende fazê-lo, pisoteando os concorrentes ou agindo com justiça e lealdade... O seu posicionamento diante da vida, as crenças que deveriam acalentar o seu coração e orientar a condução de sua existência com qualidade, respeito ao próximo e liberdade para lidar com os problemas com consciência e afabilidade, crescendo sem desconsiderar ou prejudicar a ninguém por isso.

Esse período tem sido cada vez mais difícil com a perda do senso hierárquico, do respeito às instituições, da manutenção das tradições e imortalização da história, da transição das ideias produtivas e criações que beneficiam à humanidade igualmente.

Gerações são manipuladas e dominadas ao ponto de parecerem zumbis; opiniões são rechaçadas com ódio pela incapacidade de dialogar em nome do bem comum, e não determinadas classes e castas.

Não é possível afirmar que isso seja inevitável, parte do que foi previamente traçado e impossível modificar, culminando com o quanto movimento, o último deles aparentemente.

Trata-se basicamente do movimento final nesse nível, pelo menos, que é a forma como o indivíduo vai desligar-se desse mundo, morrer, deixar as suas conquistas e os seus legados ou aliviar os outros da sua torpe presença na aventura de viver em comunhão.

Pensando desse ponto de vista há como escolher, sim, o modo como irá ausentar-se do mundo dos vivos. Todos os movimentos anteriores servem como currículo para aloca-lo em seu lugar de direito, seja ele qual for. Portanto, o livre arbítrio deveria ser utilizado de maneira muito mais inteligente e valiosa; mas então não seríamos seres humanos.

 

                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                    A falácia do amor incondicional

 

O amor incondicional pode ser bastante tedioso, embora seja o santo graal da maioria das pessoas nas redes sociais, nas trocas de cartas nas caixas postais, nos programas de televisão à tarde para donas de casa desiludidas. a

Trata-se de uma busca ilusória e infrutífera, já que todos os participantes acreditam encontrar tal amor diversas vezes, trocando de pares cada vez mais rápido após seguir o devido protocolo, que é conhecer-se superficialmente, contar segredos da vida pessoal um do outro que logo se tornarão armas para atingir mortalmente e tentar consertar o erro de achar ter encontrado o amor perfeito.

Surge como um jogo para solitários ingênuos que pretendem superar os próprios defeitos com as qualidades do parceiro, mas logo descobrem que isso exige reciprocidade, e logo um caminhão de defeitos derrama-se sobre si, dobrando o desespero e distanciando-se do que, a princípio parecia amor.

Os que vivem melhor são os que se adaptam às imperfeições do amor, desistem de mudara si mesmos e aos outros e distribuem o sofrimento igualmente a ponto de se tornar suportável.

Então as pílulas de carinho, atenção, cuidado e apoio servirão plenamente para restaurar o corpo e a mente das dores, realizando desejos e guiando para uma nuvem quase incessante de alegria.

Um amor mais pobre, sem superpoderes, realista, que atua como base para a construção de uma vida inteira!

Soa melhor viver com o que for possível receber do amor do que querer coloca-lo em uma jaula e dominá-lo ao ponto de fazê-lo perder o valor, esvaindo-se pelo ralo enquanto o seu corpo vazio adormece e morre aos poucos por algo sem cura.

 

                                                                            Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

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                           Guerreiros e heróis a serviço de quem?

 

O guerreiro sofre e faz escolhas radicais que lhe testam a honra e a lealdade o tempo todo, sem hesitação, sempre pronto ao sacrifício, disposto a encarar de frente os perigos mortais e imortais por causas fantasiosas e fantásticas.

Ele não se importa nem um segundo com o seu bem estar, com os seus desejos pessoais e objetivos que o elevariam como um líder em um mundo de cordeiros.

Na realidade, o guerreiro é um ser falho e subserviente, incapaz de lutar por algo menor como o núcleo de sua família, a quem deixa desprotegida para defender, na sua concepção, coisas muito maiores; um ideal, um líder e os responsáveis pelas regras e decisões que controlam a população. O guerreiro é arma letal que cede a própria vida para que o sistema mantenha o poder e elimine a todos os que discordem desses parâmetros, sejam família, amigos ou estranhos em busca de participar ativamente das decisões que favoreçam a todos, e não só a minoria privilegiada.

O guerreiro é um herói controverso, por iludir, sem saber, a maioria, e obedecer humildemente aos tubarões que tratam o povo como objetos dispensáveis, meramente alimento para as máquinas que são programadas para manter o equilíbrio do planeta através dos anos, sendo sacrificados de inúmeras formas, cruelmente, para que os grupos seletos dos líderes mundiais mantenham o poder e com ele os benefícios. O resto é teoria da conspiração, fumaça de pneus para confundir ainda mais, servindo de distração aos que caminham lentamente em direção do matadouro.

 

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                              Segredos são segredos?

 

As pessoas falam em segredos constantemente, e costumar dar a essa palavra importância crucial para a vida em sociedade.

De segredos ingênuos como uma festa de aniversário da qual todos sabem, menos o homenageado, a coisas que com certeza causariam comoções em diferentes níveis caso venham à tona.

A pergunta é: isso é mesmo segredo? Compartilhar algo com uma ou cem pessoas deixando de fora apenas a razão, o personagem, a vítima do falatório pode ser considerado um segredo? Se quanto mais pessoas tiverem conhecimento do fato, a tendência não é que isso se espalhe até que chegue ao conhecimento da vítima, tornando o desfecho insuportável e imprevisível, inclusive com término em fatalidade?

O segredo de verdade só pode ser conhecido por apenas uma pessoa e mais ninguém. Ele jamais será contado a outro, e jamais pensado nem em frente ao espelho. Se contado a uma segunda pessoa deixa de ser segredo. A disposição do conhecedor do fato de levar para o túmulo sem comentar nem consigo mesmo, insinuar ou permitir especulações por parte de quem quer seja.

Da maneira pela qual tratam o que chamam “segredo”, os humanos buscam de alguma maneira permitir que vazem e aumentem a ponto de explodir com grande emoção. É a função principal do segredo, da forma como é utilizada hoje em dia, ser descoberto.

Os segredos são contados pela ineficiência dos homens e  mulheres em manter qualquer fato, relevante ou não, apenas para si; precisam disseminar até que seja descoberto, como o ápice de uma novela, só que na vida real, de vez em quando passando dos limites e causando desastres e destruição.

O segredo faz parte da necessidade que as pessoas têm de criar fábulas de fatos simples para viver emoções artificiais ao mesmo tempo em que bradam por atitudes transparentes e verdades acima de qualquer coisa. Essa humanidade não é realmente inexplicável?

 

                                                                              Marcelo Gomes Melo

 

 

 

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                                             O fim do falar do amor

 

Anoiteceu em minha alma e agora não consigo mais falar sobre amor verdadeiro e suas derivações. Eu perdi a visão que ia além da realidade e alcançava o âmago das paixões para descrevê-los tão bem quanto as sentia.

O vigor que me proporcionava amar há muito se foi, e as minhas forças se resumem a meramente sobreviver nesse espaço gélido e inóspito entre o existir e o viver sem parcimônia; eu morro o tempo todo apagando as belezas coloridas e maravilhosas com o meu olhar acinzentado. Não ouso gemer, sequer, para não denunciar a minha ausência através do mais triste som.

A razão para uma alma jamais amanhecer não é o conjunto das decepções que o amor costuma pregar, pois essas peças, por mais dolorosas que sejam, costumam cicatrizar com razoável rapidez, embora retornem de tempos em tempos para se fazer eternas, marcas das infindáveis batalhas da paixão.

Uma alma anoitece de forma permanente quando se recusas a mudar de amor, com todos os desvarios, ferimentos e tristezas que o compõem. Quando nenhum benefício carinhoso e atencioso é suficiente para resgatar do limbo os pensamentos tormentosos e as falhas impossíveis de consertar nesse nível.

Eis a razão pela qual não se pode mais falar de amor, muito menos senti-lo de outra forma, porque o amor perdido continua tatuado a ferro e fogo sobre um coração engaiolado para sempre. Deixar de amar é impossível, mesmo afogado em um sofrer incontável.

 

                                                                    Marcelo Gomes Melo

 

 

 

 

                                           Sobre rugidos e atitudes

 

Rugir como um leão nem sempre é eficiente, a não ser que atinja as suas próprias más decisões. Então considere a ideia de apavorar a si mesmo no espelho para acordar e reconhecer os próprios enganos, erros que o enterrarão fundo em um buraco sem fundo, assustador, com ações que minarão a sua coragem, a autoestima e força de vontade para retornar à margem com mais uma chance de lutar.

Agir como um leão raivoso contra o mundo pode apresentar resultados imediatos, mas efeitos colaterais, como extinção de amigos e um imenso vazio por dentro que o farão questionar a sua posição social e o seu valor como indivíduo merecedor de reconhecimento e amor.

A maior disputa de um homem é consigo mesmo e contra a sua porção sombria, aquela que o impele a reagir violentamente sem necessidade, incapaz de reconhecer os seus benfeitores, as pessoas que o amam de graça, que esperam compartilhar as suas dores diminuindo o seu fardo apenas para lhe ver sorrindo feliz.

E é óbvio que para perceber isso é necessário sensibilidade e capacidade de se entregar como pessoa, oferecendo em troca tudo o que recebe naturalmente. Tão rotineira que parece comum, embora sejam pérolas de amizade e riqueza de afeto.

Os rugidos são necessários, mas devem ser direcionados corretamente, controlados a ponto de acertar o alvo e reverter-se em bons fluidos para continuar a vida.

Em um mundo frio e indiferente, pessoas conectadas por interesse mútuo e alegria pela vitória do outro, constroem uma parte indestrutível para refazer uma sociedade justa e em constante evolução.

 

                                                    Marcelo Gomes Melo

 

 

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                                                Morte iminente, culpa zero

 

A voz metálica e bonita da mulher, gravada digitalmente anunciava, sexy: “térreo”. A figura suada e desarrumada, olhando para todos os lados, olhos desvairados, desconfiados, cabelos espalhados e mãos trêmulas sufocou um urro de ódio e frustração quando não conseguiu vaga no elevador. Mais uma vez, como em toda a sua vida, fora deixado à margem, ignorado e humilhado; mas seria a última vez.

Franzindo o cenho, com os dentes trincados parecia um touro furioso, prestes a investir contra a parede com cabeçadas potentes e destruidoras.

Assim que encontrou as escadas decidiu não esperar mais. Esperara a sua maldita vida inteira! A fila de merenda, a fila do ônibus, a fila do metrô... A chance de se aproximar da Osvalda, a mulher da sua vida, ajudante de serviços gerais daquele prédio luxuoso, uma retirante da seca nordestina que comia farinha com rapadura e chegara à cidade grande em busca de uma vida melhor. Ele, e mais ninguém, pensou, fungando forte, subindo os degraus de três em três, arranjara o emprego para ela. Ele, e só ele tirara a Osvalda da lama podre da miséria e promovera a sua ascensão ao nível humano.

Já no sexto andar olhou o relógio, esbaforido, sem hesitar em continuar a marcha, que terminaria no vigésimo oitavo andar com a sua declaração de independência a um mundo cruel.

A safada agora usava até batom! Aqueles lábios rachados antes nunca viram tais enfeites. Respirou fundo no décimo andar, lembrando de quando levava Osvalda para tomar café com leite e uma fatia de pizza no final do turno de tardezinha. Ela nem sabia falar “pizza”!

Ele era a figura humana mais próxima de um deus para Osvalda, ela tinha que reconhecer! Comprara creme para aliviar os calos daquelas mãos duras e pés chatos com dedos separados. Praticamente a transformara em uma mulher da raça humana, com roupas bonitinhas e não aqueles trapos que costumava usar, confeccionados com sacos de farinha de mandioca.

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No décimo oitavo andar a dificuldade para respirar era grande, o rosto vermelho denotava problemas físicos, mas a coragem e o ódio continuavam os mesmos. Ele era um rei! Homem bom, de família, trabalhador... Iria cometer suicídio em nome de todas as qualidades que o universo ignorava. A falta de elogios, a avidez com que se aproveitavam dele em troca de nada...

Osvalda o decepcionara. Aquele cabelo que jamais vira um pente agora tinha corte e xampu, estava cheiroso graças às indicações dele! Levara anos até ousar se declarar, pedindo-a em namoro com o coração na boca. Nunca antes a tocara, mas ao roçar em sua mão de lixa sobre a mesinha de madeira ela recuara como se tocada por um réptil. A gargalhada fina, cheia de desprezo fora um golpe mortal.

Quando explicara que não era mulher para o bico dele, Osvalda tinha uma expressão irônica de pena naquele rosto recauchutado que antes fora um pergaminho. Colocara a si mesma acima dele, dizendo sem meias palavras que merecia alguém hierarquicamente superior a ele, mero faz-tudo. Ela pretendia se amasiar com algum porteiro de prédio ou garçom; com sorte até um motorista de táxi...

No vigésimo sexto andar, bufando arroxeado amaldiçoou a Osvalda, espumando de raiva! Iria se matar e deixa-la conviver com a culpa para sempre!

Vigésimo sétimo andar, cambaleante, olhos mortiços, encurvado, já se questionara se teria forças para voar em direção ao além.

Vigésimo oitavo. Cumpriria o seu objetivo, ninguém o impediria! Deu três passos a caminho do parapeito e tombou, esverdeado...

Não conseguiu nem isso. Morreu antes de se matar, infarto fulminante. Osvalda jamais saberia que era a causadora de sua morte; carregaria zero de culpa. Era mesmo um inútil até para morrer, foi o seu derradeiro pensamento.

 

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

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                                             Beleza, tristeza e certeza

      

Nos meses de outono sob o luar frio e o ar gélido, em plena madrugada eu caminho tranquilo, carregando as minhas dores, observado pelas flores que desabam das árvores suavemente, justo à minha passagem, como se homenageassem a minha tristeza controlada, o nexo dos meus pensamentos desencadeando nelas uma reação natural maravilhosa.

Com as mãos enluvadas devidamente protegidas dentro dos bolsos do casaco, caminho lento, um tanto trôpego, divagando sobre sei-lá-o-quê! É isso o que me ajuda a respirar! É isso e mais as estrelas, que desenham inúmeras formas, todas elas infalíveis para quem sofre dos males de amor.

E os escritores perguntam em voz alta e agressiva, antes de entornar o resto do conhaque no copo, causando no corpo um fervor interno digno de um vulcão prestes a explodir impiedosamente: como falar com propriedade sobre algo que não se viveu? Como transformar em fantasia a realidade que muitos já experimentaram, e até hoje carregam as marcas no corpo e na alma.

Nos meses de outono, ante aquele entorno silencioso o meu coração grita, acordando a todos os que ainda acreditam e formam a legião dos incompreendidos, dispostos a arriscar sorrateiramente o que não fariam jamais sob um sol perscrutador e impiedoso.

O fogo da paixão transforma-se de acordo com a faixa etária, a experiência e as necessidades que movem o mundo através de cada engrenagem.

Não se enganem, o outono, quando as folhas caem, realizam milagres de mudança pessoal, em partes igualitárias como uma bela árvore que perde a folhagem e expõe-se despida, uma beleza especial aparentemente destrutiva, mas disposta a recomeçar do zero e, no próximo verão oferecer belas sombras aos que nem sabem o quanto é preciso ficar nu diante dos seus pesares até recomeçar, produzindo beleza, tristeza e certeza.

 

                                                                    Marcelo Gomes Melo

 

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                A vida social, como a conhecemos, exterminada

 

 

Coberto de razões eu não quero mais ouvir as ruas. Não me importo absolutamente com o que a sociedade pensa, com os seus dogmas infantis, idiotizados, tentando plantar nos cérebros de quem está de bobeira ideais vergonhosos, de argumentos tão nocivos à vida em conjunto...

Já não me animam as criações da juventude, nada originais, cópias que conseguem transitar rapidamente como uma verdade única, criada por alguém que faz uso das máquinas de propaganda.

Sem a matéria prima fundamental, ou seja, capacidade de raciocinar, além de brigar, e humildade constante para aprender mais do que ensinar, e diversão pura, porque a vida é boa.

O lodo que corrói os sapatos é falso, lhe empurrando para lugar algum capaz de lhe punir e ao mesmo tempo manter os seus pedidos intactos, insinuando que há mulheres que fazem do inferno uma realidade alternativa, o que os faz brincar com o que realmente conta, vivendo uma pré-abdução ou um curso rápido como serão as coisas de agora em diante.

Resta saber o quanto estará disposto a mudar de dogmas tão simplesmente, que aos olhos ingênuos, tudo realmente ou perde o valor ou produz lucro indiscriminadamente.

Vale o risco. Vale tudo. Som bem alto, covardia pilhada e o fim do planeta como o conhecemos. Isso está fora de questão!

                                                                     Marcelo Gomes Melo

 

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                                                                 As sombras e as sobras 

 

   

Sobre sombras, as sobras do que o dia preencheu na sua vida, interpelando a sua capacidade de agir como um cidadão de bem no meio das enrascadas inevitáveis que lhe fazem duvidar da própria sanidade.

 

Mesmo que o sol brilhe e lhe faça suar na correria infame por reconhecimento, as sombras estão lá, gelando a espinha, arrepiando a pele sensível, provocando a sua motivação para disfarçar orgulhosamente, demonstrando aos outros o que está longe de ser. Patético por achar que ninguém percebe. Todos fingem que acreditam porque estão na mesma barca furada em alto mar, cada um com os seus próprios problemas, com a nuvem negra particular que encharca a alma e enfraquece as pernas, retirando dons que você nem imaginava que tinha.

 

As sombras não lhe descansam, lhe escurecem a alma, arrancam a vontade de lutar, transformam em seres reclusos quem deveria acreditar nas maravilhas que os circundam, exemplos para continuar e vencer simplesmente porque a vitória é algo natural, comum e esperado nas circunstâncias que regem a existência.

 

Os sobreviventes contestam as sombras e as sobras, se recusam a entregar de bandeja as ferramentas inerentes a quem existe para resistir, e para quem a felicidade é resultado de pequenas coisas, merecidas e conquistadas sem transformar em concorrentes quem apenas é mais um na corrida pela realização dos sonhos mais inacreditáveis.

 

Não é que as sobras devam ser descartadas e ignoradas, mas sim reconhecidas como complemento necessário à manutenção da dignidade.

 

O resto se modifica virando mágoa para os fracos de caráter e pobres de coração.

 

                                                                          Marcelo Gomes Melo

         

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